Meu gato toma café. Nada idiota da minha parte.

14set10

O Sal morreu.
Era um dos meu amigos das antigas.
Grande amigo.
Das bem antigas.
O Sal morreu.
Me ligaram pra dizer.
Nem fui no enterro, queria lembrar dele assim.
Do jeito que eu conheci.
Rindo e mandando eu me fuder.
O Sal morreu.
E a vida segue.
Somos arrastados em alta velocidade.
E ele fica pra trás.
É sempre assim. Não para.
O Sal morreu.
O desgraçado deu um jeito de fugir dessa.
Sempre foi assim, mais esperto.
O Sal morreu.
Bom, antes ele do que eu.

Amélie vai viajar.
Ela e o Rambo.
Vão passar uns dias com o Truman-pônei-colorido.
Eu respeito esse cara.
Deve ser o cara mais inteligente que eu já conheci.
E tem jeito de um viadão.
Mas me ajudou um bucado.
Agora eu sei o que fazer.
Só falta eu fazer.
O que pode levar uns 2 bilhões de anos.
Mas eu vou fazer.
Só preciso te ver.
Só.
Querido mundo irônico, eu te odeio.

Amélie pediu pra eu cuidar do apartamento dela.
No primeiro dia eu deixei a janela aberta e choveu.
Tudo bem, ela não vai notar o sofá molhado.
No segundo dia, eu ainda esqueci de fechar.
Eu sai pra andar.
Quando voltei tinha um gato ali.
Lambendo suas partes.
Isso é realmente estranho.
Mandei ele sair.
Ele me encarou.
Parecia novinho, um filhote.
Mandei ele sair.
Não saiu.
Gato durão!
Perguntei se queria leite.
Ele miou que sim.
Eu falei que também queria e tinha esquecido de comprar.
Dividi meu café.
Sentei no chão e ele veio junto, era magrelinho.
E não tinha pra onde ir.
Me identifiquei com ele.
Companheiro mal-ajustado.
Ele pode ficar essa noite.
Lembrei daquele filme.
Em que o pai morre e volta como um cachorro.
Eu olhei pro gato e perguntei: Sal?
O gato sorriu.
Eu sei que é estranho imaginar.
Mas ele sorriu mesmo.
De qualquer forma, ali estava, o Sal.
Eu tinha toda certeza disso.

Quando dei por mim o Sal fez uma semana aqui.
Na base do café!
Ele saia comigo cedo e a gente andava por ai.
Ele até aprendeu um truque.
Eu nunca o carreguei.
Ele andava do meu lado.
Toda vez que vinha um carro ele sentava e esperava o carro passar.
Atravessava a rua melhor que eu o desgraçadinho.

Eu levava ele comigo aos lugares.
Antes de conhecer uma garota eu perguntava pra ele.
Ele ia lá e mordia ela.
Toda vez.
Não gostava de nenhuma.
Só me faltava.
Era gay o gatinho também.

Um dia começou a chuviscar.
O Sal odeia a chuva.
Claro, ele é um gato.
Então eu desafiei ele pra uma corrida até em casa!
Uma rua.
A chuva.
Um carro apressado.
O Sal.
Eu ouvi o barulho do carro derrapando.
Meu coração parou, eu não aguentaria isso.
Por favor, não!

Quando olhei pra trás ali estava você.
Subindo na calçada, com o Sal no colo.
O cabelo todo molhado.
Linda.
Você me entregou o Sal e sorriu.
Olhei pro Sal, olhei pra você.
Ele entendeu.
Pensei que fosse te morder.
Pensei mesmo.
Mas ele só pulou de volta em você e se preparou pra dormir.
Me olhou como quem dissesse: é essa a garota certa, seu idiota!
Eu não pude discutir.
Nunca pude.
Eu sempre soube de todas as respostas.
Acho que só precisava de alguém pra me gritar isso.
Você falou da janela.
E por mim, tudo bem, claro.
Vou concordar.
Vou acreditar.
Tudo bem, claro.

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2 Responses to “Meu gato toma café. Nada idiota da minha parte.”

  1. Podia ser um cachorro, eu odeio gatos. As vezes passo aqueles minutos antes de conseguir dormir imaginando formas muito criativas para matar os 3333 gatos da vizinha.
    Mas esse gato fez algo significativo. Ele não está nos meus planos malignos.
    Talvez algum dos gatos da vizinha já tenha feito algo significativo. Droga. Não vou mais matar eles.
    Eu adoro sua história.

  2. 2 Suúh

    adorei *-*


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