escrevo de novo.
parece que sempre sobre as mesmas coisas. 

seria como me atirar rumo ao céu sem fim – sozinho – pela primeira vez.

o problema é que não existe nada de novo pra contar,
talvez eu só tenha visto filmes demais
e aprendido sobre coisas que percebi que não gostaria de saber.
acho que agora sei mais do que nunca sobre cansaço,
uma vontade absurda de gritar e sobre o tempo.
mas juro que mesmo assim roubei qualquer coisa sua
e te desejei o céu mais azul do universo.

às vezes surge numa tarde de segunda, ou num sábado a noite
e fica por aqui, como a poeira chegando devagar nos livros da estante
mas não que seja ruim e só que deixa a gente mudo
como os segundos mais lentos do mundo. 

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rodopio

25maio18

hoje pousei em rodopio 
não era nave nem pássaro
era minha cabeça
que mal atingia as nuvens
e já sentia a tontura
que você sempre me deu.

não te fiz nem de planeta 
nem de estrela
pra não te deixar mais inalcançável
do que já me parecia.

mas juro que toda noite
eu conto as luzes do céu
e prendo a respiração
porque sempre me parece
o fundo do mar

não te contei nada
mas são nesses extremos 
de tão mais alto ou tão mais fundo
que fui encontrando todas as grandezas
até aquelas mais diminutas
que comprovam que nesse universo existe você. 

por isso hoje pousei em rodopio
e limpei a poeira da minha roupa
e voltei a sentir o chão sob os meus pés
e deixei você na minha cabeça. 


alguns dias eu quase esqueço
e vou contando as horas
sem desespero. 

quando penso em te encontrar por acaso
olhando ao redor, mexendo no cabelo
colorindo as tardes
me tirando do cinza.

na verdade eu sempre penso em sair atrás de você
mas tenho medo de não encontrar sua casa,
e me perder como sempre acontece quando te vejo
então só ando na rua a esmo
torcendo pra qualquer dia dar certo
e aceitando a necessidade,
esperando você me chamar
olhando você nos olhos mesmo se estiver em outra cidade. 


então você percebe que já olhou pela centésima vez as mesmas paredes
e as cores do seu quarto te dão vontade de gritar,
parece que todas as suas coisas couberam numa garrafa
e você percebe que precisa de um plano
ou de qualquer coisa assim.

acho que a gente nunca aprende a passar por tudo,
provavelmente só por algumas coisas
ou por quase nenhuma delas, na verdade

mas quando a chuva chega você só precisa andar
alguns passos de cada vez
e ter uma certeza absoluta de que não vai parar,
e que não vai parar por nada nesse mundo. 
porque nada no mundo vai pagar o fogo que te queima no peito
ou substituir o tremer de mãos de tanta euforia. 

porque se tem uma coisa que eu aprendi
é que se isso te faz sorrir tanto que até perde o sono
então vai valer cada segundo
seja de viagem, de tremedeira, de fome, de cansaço
a gente só luta de verdade quando a gente acredita
e não vale de nada acreditar em alguma coisa e não lutar por ela.

eu tô sempre me perdendo de mim em algumas coisas
e preciso fazer uns dias de resgate até voltar do fundo do mar.
pelo menos o céu sempre parece mais azul depois. 


todas as horas
que passam
passam por nós
e ficam só as marcas
na parede e nos móveis
e nos ombros

e o relógio parou
no mesmo lugar da outra semana
e percebi
que já tinha passado
um ano todo
parado no mesmo lugar
olhando pra mim
sem me ver

todas as horas que passam
todas elas
passam sem fazer barulho

mas bagunçam a casa toda
e deixam os livros
em desespero
de tanta poeira

e eu tento respirar
segurando minhas mãos
e não ouvir nada de fora
a não ser o que me permita
ficar tranquilo em mim.


gigantes

11abr18

cada vez que eu tento passar por debaixo da porta
um enorme gigante de pedra me empurra de volta
e isso acontece também quando tento subir no telhado
ou descer as escadas e de vez em quando
bem na hora de levantar da cama.
ele sabe meu nome, ele sabe do que eu gosto
ele sabe de tudo que eu tenho medo
como se tivesse me estudado a vida toda
e me assusta pensar que talvez ele tenha mesmo.
me assusta pensar também em todas as vezes que ele me convenceu
de que eu deveria era me calar
segurando e impedindo até mesmo minhas mãos de escrever
com toda a sua força bruta e sua voz rouca
e me tirando o sono, uma madrugada de cada vez.
ele repousa na janela e tampa o sol
pra assim, pouco a pouco, eu esquecer das cores
e dos sons que as coisas fazem quando a gente 
resolve prestar atenção nelas.
quando resolvi conversar com esse gigante
pedindo de volta o controle da minha vida,
ele me botou pra correr sem dizer uma palavra
apenas me olhou por tempo o bastante
pra eu me reconhecer em seu rosto.
o pior é que o desgraçado soava muito menos cansado do que eu.
talvez ele fosse um eu melhor do que eu.
obviamente eu desisti de qualquer plano 
que estivesse drasticamente fadado ao fracasso
e me dediquei em coisas pequenas que não chamassem tanto atenção.
respirando um poema mirradinho de cada vez,
um capitulo numa tarde preguiçosa
e, como a gente aprende na escola,
deixando um monte de pessoa bem maior do que esse gigante aqui por perto.
talvez não seja nenhuma ideia tão digna de nota,
mas agora o gigante costuma dormir por dias pra só aparecer de vez em quando,
e eu percebi que a gente começa a crescer de dentro pra fora
pra, vagarosamente, a gente alcançar o tamanho de uma formiga
e percebe que por mais que não seja o ideal, já ta bom.
porque agora cada vez que o gigante me segura
e não me deixa fugir por debaixo da porta,
eu separei um monte de coisa boa que tô aprendendo a contar.
e eu tenho certeza que assim que a gente se olhar
vou estar muito melhor do que ele. 
ou pelo menos sem tanto medo.


a luz do cinema, do outro lado da avenida
a rua depois das 6, depois de toda a lucidez
e se eu te procurei, não foi por mal
foi só um descuido
ou o medo de te encontrar ainda mais em mim.

porque ninguém ouve o que a gente diz
até a gente gritar mais alto
e se são as luzes ou as pessoas
que confundem ainda mais a minha cabeça
tá tudo bem, se você vier enfim.

porque eu congelaria o tempo todo
pra estar sempre nos mesmos segundos
e atravessaria a cidade
só pra te ver
indo embora outra vez.

porque são as suas cores
e os poemas que me repetem quando não sei dizer nada
e na verdade sei bem menos do que achava
mas eu sei, que eu só quero saber
onde você vai estar.