comecei a cantar mais baixo
era só pra perder o medo de me ouvir
e na verdade era pra ver também
se assim você me ouvia melhor.
entre tanta gente falando tão alto
e o som da televisão que deixa impossível de conversar
eu sussurrei o seu nome
pra logo depois correr deixando todas as cores do céu no meu alcanço
e fui acordar mais tarde
porque fiquei bêbado de tanto lembrar de você sorrindo.

existe uma regra de etiqueta que ninguém comenta
mas que diz que a gente deve ser feliz.

logo eu aprendi a contar meus planos bem baixinho
mas ainda não sei não ficar eufórico quando te vejo.
então eu sempre penso em escrever
sobre sua pele, seu cabelo
e sobre os dias que na minha cabeça são tão poucos.
eu canto mais baixo
e passo a noite inteira acordado
e tento mudar as cores de qualquer dia que seja cinza demais.

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começa sempre da mesma forma;
um corredor longo, os passos mais compridos
e o quase alcançar estende os dedos
e eu puxo com todas as minhas forças
mas nunca aprendi a segurar fumaça com as mãos.

é como esquecer sua música favorita
ou acordar tarde no dia mais importante da sua vida.

eu estive sentado aqui a semana toda
acho que um pouco mais
talvez o mês todo,
talvez você não tenha percebido,
mas essa luz quente
desenha todos os seus contornos 
e eu prendo a respiração
ao te ver assim, vestida de amarelo.

a segunda parte é parecida;
mas eu só encosto a cabeça no vidro do ônibus
e recito pra mim mesmo todos os meus planos.
e talvez seja sobre aprender a aguentar algumas coisas
pensando em tudo que pode vir depois.

eu fiz as pazes com o tempo na semana passada,
ele odeia o tamanho que meu cabelo tá agora.

parece, ocasionalmente, que ando sempre tropeçando
e talvez a maior lição que isso pode levar pra dentro da minha cabeça,
é que eu não perco partes de mim por aí,
mas vou colecionando algumas coisas novas que são gostosas de contar.
talvez eu deva comprar um moletom novo,
aproveitar que é mais barato agora no calor,
eu devia também ter um guarda-chuva
eu devia terminar de escrever os 10 livros que já comecei
eu devia voltar a tocar
e eu devia mesmo passar uma tarde toda só olhando você respirar. 


acho que te vi passar
ou acho que quase te vi passar
acho na verdade que você nem tá na mesma cidade que eu
acho que isso faz parte sobre qualquer que eu falei sobre pensar bastante em você
acho que fiz uns planos
ou acho que me perdi de novo com todos os planos que não dão certo
porque na verdade acho que planos só servem pra isso mesmo

acho que talvez seja só algum medo absurdo
acho que na verdade não sei muito bem ser eu
então acho que por isso falo sem parar e às vezes quase nem respiro
acho que é só pra tentar te mostrar que tenho qualquer controle
ou que meus pés não ficam grandes ao seu redor

acho que agora eu queria ficar em silêncio
e te abraçar
acho que quero gritar tanto que vou ficar sem voz

acho que quero te ligar qualquer hora
acho que senti saudades a semana toda

acho que eu escreveria qualquer coisa por você
acho que na verdade quase tudo já é sobre você
sobre seu cabelo, a luz quente do abajur 
sobre tudo que eu acho que lembro daquele dia
acho que lembro, porque na verdade sempre me confundo com tudo
e todos os dias sorridentes, eu acho, que acabam sendo aqueles em que eu te vi

acho que eu se eu pudesse te contar qualquer coisa agora
só diria o quanto eu te acho tão bonita.


ela pulava a escada de 3 em 3 degraus
– foi a última vez que a gente se viu –
era um vendaval, um furacão
segurando todas as horas entre os dedos
pra não deixar a vida escorrer
igual a areia da ampulheta do jogo imagem e ação.

ela correu a rua toda, pé ante pé
abriu os braços no meio fio
e percebeu que se pudesse se jogaria
todas as vezes, do lugar mais alto da torre mais alta,
e fecharia os olhos pra não ver o amarelo tomando as paredes
nem a poeira nos bancos e os jornais de ontem
virando do ano passado.

e todos os mendigos na praça
todos eles, estavam com a barba cobrindo o rosto
e olhavam os carros que refletiam o sol
e os cachorros se espreguiçavam
e eles entendiam mais da vida do que nós dois.
todos os mendigos e todos os cachorros
já nascem escrevendo poesia
e a gente só aprende em dois momentos:
ou quando sofre tanto,
ou quando encontra alguém
que é mais bonito que o próprio universo.

mas os cachorros e os mendigos sabem mais das coisas.

por isso ela se perdeu olhando o céu
porque teve a certeza absoluta
de que teria tanto medo se voltasse outra vez 
a olhar para os lados.
ela tinha medo de perder a direção,
de se deixar por partes em alguém
e querer voltar pra buscar depois
e tinha medo das cores e dos sons
que as vozes faziam 
quando ela não queria acordar em casa.
ela desligou todos os alarmes
só pra poder dizer que a perdeu a hora.

porque todos os mendigos e todos os cachorros
já nascem cantando blues, de madrugada
a televisão da casa da frente ligada no canal de putaria
e tudo se torna música
e a gente só canta música mesmo, de verdade, em dois momentos:
ou quando sofre tanto,
ou quando encontra alguém
que é mais bonito que o próprio universo.


Era tão pequeno

Que tinha medo de não ter espaço

E me fazia caber apertado em qualquer canto

Da sua bagunça organizada.

Na verdade andava sempre quase te encontrando

Perseguindo seus azuis

E vencendo meu medo de chuva

Só pra poder te ver relampiar.

Você é céu azul e estico meu dedos pra te buscar e conto todas as estrelas da constelação que gira ao nosso redor quando você me olha de volta. E eu te olho de volta.

 


ela sorri sem mostrar os dentes e olha pro outro lado
parece que congelou o ar e o céu
e parece que eu, principalmente
não ousaria me mover.

ela é brilhante como o sol
e tão bonita que queima minhas mãos
mas eu percebo que não me importo.

ela é uma música que eu peço pra não esquecer,
sua voz é meu som favorito
e ouvir ela cantando
faz eu me sentir seguro como num cobertor.

ela desenha as estrelas com a ponta dos dedos
e eu tento segurar todas as palavras que ela diz
pra guardar numa garrafa e colecionar pra sempre.

ela é um dia à tarde,
as cortinas abertas pro sol entrar na sala,
os pés descalços no chão gelado
e a culpa toda por me fazer querer viver.

ela tem todos os meus melhores sorrisos
e ela talvez nem se lembre sempre disso
mas eu amo ser qualquer sorriso naquele rosto.

e isso sempre acontece:
ela vem com esses olhos gigantes
e eu me perco quando não sei nada pra dizer
e ela sempre me lembra que tá tudo bem.


acho que por descuido te deixei levar meu sono outra vez,

eu tinha pedido pra não enlouquecer por nada nesse mundo

como se eu tivesse resolvido separar todos os carros por cor,

mas no final eu só terminasse no meu quarto

desejando muito pra que qualquer sorte absurda me acertasse.

e se eu ainda não aprendi o nome de todas as cores

e se algumas bandas ainda me deixam tão entediado,

eu juro que não escreveria mais nada sobre isso

porque só tenho me repetido e nenhum poema se parece com você,

ou com o sol nos seu cabelos, ou com a vontade

de me prender em seus dedos

quando percebi que todo  barulho vai embora

e as ruas são apenas ruas e as pessoas são apenas pessoas

e eu abriria os braços pra te ver, eu diria que quero muito te ver

porque, qualquer hora, por deus, eu quero mesmo te ver.

e eu tento, mas não sei dizer isso de outra forma

a não ser que eu quero mesmo te ver.

eu queria escrever qualquer coisa que te fizesse vir correndo.

queria soar como um poeta. e não como outro poema amassado

entre à 1h e 2h da manhã, acordando com a luz do abajur

fazendo listas de filmes na cabeça

enquanto lentamente acalma a respiração

ao te alcançar de longe e descansar no seu ouvido,

pra te contar que usaria de toda coragem que tenho

pra te escrever o poema mais bonito

e te olharia nos olhos pra sorrir antes de finalmente conseguir dormir.