foi quando o tempo desenhou a poeira
da velocidade dos dias 
no porta-retrato da sala,
dos amigos que cresceram tão depressa
dos anos que parecem mais curtos,
como todo fim de maio
que a gente risca na parede
até o dia de te ver de novo. 

foi quando minha barba começou a crescer
e me falaram que eu não tinha mais idade
pra continuar tendo esses mesmos planos,
nem cantar essas mesmas músicas,
ou vestir essas camiseta.
acho que só quis me acalmar um pouco,
como se não tivesse mais novidade nenhuma pra te contar
mas quisesse estar falando contigo mesmo assim.

foi quando eu deixei de ver algumas pessoas
e percebi que quem eu quisesse manter por perto
teria de segurar com as duas mãos,
teria que abraçar os ponteiros do relógio
e não deixar eles se moverem,
teria que fazer de conta
que nada muda.
como se fosse fácil
enganar o sol.

foi quando eu tive medo do que estava por vir,
desejei tanto não ver o ano terminar
que ele me deixou pra trás
e fui só passageiro de suas ondas.
como se estivesse olhando pelo vidro
assistindo a chuva a chegar
e procurasse abrigo
e entre os dedos tremidos,
você apertasse minha mão
e fala baixinho que vai ficar por ali, comigo.


se perdeu a direção
se esqueceu o que é o amor
se cantou mais forte o refrão
se só ficou, admirando a solidão…

não esquece onde se encontra
nem aonde quer chegar,
procure quem mesmo em silêncio possa te acalmar..

abri os olhos sem nem dormir
e a tarde já tinha vindo te buscar,
foi quando o tempo anunciou
que o futuro era azul.
e quando a chuva me encontrou
reconheci você na multidão
na verdade, te acharia qualquer lugar,
o único ponto amarelo, na cidade apertada
e parece que te conheci minha vida inteira
antes mesmo de ver você sorrir.

e se mesmo assim a vida não espera mais por mim
eu vou ai te encontrar, só pra colocar nossos navios no céu
pra gente poder navegar em todo mar sem fim.

 

 


nunca me dei bem com coisas que pudessem quebrar,
por isso então
fiz proteção do seu nome,
almofadas aos seus pés
e te enrolei num cobertor
pra que nenhum mal pudesse te atingir.

nunca me dei bem com coisas que ficam pela metade,
como dores que não sangram
e amores que se cortam pela raiz
sem nunca dar flor.
por isso sempre solto as duas mãos,
pulo do avião sem para-quedas
e morro de medo de altura
e aprecio a vista
dos seus olhos tão de perto.

nunca me dei bem com segundas intenções,
por isso aprecio amizades e amores
que não me cobram nada
a não ser a reciprocidade do agora.
todos os nossos planos sempre vão dar errado de qualquer forma
então que a gente pelo menos fique bem.

fui planeta quando cheguei mais perto do sol
e quando todas os nossos problemas giraram ao nosso redor
a gente quase alcançou o céu.


Sua companhia

26abr17

todas as pessoas, todas elas
estão girando ao nosso redor
com seus nomes e rostos e empregos
e, olhando daqui,
me assusta
ser como qualquer uma delas.

mas existe um rio do outro lado da cidade,
e ele me entrega a mesma calmaria que sua companhia,
quando a gente se perde de nós mesmos
as ruas correm mais depressa pra te trazer
e eu sei, ou eu acho que sei,
que quando você me chama
eu tenho vontade de ser alguém melhor.

e todas essas pessoas
nos olham, mas elas nunca vão saber,
elas nunca te olharam como eu olho
elas não sabem como é ter planos ou sonhos,
porque já desistiram
e a gente corre na outra direção.


como um sol

17abr17

parece que apagaram todas as luzes.
e meus pés estavam longe de casa
enquanto víamos distante
qualquer cidade que não importava
já que nem fazia parte de nós
porque nunca fizemos parte de ninguém,
nunca estivemos em lugar algum
e sempre fomos donos de tudo.
como se qualquer coisa que você queira me dizer
ficasse pra depois e, sendo assim,
eu me equilibro no meio fio
de braços abertos e ignorando toda a gravidade
que me impede de tocar o céu.

parece que sempre te vi assim,
e te olhei uma segunda vez
só pra ter certeza que você olhava pra mim.
como se eu precisasse de qualquer desculpa pra te encontrar,
como se a gente brilhasse mais do que qualquer cidade,
e fosse tão fácil existir, quase como atravessar a rua
e morar no seu abraço
com tanta intensidade
que me aquece
até esmaecer
e ter fim.


tentei de outra cor
como uma televisão chiada.
na verdade, falava sobre sorte
sobre todos os compromissos que a gente atrasa,
acho que te deixei plantada por meia hora da última vez,
como se tudo não fosse passageiro,
que bobagem a minha.
acho que decidi cuidar de você minha vida toda
acho que tô apaixonado pela sua camiseta listrada
acho que as cores do seu cabelo ficam bem nessa foto
quando te misturo na luz do pôr do sol,
e, assim como o sol,
sempre fico pensando 
que não queria que você fosse embora.

como a saudade que começa 2 minutos antes de se despedir,
aposto que a gente consegue cruzar o céu.


Vamos supor que eu enlouqueça – só hipoteticamente – 
que eu tenha qualquer coisa parecida com alguma doença,
não que seja tão sério, 
mas é daquelas coisas mais assustadoras do que a gente pensa.

Mas antes vamos supor que pra começar você precisa
prestar atenção em tudo que eu digo,
mas como eu incontrolavelmente falo um monte de bobagem
você só me olha e pensa:
pelo amor de deus não faz isso comigo.
Mas juro que vou tentar falar pouco,
antes que eu fique rouco,
antes que eu deixe nós dois mais loucos um pouco. 

Vamos supor que eu, de repente,
te diga bem aquilo que você tem certeza que eu nunca diria,
mas que você morre de medo que eu diga.

Vamos supor que ouvir qualquer coisa assim seja fácil pra caralho.
Vamos supor então que na verdade tenha um atalho.

Mas vamos supor que qualquer caminho mais rápido seja covardia
e vamos supor que isso eu também já sabia.

Vamos supor que algumas coisas aconteçam tão depressa
que a gente só presta atenção depois que já viu passar,
e que todo esse movimento tão rápido têm me deixado sem ar;
porque a vida me parece mais ou menos como dirigir sem controle dos freios,
e não que eu queria desistir ou parar de correr
mas algumas coisas, às vezes me dão um pouco de medo.

Vamos supor que eu já fui ator,
já fui diretor,
escritor, cantor
e que isso só quiser dizer mesmo
que eu já senti alguma dor.

Vamos supor que eu tenha sido namorado,
mas como faz parte de mim, fui também um tanto errado.

Vamos supor que não exista nada do outro lado.

Sei que sonhei que era outra pessoa,
dessa vez uma pessoa boa.

Vamos supor que eu estivesse certo,
e nesse sonho, a melhor coisa era você por perto.
E por deus, eu não queria mesmo ser desperto.

Vamos supor que eu tenha poucos amigos,
mas que são tão bons, que não tenho medo nenhum do perigo.
Vamos supor que isso seja um milagre,
já que eu sou tanto chato e isso é um fato,
nem adianta discutir, 
nunca fui bom mesmo com brigas
então gosto bastante de quem quer ficar comigo por aqui.

Vamos supor que eu seja um tanto sucesso e um tanto de fracasso,
talvez mais fracassos,
mas fracassar de forma bonita é uma coisa que a gente aprende a admirar,
como saber que pode perder tudo no jogo
mas mesmo assim não deixar de apostar.

Vamos supor que na verdade eu não saiba quase nada sobre mim
e sendo assim, esse daqui deveria ser o fim.

Mas como eu disse talvez eu enlouqueça,
talvez eu viva mais 90 anos
talvez eu não seja nada do que planejei
talvez eu morra explodindo em estrelas pra mais de milhão
talvez você passe aqui mais tarde, porque porra,
eu só preciso de um tanto assim da sua atenção.