fazia parte de estar assim, parado, deixando o sol tomar conta do meu rosto
e estreitando o olhar só pra tentar perceber se é você quem vai passar.
como todo muro que a gente ergue bem alto pra não deixar ninguém entrar
torço pra que você tente derrubar todas as minhas barreiras,
não que eu vá dificultar alguma coisa, ou qualquer coisa assim
só acho que tenho tanto medo, que preciso que você, em algum momento
me segure pelos ombros e diga, olhando para mim, que tudo vai ficar bem.
porque somos essa tempestade inconstante e barulhenta
que sacode a casa inteira e faz as telhas saírem e treme até a janela.
e talvez essa seja nossa melhor parte, essa bagunça, todo esse ranger de dentes
é o melhor que podemos ser, pelo menos agora, provavelmente ainda por uns anos.
e se tivermos a sorte absurda de encontrar qualquer abrigo
qualquer pessoa feita de tempestade, que combine com a nossa
e se tudo isso, se todo esse tremer da terra fizer qualquer sentido
tirar qualquer sorriso e fizer brilhar qualquer ponta de esperança
de que tudo vai ficar bem, que sorte a nossa. que sorte a nossa.

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leão

26jul18

da cor dos seus olhos
do barco a vela e da estrada
da distância até sua pele da cor
do dia cedo que vem pra te buscar;
do desenho que faço na sua pele
da música que ouvi outro dia
do sorriso que faço pra você 
de toda cor que deixa quando me fotografa;
da luz negra no cinema
da estação às seis
da terra inteira em transe
do céu infinito.


porque as coisas acontecem de uma vez só
não tem aviso e nem tempo pra gente pensar

pode ser a grande oportunidade da sua vida
pode ser o jeito que seus olhos me percebem
e sua voz que me parece cada vez mais bonita,
pode ser todas as piores notícias 
que te derrubam de uma só vez
ou pode ser a maior sorte do mundo
dentro de uma garrafa sem rótulo nenhum,
pode ser o medo que chega no meio da madrugada
e te tira a droga do sono ou 
pode ser o beijo que eu te peço pra me dar
e você me dizendo que sim.

as pessoas e as coisas e a vida
tudo de forma desordenada vindo em nossa direção
e a gente só pode mesmo é deixar tudo pronto.


qualquer coisa me deixa por aqui mesmo
eu gosto tanto de andar e tenho feito tantos planos.

acontece que tenho me arrependido das coisas que deixei pra depois
seja por medo, insegurança ou por falta de voz.
mas essas mesmas coisas me olham pela janela
com o rosto encostado no vidro
e me assistem andar de um lado para o outro no quarto
como se eu fosse um programa de TV.

eu fiz um pacto com todos os meus sonhos
a gente não vai desistir um do outro por nada do mundo. 
e quando eu encontrar você, quando olhar você
quando a gente passar pela mesma rua
ou num lugar bem melhor do que esse,
juro que vou lembrar de te contar tudo que eu tenho feito.

e eu que sempre tento tanto ficar em silêncio
não vou parar de falar um minuto sequer. 


escrevo de novo.
parece que sempre sobre as mesmas coisas. 

seria como me atirar rumo ao céu sem fim – sozinho – pela primeira vez.

o problema é que não existe nada de novo pra contar,
talvez eu só tenha visto filmes demais
e aprendido sobre coisas que percebi que não gostaria de saber.
acho que agora sei mais do que nunca sobre cansaço,
uma vontade absurda de gritar e sobre o tempo.
mas juro que mesmo assim roubei qualquer coisa sua
e te desejei o céu mais azul do universo.

às vezes surge numa tarde de segunda, ou num sábado a noite
e fica por aqui, como a poeira chegando devagar nos livros da estante
mas não que seja ruim e só que deixa a gente mudo
como os segundos mais lentos do mundo. 


rodopio

25maio18

hoje pousei em rodopio 
não era nave nem pássaro
era minha cabeça
que mal atingia as nuvens
e já sentia a tontura
que você sempre me deu.

não te fiz nem de planeta 
nem de estrela
pra não te deixar mais inalcançável
do que já me parecia.

mas juro que toda noite
eu conto as luzes do céu
e prendo a respiração
porque sempre me parece
o fundo do mar

não te contei nada
mas são nesses extremos 
de tão mais alto ou tão mais fundo
que fui encontrando todas as grandezas
até aquelas mais diminutas
que comprovam que nesse universo existe você. 

por isso hoje pousei em rodopio
e limpei a poeira da minha roupa
e voltei a sentir o chão sob os meus pés
e deixei você na minha cabeça. 


alguns dias eu quase esqueço
e vou contando as horas
sem desespero. 

quando penso em te encontrar por acaso
olhando ao redor, mexendo no cabelo
colorindo as tardes
me tirando do cinza.

na verdade eu sempre penso em sair atrás de você
mas tenho medo de não encontrar sua casa,
e me perder como sempre acontece quando te vejo
então só ando na rua a esmo
torcendo pra qualquer dia dar certo
e aceitando a necessidade,
esperando você me chamar
olhando você nos olhos mesmo se estiver em outra cidade.