agora que acordamos mais tarde
não deixamos marca alguma no travesseiro 
e eu te encontrei entre os becos da minha cabeça
ocupando até os lugares onde eu não conhecia.

parece que temos andado por outras cidades
e eu não te vi do outro lado da rua
logo você que me soa como uma tarde de verão com chuva
e a preguiça só não é maior que a vontade de te ver
e eu não diria nada assim dessa forma
mas odeio mesmo quando não sei o que falar

então, sempre que você lembra de qualquer coisa que eu faça
eu me sinto um pouco mais vitorioso
e talvez eu já comece a fazer planos demais
mas vamos mudar de opinião amanhã cedo

então, agora que estamos voando mais alto
que o céu de Hollywood
a gente sabe exatamente quem queremos ser quando crescer
mas vamos mudar de opinião amanhã cedo
e eu só espero que você não mude de opinião sobre mim.

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eu sempre lembro, por mais que eu não diga
mas eu sempre lembro,
às vezes não dos nomes
ou das datas
mas essas são coisas são só números e letras
mas eu lembro.
juro que lembro.

lembro do sorriso no canto dos lábios
das histórias sobre o seu pai
do barulho da cidade
da velocidade do metrô
de todos os cinzas e amarelos e vermelhos
da curva do seu cabelo
claro que lembro
principalmente dos sons
e da madrugada
e das horas e das sombras
da chuva de 5 minutos
dos abraços de 10 horas
da cor do seu tênis
do shopping lotado
e todo o barulho que silenciava
eu sempre lembro

tenho medo mesmo é de ser esquecido
de não passar de poeira no banco
que o vento sopra e leva com a chuva
mas eu lembro.
juro que sempre lembro.


toda paz repousa
no sol se pondo entre 5 ou 6 cores

não existe nada que a gente não vença
nem tempo ruim,
não existe medo do escuro
porque a gente lembra sempre de deixar a casa toda acesa
e se você nunca aprendeu a perseguir estrelas como se fossem vaga-lumes
então recomendo enfaticamente
que aprenda a se perder um pouco

porque a gente só corre pro lado certo
quando persegue aquilo que mais brilha aos nossos olhos.
assim girei ao seu redor


comecei a cantar mais baixo
era só pra perder o medo de me ouvir
e na verdade era pra ver também
se assim você me ouvia melhor.
entre tanta gente falando tão alto
e o som da televisão que deixa impossível de conversar
eu sussurrei o seu nome
pra logo depois correr deixando todas as cores do céu no meu alcanço
e fui acordar mais tarde
porque fiquei bêbado de tanto lembrar de você sorrindo.

existe uma regra de etiqueta que ninguém comenta
mas que diz que a gente deve ser feliz.

logo eu aprendi a contar meus planos bem baixinho
mas ainda não sei não ficar eufórico quando te vejo.
então eu sempre penso em escrever
sobre sua pele, seu cabelo
e sobre os dias que na minha cabeça são tão poucos.
eu canto mais baixo
e passo a noite inteira acordado
e tento mudar as cores de qualquer dia que seja cinza demais.


começa sempre da mesma forma;
um corredor longo, os passos mais compridos
e o quase alcançar estende os dedos
e eu puxo com todas as minhas forças
mas nunca aprendi a segurar fumaça com as mãos.

é como esquecer sua música favorita
ou acordar tarde no dia mais importante da sua vida.

eu estive sentado aqui a semana toda
acho que um pouco mais
talvez o mês todo,
talvez você não tenha percebido,
mas essa luz quente
desenha todos os seus contornos 
e eu prendo a respiração
ao te ver assim, vestida de amarelo.

a segunda parte é parecida;
mas eu só encosto a cabeça no vidro do ônibus
e recito pra mim mesmo todos os meus planos.
e talvez seja sobre aprender a aguentar algumas coisas
pensando em tudo que pode vir depois.

eu fiz as pazes com o tempo na semana passada,
ele odeia o tamanho que meu cabelo tá agora.

parece, ocasionalmente, que ando sempre tropeçando
e talvez a maior lição que isso pode levar pra dentro da minha cabeça,
é que eu não perco partes de mim por aí,
mas vou colecionando algumas coisas novas que são gostosas de contar.
talvez eu deva comprar um moletom novo,
aproveitar que é mais barato agora no calor,
eu devia também ter um guarda-chuva
eu devia terminar de escrever os 10 livros que já comecei
eu devia voltar a tocar
e eu devia mesmo passar uma tarde toda só olhando você respirar. 


acho que te vi passar
ou acho que quase te vi passar
acho na verdade que você nem tá na mesma cidade que eu
acho que isso faz parte sobre qualquer que eu falei sobre pensar bastante em você
acho que fiz uns planos
ou acho que me perdi de novo com todos os planos que não dão certo
porque na verdade acho que planos só servem pra isso mesmo

acho que talvez seja só algum medo absurdo
acho que na verdade não sei muito bem ser eu
então acho que por isso falo sem parar e às vezes quase nem respiro
acho que é só pra tentar te mostrar que tenho qualquer controle
ou que meus pés não ficam grandes ao seu redor

acho que agora eu queria ficar em silêncio
e te abraçar
acho que quero gritar tanto que vou ficar sem voz

acho que quero te ligar qualquer hora
acho que senti saudades a semana toda

acho que eu escreveria qualquer coisa por você
acho que na verdade quase tudo já é sobre você
sobre seu cabelo, a luz quente do abajur 
sobre tudo que eu acho que lembro daquele dia
acho que lembro, porque na verdade sempre me confundo com tudo
e todos os dias sorridentes, eu acho, que acabam sendo aqueles em que eu te vi

acho que eu se eu pudesse te contar qualquer coisa agora
só diria o quanto eu te acho tão bonita.


ela pulava a escada de 3 em 3 degraus
– foi a última vez que a gente se viu –
era um vendaval, um furacão
segurando todas as horas entre os dedos
pra não deixar a vida escorrer
igual a areia da ampulheta do jogo imagem e ação.

ela correu a rua toda, pé ante pé
abriu os braços no meio fio
e percebeu que se pudesse se jogaria
todas as vezes, do lugar mais alto da torre mais alta,
e fecharia os olhos pra não ver o amarelo tomando as paredes
nem a poeira nos bancos e os jornais de ontem
virando do ano passado.

e todos os mendigos na praça
todos eles, estavam com a barba cobrindo o rosto
e olhavam os carros que refletiam o sol
e os cachorros se espreguiçavam
e eles entendiam mais da vida do que nós dois.
todos os mendigos e todos os cachorros
já nascem escrevendo poesia
e a gente só aprende em dois momentos:
ou quando sofre tanto,
ou quando encontra alguém
que é mais bonito que o próprio universo.

mas os cachorros e os mendigos sabem mais das coisas.

por isso ela se perdeu olhando o céu
porque teve a certeza absoluta
de que teria tanto medo se voltasse outra vez 
a olhar para os lados.
ela tinha medo de perder a direção,
de se deixar por partes em alguém
e querer voltar pra buscar depois
e tinha medo das cores e dos sons
que as vozes faziam 
quando ela não queria acordar em casa.
ela desligou todos os alarmes
só pra poder dizer que a perdeu a hora.

porque todos os mendigos e todos os cachorros
já nascem cantando blues, de madrugada
a televisão da casa da frente ligada no canal de putaria
e tudo se torna música
e a gente só canta música mesmo, de verdade, em dois momentos:
ou quando sofre tanto,
ou quando encontra alguém
que é mais bonito que o próprio universo.