quando o frio de julho começa a me acordar de madrugada

minha barriga já vira do avesso

e eu começo à olhar todos os números do calendário,

que parece correr cada vez mais depressa e gritar comigo

e falar sobre todo tempo que eu já perdi na minha vida

e sobre como eu envelheço

sendo um desperdício de qualquer coisa que eu poderia ser. 

parece que os anos só passam

mas ainda somos iguais. 

as mesmas pessoas, os mesmos medos,

os mesmos planos que a gente foi guardando embaixo da cama

pra dar uma olhada quando a gente ficar sem rumo.

porque na verdade me assusta tanto não ter ninguém pra fazer sorrir

porque na verdade assusta tanto não te encontrar pra me abraçar. 

e eu nem sei se ainda me reconheço no espelho,

ou se quem me encara é qualquer coisa que eu fiz

do que fui perdendo entre discos, livros ou qualquer outro anti-depressivo.

fiz um acordo absoluto com minha existência torta,

e combinamos não enlouquecer,

a não ser que seja por amor.

por amor vale.

às vezes quando falo pouco

é só porque queria te pedir pra ficar um pouco mais.

não é que eu não te queria por perto,

mas é porque preciso cada vez mais de toda sua atenção.


prendi a respiração quando te vi passar

acho que te conheci minha vida toda,

acho que só queria ficar tão perto de você

que você me ouviria piscar os olhos

ouviria meus ossos se mexendo,

ouviria meu cabelo no vento.

acho que decorei seu nome

só pra dizer com o meu depois,

pra ver se combinam juntos, 

pra sentir o sabor do som

pra ver se falar bem alto, durante todas as horas

diminui a sua distância

e me ajuda a te alcançar.

encontrar alguém assim,

que se desmancha na nossa loucura

e deixa a gente se desmanchar também

faz tanto barulho dentro da gente,

que parece um terremoto, um tremor no chão

que faz a gente se esconder debaixo dos móveis

e logo depois pintar a casa de outra cor

e deixar com todas as suas cores favoritas

só pra te deixar com vontade de ficar.


horas

26jun17

fiz um desenho seu pra colar parede,
deixei junto com o bilhete 
e o papel do bombom que você me deu.

ai meu deus,
parece que faz tanto tempo que não sei de você,
que você poderia me ligar
só pra contar dos planos, dos cachorros
se sua mãe está melhor, lembra daquela vez que tomamos chuva,
e eu morri afogado de saudade de você essa semana,
tanto que em outros dias fui outros caras
só pra te roubar umas horas.

e te procurar.
no infinito absoluto dos passos até te abraçar, é onde sempre me acho.

fazia tempo que eu não me via assim
dançando do outro lado dos seus olhos,
e não tem diabo que me faça ir embora.


Estava tudo bem, ela me disse, que estava tudo bem mesmo. Acho que passei todo o último mês me preparando pra te ver assim. Tanto que só fiquei parado, como se minhas pernas estivessem presas no chão, e você viesse com um passo de cada vez até me prender entre suas mãos. Um homem de braços bem longos me olhava do outro lado da mesa e disse que eu parecia bem assim, e que você ficava tão bem assim nessa roupa e que eu deveria dizer, que você fica tão bem assim nessa roupa. Acho que eu só queria falar o quanto você é bonita, meu deus como você é bonita, se eu pudesse juro que seria um pouco mais bonito só pra te merecer pelo menos um pouco. Sentaria do seu lado na mesa e jantaríamos ouvindo o som da Tv na outro cômodo, enquanto seu pai conta qualquer história e as luzes se acendem como se estivessem competindo com você pra iluminar mais a cozinha. Eu queria ser daquelas pessoas que acreditam nas coisas, você poderia me ajudar a acreditar em qualquer coisa. Assim eu teria sua atenção toda só pra mim e não te perderia por aí, nem quando estivesse longe. Eu vestiria minha camiseta favorita cinza, já que todas as minhas camisetas favoritas são da cor cinza, e pintaria um retrato nosso só de amarelo, porque são as cores que ficam dançando ao seu redor e você nem deve notar. De qualquer forma você é uma princesa e isso soaria ridículo se eu dissesse de qualquer outra forma para qualquer outra pessoa, mas para você funciona, assim como funciona toda vez que te vejo sendo coroada pelas manhãs bonitas ou pelos dias de sol. Então se eu disser que você faz coisas importantes acontecerem, você devia começar a me ouvir, assim como quando eu digo que vou continuar te olhando, até quando der, até depois que fizer a curva e os prédios ficarem na frente. Acho que posso te perceber em qualquer lugar que você estiver. Eu tropeço nos meus pés, eu tenho medo de altura, eu tenho problemas com matemática e problemas em me concentrar com as coisas, algumas vezes minha memória brinca comigo e meu senso de direção é meio desorientado, mas de qualquer forma, meus pés parecem que sempre me levam até você e eu respiro em paz e toda bagunça da minha cabeça vai embora quando vejo que te faço sorrir.


foi quando o tempo desenhou a poeira
da velocidade dos dias 
no porta-retrato da sala,
dos amigos que cresceram tão depressa
dos anos que parecem mais curtos,
como todo fim de maio
que a gente risca na parede
até o dia de te ver de novo. 

foi quando minha barba começou a crescer
e me falaram que eu não tinha mais idade
pra continuar tendo esses mesmos planos,
nem cantar essas mesmas músicas,
ou vestir essas camiseta.
acho que só quis me acalmar um pouco,
como se não tivesse mais novidade nenhuma pra te contar
mas quisesse estar falando contigo mesmo assim.

foi quando eu deixei de ver algumas pessoas
e percebi que quem eu quisesse manter por perto
teria de segurar com as duas mãos,
teria que abraçar os ponteiros do relógio
e não deixar eles se moverem,
teria que fazer de conta
que nada muda.
como se fosse fácil
enganar o sol.

foi quando eu tive medo do que estava por vir,
desejei tanto não ver o ano terminar
que ele me deixou pra trás
e fui só passageiro de suas ondas.
como se estivesse olhando pelo vidro
assistindo a chuva a chegar
e procurasse abrigo
e entre os dedos tremidos,
você apertasse minha mão
e fala baixinho que vai ficar por ali, comigo.


se perdeu a direção
se esqueceu o que é o amor
se cantou mais forte o refrão
se só ficou, admirando a solidão…

não esquece onde se encontra
nem aonde quer chegar,
procure quem mesmo em silêncio possa te acalmar..

abri os olhos sem nem dormir
e a tarde já tinha vindo te buscar,
foi quando o tempo anunciou
que o futuro era azul.
e quando a chuva me encontrou
reconheci você na multidão
na verdade, te acharia qualquer lugar,
o único ponto amarelo, na cidade apertada
e parece que te conheci minha vida inteira
antes mesmo de ver você sorrir.

e se mesmo assim a vida não espera mais por mim
eu vou ai te encontrar, só pra colocar nossos navios no céu
pra gente poder navegar em todo mar sem fim.

 

 


nunca me dei bem com coisas que pudessem quebrar,
por isso então
fiz proteção do seu nome,
almofadas aos seus pés
e te enrolei num cobertor
pra que nenhum mal pudesse te atingir.

nunca me dei bem com coisas que ficam pela metade,
como dores que não sangram
e amores que se cortam pela raiz
sem nunca dar flor.
por isso sempre solto as duas mãos,
pulo do avião sem para-quedas
e morro de medo de altura
e aprecio a vista
dos seus olhos tão de perto.

nunca me dei bem com segundas intenções,
por isso aprecio amizades e amores
que não me cobram nada
a não ser a reciprocidade do agora.
todos os nossos planos sempre vão dar errado de qualquer forma
então que a gente pelo menos fique bem.

fui planeta quando cheguei mais perto do sol
e quando todas os nossos problemas giraram ao nosso redor
a gente quase alcançou o céu.