gigantes

11abr18

cada vez que eu tento passar por debaixo da porta
um enorme gigante de pedra me empurra de volta
e isso acontece também quando tento subir no telhado
ou descer as escadas e de vez em quando
bem na hora de levantar da cama.
ele sabe meu nome, ele sabe do que eu gosto
ele sabe de tudo que eu tenho medo
como se tivesse me estudado a vida toda
e me assusta pensar que talvez ele tenha mesmo.
me assusta pensar também em todas as vezes que ele me convenceu
de que eu deveria era me calar
segurando e impedindo até mesmo minhas mãos de escrever
com toda a sua força bruta e sua voz rouca
e me tirando o sono, uma madrugada de cada vez.
ele repousa na janela e tampa o sol
pra assim, pouco a pouco, eu esquecer das cores
e dos sons que as coisas fazem quando a gente 
resolve prestar atenção nelas.
quando resolvi conversar com esse gigante
pedindo de volta o controle da minha vida,
ele me botou pra correr sem dizer uma palavra
apenas me olhou por tempo o bastante
pra eu me reconhecer em seu rosto.
o pior é que o desgraçado soava muito menos cansado do que eu.
talvez ele fosse um eu melhor do que eu.
obviamente eu desisti de qualquer plano 
que estivesse drasticamente fadado ao fracasso
e me dediquei em coisas pequenas que não chamassem tanto atenção.
respirando um poema mirradinho de cada vez,
um capitulo numa tarde preguiçosa
e, como a gente aprende na escola,
deixando um monte de pessoa bem maior do que esse gigante aqui por perto.
talvez não seja nenhuma ideia tão digna de nota,
mas agora o gigante costuma dormir por dias pra só aparecer de vez em quando,
e eu percebi que a gente começa a crescer de dentro pra fora
pra, vagarosamente, a gente alcançar o tamanho de uma formiga
e percebe que por mais que não seja o ideal, já ta bom.
porque agora cada vez que o gigante me segura
e não me deixa fugir por debaixo da porta,
eu separei um monte de coisa boa que tô aprendendo a contar.
e eu tenho certeza que assim que a gente se olhar
vou estar muito melhor do que ele. 
ou pelo menos sem tanto medo.

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a luz do cinema, do outro lado da avenida
a rua depois das 6, depois de toda a lucidez
e se eu te procurei, não foi por mal
foi só um descuido
ou o medo de te encontrar ainda mais em mim.

porque ninguém ouve o que a gente diz
até a gente gritar mais alto
e se são as luzes ou as pessoas
que confundem ainda mais a minha cabeça
tá tudo bem, se você vier enfim.

porque eu congelaria o tempo todo
pra estar sempre nos mesmos segundos
e atravessaria a cidade
só pra te ver
indo embora outra vez.

porque são as suas cores
e os poemas que me repetem quando não sei dizer nada
e na verdade sei bem menos do que achava
mas eu sei, que eu só quero saber
onde você vai estar.


próximo mês

26mar18

já vem,
contando seus passos
dizendo bobagens, pedindo desculpas
por falar demais. 

vem me contar
dessa semana, do mês que passou
só não me deixa em silêncio
porque eu não sei
se foi essa chuva ou a noite de ontem
mas me toma desse jeito
e eu perco o controle
quando na verdade só quero te olhar
pra te dizer que eu não sei ficar assim.

no próximo mês,
quando a chuva passar
passo também por aí
só pra te contar o quanto você tem me feito sorrir
e se eu puder, gostaria de
te levar pra jantar
dizer qualquer bobagem no telefone
te ajudar com a bagagem
e te contar quando eu pensar em você.


contra o sol

13mar18

ninguém me disse que precisava amanhecer.
quem dera fosse sempre noite
quem dera a luz sempre ficasse acesa na sala
com a televisão no volume mais baixo
e o barulho dos nossos pés fossem abafados pelo tapete.

acho que já passou da hora de dormir
mas tanta gente fala tanta coisa
e eu me sinto tão cansado.

toda essa gente parece tão distante
como se eu estivesse com a cabeça embaixo d’água
e eu prendo a respiração 
e logo depois fecho os olhos
como quando a gente entra numa montanha-russa
e todos os próximos minutos são rápidos demais.

a culpa toda é do tempo e da chuva forte demais
do sol que nasceu e do despertador que me acordou mais cedo.

fiz uma coleção de todas as cores que estavam no céu
e comecei a pintar de azul todos os dias do calendário em que você fizesse falta.
mas na verdade
eu queria mesmo era poder guardar tudo numa caixa
pra que minha memória não falhasse nunca
e que eu tivesse sempre qualquer coisa genial pra te contar. 

ou pelo menos ficar em silêncio e ouvir qualquer coisa.


se eu tivesse força o bastante 
eu atravessaria o mundo pra te pintar num final mais bonito

claro que tento encher a casa de pensamentos positivos
mas a gente sempre andou contando passo a passo
e daqui parece tão alto e o caminho tão longo
que eu só repito pra mim mesmo
pra eu lembrar de não olhar pra baixo

o tempo congela e os minutos mais longos do mundo me abraçam
pra logo depois correr mais rápido 
e eu não consegui achar nenhuma das palavras que eu tinha prometido
que ficariam guardadas na gaveta
e que agora fogem de mim,
então eu só fico em silêncio
tentando não olhar pra baixo
e lembrando o quanto eu não tenho o controle

eu tento desesperadamente juntar todas as coisas boas num álbum de figurinhas
e me esforço tanto pra colar tudo, cada uma no seu lugar


a gente nunca foi de ficar em silêncio na hora da briga
e até se arrepende depois
mas a gente corta toda a boca se não falar nada

e eu que já quis mudar o mundo algumas vezes
fiquei tão contente em ver o sol nascer
repousando nossa paz no silêncio da casa
quando nem o relógio ousa fazer barulho
e eu procuro sua janela
tentando contar os andares até o seu quarto

eu já derrubei as portas
eu já mandei deus pro inferno
e já abri meus braços aceitando ir junto com ele logo depois

eu já fiquei mudo sem acreditar
e cerrei meus punhos pronto pra tudo
e lutei cada batalha perdida
pra só depois perceber que só faria diferença
se fosse por mim e por mais ninguém.
algumas coisas a gente precisa primeiro enfrentar sozinho.

e eu que já quis mudar o mundo algumas vezes
fiquei tão contente em ver o sol nascer
repousando nossa paz no silêncio da casa
quando nem o relógio ousa fazer barulho
e eu procuro sua janela
tentando contar os andares até o seu quarto


archote

30jan18

te conto que ainda acho graça das mesmas coisas
que gosto e te abraço, te projeto, te cuido
admiro seus olhos como admiro o céu cinza
e a chuva fina que cobre a cidade como um véu de noiva
e eu quase não respiro quando te vejo contando os passos pra chegar até aqui.

você me viu de passagem e eu queria tanto ter te visto passar
nem que fosse pra dizer que você
não precisa me lembrar de nada,
porque te juro que você não sai da minha cabeça
então não precisa me lembrar de nada,
talvez só de viver, cuidar dos meus joelhos e respirar de vez em quando.

ouvi boatos de que todo passarinho procura o calor
assim percebi que não existe nada que eu possa fazer por ti
a não ser me queimar quando me perco entre os fios de seu cabelo.