todos os fantasmas que me acompanham

são poetas, músicos, vagabundos

madrugam ao som de blues

com a cabeça dividida entre amores

um cigarro fumado pela metade

e o próximo trabalho na ponta dos dedos.

somos uma geração de artistas

sem talento algum.

não somos poetas por vocação

fazemos o que fazemos por desespero

pra perder o medo da nossa voz

porque todas as nossas canções já estão dentro de nós,

e todos os filmes que quero escrever

já povoam a minha cabeça.

eu vim nesse mundo junto com eles,

com esses poetas, músicos, vagabundos

e nosso maior crime é não ter planos pra além dessa semana.

talvez a gente ande de olhar em olhar

de toda essa gente na rua

de todos os lugares lotados,

procurando qualquer olhar que passe a madrugada

e vença todas as noites. 

bobagem é quem nunca viu o sol nascer.

bobagem é essa luz que me deixa sem ar

de tão bonita que você fica.

e são todos poemas, todas as canções

e todos os filmes que você coloca na minha cabeça

que passam ao mesmo tempo

e eu tento segurar tudo

mas minhas mãos nunca são rápidas demais.

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espero não atrapalhar nada
nem bagunçar as coisas
nem tropeçar no meus pés,
quero embrulhar toda calma
e toda minha euforia ao olhar pra você
e embrulhar num presente bonito
pra que você consiga te ver
exatamente como eu te vejo.

ficaria acordado se me pedisse
até acordaria mais cedo
aprenderia a te abraçar
e enfrentaria todos os seus medos
pra que nenhum mal pudesse te atingir.

como se eu tivesse passado tempo demais
te olhando entre tanta gente
e toda minha coragem fosse um sopro de ar
antes de afundar bem rápido 
no rio dos seus olhos
e eu só voltasse a sentir meu dedos
quando você respondesse meu oi.

nem foguetes chegam tão rápido aos céus
mas a gente conta as estrelas até chegar no infinito
e depois volta no zero
só pra não acabar mais. 


meus lábios estão sangrando
e todos os livros dessa casa
estão arranjados por cores,
não como se você soubesse do que eu tô falando,
mas eu queria te falar qualquer coisa
de qualquer forma. 

isso é sobre a forma como flutuamos em cima da grama,
a gente nunca vai tão alto
mas sempre chegamos tão perto.
e se você olhasse pra mim
e abrisse meus olhos como um guarda-chuva,
talvez eu conguisse 
passar outra noite em claro
contando postes e vaga-lumes do fundo do mar.

na verdade vou te esconder de mim mesmo
e de todos os pássaros e estrelas
e mesmo assim quando eu estiver mais velho
vou me lembrar do seu rosto.
e de todas as coisas que eu falo
e eu dançaria ouvindo sua música favorita
me perdendo dos meus próprios pés
e te procurando pra contar
como foi meu dia,
e no resto de minha vida estaria tudo bem.


som e cor

22ago17

se eu te chamar do outro lado da rua
se virar pra trás, me procura
se eu te olhar duas ou três vezes
só pra ter certeza se você não está mesmo olhando pra mim também,
pode ser você na fotografia
seu cabelo que fica tão bem assim,
pode ser o andar lento da chuva,
a gente de ponta cabeça 
cheios de som e cor 
e eu não respiro,
não ouso respirar,
toda vez que você olha pra mim.

toda elegância repousa na luz do abajur,
seus dedos a percorrem como se fosse água
e você percebe que não existe certeza alguma
nada além de alguns dias riscados,
e se eu não enlouquecer 
talvez qualquer dia eu te conte
que eu te vi bem antes de você me ver.


a gente foi deixando umas coisas pra depois
não por maldade,
a gente só tem uns descuidos 
que parece que vai tirando parte da gente
e dai quando vamos tentar juntar tudo de novo
já faz tanto tempo
que a gente tem medo de não fazer mais sentido.

como segurar fumaça com as mãos
como prego na areia,
a inexorável passagem do tempo
é um eterno não alcançar,
como se estendessem a linha de chegada
toda vez que estamos perto de ganhar.

eu devia ligar pra algumas pessoas
concertar umas amizades
terminar o livro na gaveta
não guardar tantas coisas na minha cabeça
nem me magoar tanto assim.
eu devia limpar as caixas 
dizer que está tudo bem
cantar umas músicas antigas
não levar tão a sério tudo que falam
e chegar um pouco mais perto de mim.


a casa

01ago17

ficou tudo um pouco fora de lugar
na verdade foi uma barulheira só,
arrastamos os móveis
e eles rangiam no chão da sala
como se fossem trovão.

temporal mesmo é o que caía lá fora,
e bagunça da minha cabeça que só queria um dia de sol.

acontece que a gente se acostuma.
seja com goteiras,
seja com a televisão fora do ar,
seja com a porra dos gritos
seja com pouco amor, quase nada.

por isso nosso protesto foi o barulho.
ninguém vai dormir
enquanto a casa não estiver exatamente
como deveria estar.
na verdade, tenho medo de nunca mais dormir
mas, ao mesmo tempo,
aprendi que pode ser que a gente
só chore mesmo é de alegria.

é verdade quando dizem que a gente pode viver em paz,
acontece que paz é um ato de guerra.

então a gente luta como um soldado
então a gente sonha como um poeta
então a gente dança como um rei.

e quando eu fui rei
corri ao seu redor
com sinos e tambores e cem mil guitarras
e fiz um jardim no quintal de casa
pra você vir pousar.


foi um sopro
que bagunçou seu cabelo
que pintou a tarde de laranja e cor de rosa,
deixando o sol mais perto da nossa pele
e fazendo doer todos os nossos ossos.

pela primeira vez nessa vida
me vi fazendo planos
que não voassem 2 mil metros de altura. 

eu escrevi um poema que falasse sobre toda minha vida
e troquei todas as folhas por abraços e um tanto de atenção.

foi só uma música
que riscou o disco na vitrola
que me fez querer te chamar pra dançar,
enquanto balança o pé do outro lado da sala
e conta os meses como luzes que apagam na cidade.

todo tempo que corre alcança a gente
e nossos pés tropeçam rolando a escada
e a gente perde toda a calma, além de alguns dentes.