ela pulava a escada de 3 em 3 degraus
– foi a última vez que a gente se viu –
era um vendaval, um furacão
segurando todas as horas entre os dedos
pra não deixar a vida escorrer
igual a areia da ampulheta do jogo imagem e ação.

ela correu a rua toda, pé ante pé
abriu os braços no meio fio
e percebeu que se pudesse se jogaria
todas as vezes, do lugar mais alto da torre mais alta,
e fecharia os olhos pra não ver o amarelo tomando as paredes
nem a poeira nos bancos e os jornais de ontem
virando do ano passado.

e todos os mendigos na praça
todos eles, estavam com a barba cobrindo o rosto
e olhavam os carros que refletiam o sol
e os cachorros se espreguiçavam
e eles entendiam mais da vida do que nós dois.
todos os mendigos e todos os cachorros
já nascem escrevendo poesia
e a gente só aprende em dois momentos:
ou quando sofre tanto,
ou quando encontra alguém
que é mais bonito que o próprio universo.

mas os cachorros e os mendigos sabem mais das coisas.

por isso ela se perdeu olhando o céu
porque teve a certeza absoluta
de que teria tanto medo se voltasse outra vez 
a olhar para os lados.
ela tinha medo de perder a direção,
de se deixar por partes em alguém
e querer voltar pra buscar depois
e tinha medo das cores e dos sons
que as vozes faziam 
quando ela não queria acordar em casa.
ela desligou todos os alarmes
só pra poder dizer que a perdeu a hora.

porque todos os mendigos e todos os cachorros
já nascem cantando blues, de madrugada
a televisão da casa da frente ligada no canal de putaria
e tudo se torna música
e a gente só canta música mesmo, de verdade, em dois momentos:
ou quando sofre tanto,
ou quando encontra alguém
que é mais bonito que o próprio universo.

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Era tão pequeno

Que tinha medo de não ter espaço

E me fazia caber apertado em qualquer canto

Da sua bagunça organizada.

Na verdade andava sempre quase te encontrando

Perseguindo seus azuis

E vencendo meu medo de chuva

Só pra poder te ver relampiar.

Você é céu azul e estico meu dedos pra te buscar e conto todas as estrelas da constelação que gira ao nosso redor quando você me olha de volta. E eu te olho de volta.

 


ela sorri sem mostrar os dentes e olha pro outro lado
parece que congelou o ar e o céu
e parece que eu, principalmente
não ousaria me mover.

ela é brilhante como o sol
e tão bonita que queima minhas mãos
mas eu percebo que não me importo.

ela é uma música que eu peço pra não esquecer,
sua voz é meu som favorito
e ouvir ela cantando
faz eu me sentir seguro como num cobertor.

ela desenha as estrelas com a ponta dos dedos
e eu tento segurar todas as palavras que ela diz
pra guardar numa garrafa e colecionar pra sempre.

ela é um dia à tarde,
as cortinas abertas pro sol entrar na sala,
os pés descalços no chão gelado
e a culpa toda por me fazer querer viver.

ela tem todos os meus melhores sorrisos
e ela talvez nem se lembre sempre disso
mas eu amo ser qualquer sorriso naquele rosto.

e isso sempre acontece:
ela vem com esses olhos gigantes
e eu me perco quando não sei nada pra dizer
e ela sempre me lembra que tá tudo bem.


acho que por descuido te deixei levar meu sono outra vez,

eu tinha pedido pra não enlouquecer por nada nesse mundo

como se eu tivesse resolvido separar todos os carros por cor,

mas no final eu só terminasse no meu quarto

desejando muito pra que qualquer sorte absurda me acertasse.

e se eu ainda não aprendi o nome de todas as cores

e se algumas bandas ainda me deixam tão entediado,

eu juro que não escreveria mais nada sobre isso

porque só tenho me repetido e nenhum poema se parece com você,

ou com o sol nos seu cabelos, ou com a vontade

de me prender em seus dedos

quando percebi que todo  barulho vai embora

e as ruas são apenas ruas e as pessoas são apenas pessoas

e eu abriria os braços pra te ver, eu diria que quero muito te ver

porque, qualquer hora, por deus, eu quero mesmo te ver.

e eu tento, mas não sei dizer isso de outra forma

a não ser que eu quero mesmo te ver.

eu queria escrever qualquer coisa que te fizesse vir correndo.

queria soar como um poeta. e não como outro poema amassado

entre à 1h e 2h da manhã, acordando com a luz do abajur

fazendo listas de filmes na cabeça

enquanto lentamente acalma a respiração

ao te alcançar de longe e descansar no seu ouvido,

pra te contar que usaria de toda coragem que tenho

pra te escrever o poema mais bonito

e te olharia nos olhos pra sorrir antes de finalmente conseguir dormir.


toda adrenalina subiu pra minha cabeça
e as borboletas não me deixaram em paz,
eu fiquei paralisado
olhando você contar os passos
que chegavam até mim.

filmes que duram mais de duas horas
e músicas que dão vontade de pintar as paredes
pra tirar o cinza da cidade
e te deixar com vontade de ficar

queria te contar que quase segurei sua mão

um gol aos 45 do segundo tempo
o telefone que toca no meio da noite
as luzes que se apagam
a câmera que entra no rec
os primeiros acordes de sua música favorita
o seu olhar procurando meu, mesmo quando tem tanta gente

algumas coisas me fazem pensar que é uma droga
a gente não viver uns mil anos.


tenho sempre medo de falar demais, sobre coisas demais
e não caber dentro de mim,
nem silenciar minha cabeça
ou acalmar meu coração
e esquecer de respirar.

na verdade
eu tenho respirado mais
escrito mais 
aprendi os nomes de umas cores novas
terminei uns livros que deixei pela metade
vi uns filmes diferentes

e até fiz uma música. 
eu faria uma música pra você.
eu cantaria ela pra você.

talvez você já saiba mais sobre mim do que eu mesmo,
talvez eu queria muito te levar pra jantar.

porque, de vez em quando
e ouça bem, só de vez em quando mesmo
aparece alguém
que faz a vida deixar de ser
a droga de um sonho ruim,
e a gente precisa fazer tudo que puder
a gente precisa segurar com as duas mãos
e com a bravura de um herói
e a maior sinceridade possível
a gente precisa pedir pra essa pessoa ficar
pra nem que seja mais um café,
ou, se puder,

mais uma tarde, ou duas
ou só até esse ano acabar

e sobre o próximo ano conversa depois,
pra não atropelar as coisas,
e resolver tudo assim, um sorriso de cada vez.

fala pra ela,
principalmente se o mundo parar quando ela estiver por perto
porque isso sim é uma sorte grande do caramba.


então todas as gotas de chuva
parecem tentar te dizer 
qualquer outra coisa
que você pelo amor deus não quer ouvir.
como um rádio mal sintonizado
tocando sua música favorita,
acho que se eu pudesse te alcançar
não te diria nada de diferente,
seríamos só mais outras duas pessoas
em mais outra cidade
e eu te abraçaria
porque acho que isso é tudo que eu gostaria de fazer.

então a chuva vem
e é melhor levar seu guarda-chuva,
talvez não adiante rezar
já que ninguém costuma responder.
mas é melhor tomar todos os golpes
um atrás do outro
e aproveitar que toda dor passa tão depressa.
e todo silêncio que fica na minha cabeça
quando você fala comigo
me deixa tão sem ar,
que eu só te abraçaria
porque acho que isso é tudo que eu gostaria de fazer.

então a chuva vem
de vez em quando a vida parece mais ou menos impossível,
mas eu te abraçaria pra contar que
de qualquer forma, tudo vai ficar mais ou menos bem.