Vamos supor que eu enlouqueça – só hipoteticamente – 
que eu tenha qualquer coisa parecida com alguma doença,
não que seja tão sério, 
mas é daquelas coisas mais assustadoras do que a gente pensa.

Mas antes vamos supor que pra começar você precisa
prestar atenção em tudo que eu digo,
mas como eu incontrolavelmente falo um monte de bobagem
você só me olha e pensa:
pelo amor de deus não faz isso comigo.
Mas juro que vou tentar falar pouco,
antes que eu fique rouco,
antes que eu deixe nós dois mais loucos um pouco. 

Vamos supor que eu, de repente,
te diga bem aquilo que você tem certeza que eu nunca diria,
mas que você morre de medo que eu diga.

Vamos supor que ouvir qualquer coisa assim seja fácil pra caralho.
Vamos supor então que na verdade tenha um atalho.

Mas vamos supor que qualquer caminho mais rápido seja covardia
e vamos supor que isso eu também já sabia.

Vamos supor que algumas coisas aconteçam tão depressa
que a gente só presta atenção depois que já viu passar,
e que todo esse movimento tão rápido têm me deixado sem ar;
porque a vida me parece mais ou menos como dirigir sem controle dos freios,
e não que eu queria desistir ou parar de correr
mas algumas coisas, às vezes me dão um pouco de medo.

Vamos supor que eu já fui ator,
já fui diretor,
escritor, cantor
e que isso só quiser dizer mesmo
que eu já senti alguma dor.

Vamos supor que eu tenha sido namorado,
mas como faz parte de mim, fui também um tanto errado.

Vamos supor que não exista nada do outro lado.

Sei que sonhei que era outra pessoa,
dessa vez uma pessoa boa.

Vamos supor que eu estivesse certo,
e nesse sonho, a melhor coisa era você por perto.
E por deus, eu não queria mesmo ser desperto.

Vamos supor que eu tenha poucos amigos,
mas que são tão bons, que não tenho medo nenhum do perigo.
Vamos supor que isso seja um milagre,
já que eu sou tanto chato e isso é um fato,
nem adianta discutir, 
nunca fui bom mesmo com brigas
então gosto bastante de quem quer ficar comigo por aqui.

Vamos supor que eu seja um tanto sucesso e um tanto de fracasso,
talvez mais fracassos,
mas fracassar de forma bonita é uma coisa que a gente aprende a admirar,
como saber que pode perder tudo no jogo
mas mesmo assim não deixar de apostar.

Vamos supor que na verdade eu não saiba quase nada sobre mim
e sendo assim, esse daqui deveria ser o fim.

Mas como eu disse talvez eu enlouqueça,
talvez eu viva mais 90 anos
talvez eu não seja nada do que planejei
talvez eu morra explodindo em estrelas pra mais de milhão
talvez você passe aqui mais tarde, porque porra,
eu só preciso de um tanto assim da sua atenção.


em alguns anos a gente nem vai se reconhecer mais
e todos os nossos amigos vão estar morando em cidades diferentes,
talvez a gente esteja cada vez melhor
mas estaremos em lugares diferentes.
e eu não sei muito bem o que fazer sobre isso,
alguns anos não querem dizer nada para o universo
mas entre nós, é como se tempo for a única coisa que a gente realmente tem,
porque o resto desaparece
e eu acho que é assim mesmo,
mas meu deus, quanto eu amo seu rosto.
e em alguns anos talvez a gente nem se reconheça mais
e eu tenho falado tanto sobre o modo como as coisas mudam
que eu só preciso lembrar da forma como você sorri
alguns segundos depois de me ver acordar.
e se estivermos perto do céu
se a cidade gritar alto demais 
que todo mundo saiba quem nós somos
e que estivemos por aqui,
entre prédios e rodovias
chuvas e luzes acesas, até chegar em casa.


fiz uma bagunça danada.
troquei umas coisas de lugar, limpei umas gavetas
joguei fora umas certezas 
usei umas camisetas de cores diferentes,
arrastei os móveis 
e sujei todo o chão de tinta
quando achei que deveria pintar a parede.

fui deixando de insistir em tanta coisa,
que até fui dormir mais tarde
com medo de sonhar outra vez
e não me ver.

e se eu não conto mais meus planos
é porque não faz mais sentido dividir tudo que eu fiz,
na verdade estamos em fronteiras
entre o que a gente pode e entre o que a gente é,
mas me ligue se achar importante
às vezes o tempo costuma passar um pouco.

e se a gente nunca achar o nosso lugar,
qualquer música no rádio faz a gente se sentir em casa,
eu escondo os motivos de você me fazer sorrir tanto
mas eu fico acordado até mais tarde se você me pedir.


a gente abriu a porta,
só pra te deixar a vontade,
e você trouxe de volta toda a bagunça.
tirou o sono, tirou a calma
e eu rasguei minha garganta
e dei minhas mãos para o diabo
quando desejei com todas as forças
que você fosse para o inferno.
e eu sei que sempre vou pagar por tudo isso,
mas se for assim, que eu compre também minha paz,
umas noites bem dormidas e minha casa sempre com amigos,
sem medo de que você possa chegar
e fazer tremer todas as paredes. 

quero ficar bem com meus planos
e com minha cabeça no lugar.
sem precisar me convencer 
de que eu não sou tudo aquilo que você tanto diz.
quero acreditar em mim,
e em que fica por aqui,
e rir dessa bobagem nossa de insistir em correr atrás
de quem nunca quis a gente por perto.

não digo que não gosto de você,
ou que te deseje algum mal,
só não posso mais te ter por perto.


casa alta

21fev17

eu tento decorar a disposição de todos os objetos
absorver a forma como você organiza a casa,
seus pés no chão, o cabelo preso
o sol que vai embora e a luz apagada
é quase noite, mas você fica tão bem
quando sorri nessa luz do entardecer,
que acho que me perdi entre seus azuis
e só fiquei te olhando riscar o céu
tão depressa, 
que quase atravessou o sol.
fez tanto calor essa semana,
que a cidade parecia dançar sob nossos pés,
e eu fotografaria se fosse o bastante pra te eternizar.

vou mais alto até ouvir o sussurro da noite
na minha memória a casa já tem outros tons
mas sempre tem você,
cantarolando descalça pelos corredores.


desdobra

08fev17

estava tudo bem,
bem diante dos seus olhos
da cor do céu do fim de tarde,
que não cabe nem na fotografia
mas que fica bem no seu vestido azul.
pensando bem, 
isso tudo se desdobra
exatamente no momento em que eu me sinto coroado
um rei da bagunça, do nosso próprio quarto,
onde só existe uma lei
– não negociável, e passível de prisão perpétua –
que diz que só seremos nós mesmos,
seja pra ir embora ou pra ficar,
seja o tempo que perdemos tentando nos evitar,
seja você tentando se encontrar.

não falo sobre nada do que você tanto tenta saber
mas se me olhar você sabe tudo sem nem eu dizer.


nublado

31jan17

se eu fosse mais jovem eu deixaria essa cidade,
porque parece que quando a gente tem o mundo inteiro
todo dentro do nosso bolso,
a gente atravessa todos os mares
e faz floresta em desertos.

mas se estiver chovendo na hora que você acordar,
eu coloco todos os seus sonhos de volta no travesseiro
e você pode pegar depois, quando não estiver tão cansada.
porque às vezes a chuva cai em cores diferentes
e eu vou te deixar bem próxima de mim
e cuidar de todos os seus dedos e fios de cabelo
mandando todo nosso medo embora,
a cidade passa rápido demais
e nessa tarde eu não quero contar luzes ou carros.