casa alta

21fev17

eu tento decorar a disposição de todos os objetos
absorver a forma como você organiza a casa,
seus pés no chão, o cabelo preso
o sol que vai embora e a luz apagada
é quase noite, mas você fica tão bem
quando sorri nessa luz do entardecer,
que acho que me perdi entre seus azuis
e só fiquei te olhando riscar o céu
tão depressa, 
que quase atravessou o sol.
fez tanto calor essa semana,
que a cidade parecia dançar sob nossos pés,
e eu fotografaria se fosse o bastante pra te eternizar.

vou mais alto até ouvir o sussurro da noite
na minha memória a casa já tem outros tons
mas sempre tem você,
cantarolando descalça pelos corredores.


desdobra

08fev17

estava tudo bem,
bem diante dos seus olhos
da cor do céu do fim de tarde,
que não cabe nem na fotografia
mas que fica bem no seu vestido azul.
pensando bem, 
isso tudo se desdobra
exatamente no momento em que eu me sinto coroado
um rei da bagunça, do nosso próprio quarto,
onde só existe uma lei
– não negociável, e passível de prisão perpétua –
que diz que só seremos nós mesmos,
seja pra ir embora ou pra ficar,
seja o tempo que perdemos tentando nos evitar,
seja você tentando se encontrar.

não falo sobre nada do que você tanto tenta saber
mas se me olhar você sabe tudo sem nem eu dizer.


nublado

31jan17

se eu fosse mais jovem eu deixaria essa cidade,
porque parece que quando a gente tem o mundo inteiro
todo dentro do nosso bolso,
a gente atravessa todos os mares
e faz floresta em desertos.

mas se estiver chovendo na hora que você acordar,
eu coloco todos os seus sonhos de volta no travesseiro
e você pode pegar depois, quando não estiver tão cansada.
porque às vezes a chuva cai em cores diferentes
e eu vou te deixar bem próxima de mim
e cuidar de todos os seus dedos e fios de cabelo
mandando todo nosso medo embora,
a cidade passa rápido demais
e nessa tarde eu não quero contar luzes ou carros.


Depois de a Isa muito pedir – e o Silas inclusive me dar o set list – achei que seria legal se eu resolvesse escrever sobre sábado. Eu juro que tentei escrever ontem, mas ainda tava sentindo várias dores, então resolvi dedicar meu dia a dormir tudo que eu podia. 

E agora é segunda-feira, estou no trabalho, com um copo de café e o set list aqui do lado… Meu nariz ainda tá dolorido com algum provável chute que eu levei, tem um arranhão no meu ombro e meus joelhos estão roxos. Não, eu não fui em uma briga, nem entrei numa suruba doida… Amigos, eu estive em outro show do RANCORE!

(o primeiro show que eu fui tá aqui também, só clicar)

Começou ainda no ano passado. Quando Rancore anunciou que faria uns shows, só pra relembrar como era. Os caras tinham parado de tocar fazia pouco mais de dois anos. Resolvemos que iríamos, com direito a van e tudo mais. Foi engraçado porque era basicamente o mesmo pessoal que ia em shows alguns anos atrás, quando a gente tinha tudo 16 ou 17 anos. Foi engraçado porque no fundo a gente percebe que algumas coisas não mudam absolutamente nada. O tempo só passa mesmo. 

O lugar era bacana, tinha 3 bandas de abertura e em umas delas o Teco até entrou de surpresa no palco pra fazer uma participação. Ah, o palco dava na altura do meu joelho e a gente resolveu ficar ali na frente pra guardar lugar. Parecia uma ideia boa.

Mas então o Rancore entrou. O Teco já começou a girar o braço, dizendo pro povo fazer bate cabeça e então começou a primeira música, ESCRAVO ESPIRITUAL e parecia que o mundo tava desabando. Mas era bom. Juro. Um bate cabeça enorme, todo mundo sendo empurrado e uma galera subindo no palco e pulando por cima da gente. Foi bem doido. 

A segunda música foi SAMBA – e o povo ainda tava doido igual, ai eu já tava cansando de apanhar – mas essa letra é tão bonita que vai uma parte dela agora:

tomo cuidado para não me afogar
abro a mente para poder te encontrar
a sua brisa vindo me faz viajar por lindos lugares
ao caminhar eu aprendi
que a felicidade a gente encontra ao dividir

E então foi JEITO LIVRE, e o Teco tem uma puta presença de palco. É uma das coisas mais legais do show. Ele não para um minuto. Ele bate os braços. E ele interpreta a música, às vezes eu percebia que eu nunca tinha entendido de verdade alguma letra, até ver ele cantando ao vivo.

Depois foi 5:20. E essa música me ganha sempre. É daquelas que você precisa tatuar no peito, pra nunca esquecer ele dizendo faça tudo o que quiser, você não tem certeza se vai cair, um belo dia tudo acabará… e o que você vai guardar? – e foi nessa hora que eu percebi que já tava cansado de ficar sem respirar e de bater meu joelho no palco e levar empurrão. Então eu subi no palco e pulei em cima do pessoal também, indo parar um pouco mais pra trás, ai fiz sinal pro Muka vir também. E ele fez a mesma coisa. Foi bem ótimo. 

Mas ai foi outro problema, porque eu caí bem no meio do bate cabeça. E vinham duas músicas daquelas: RITUAL e LIBERTA. Ah, o Silas também já tinha subido no palco, ele deve ter subido umas 5 vezes eu acho. E ele tava em todos os bate-cabeça. E eu fui cansando, ai lembrei do povo brincando na van, dizendo que num show, quando tem bate-cabeça, o bacana é ficar perto do Wartão. E bem nessa hora eu achei ele, o Peixe, o Tio e o Alex… Na verdade, o Alex foi corajoso, eu tava do lado dele e não aguentava mais ser empurrado no palco, ele aguentou ficar lá o show todo. Enfim, fiquei ali com eles um pouco, pra conseguir respirar. Ainda bem que fiz isso, a próxima foi RESPEITO É A LEI.

Uma vez eu li o Teco dizendo que essa é a música mais importante que ele já escreveu. E isso faz bastante sentido. Ainda mais porque você via isso no show. Por mais que as pessoas estivem se batendo ou coisas assim, se alguém caísse, por exemplo, todo mundo parava pra ajudar o cara se levantar. Se uma pessoa esbarrasse na outra, elas se abraçavam e cantavam juntas e isso foi o show todo. É bem bonito quando paro pra pensar. 

O set list tá bem rasgado e minha memória não me ajuda a lembrar o que vem agora, então vou colocar mais ou menos o que eu lembro: tocaram PLANTO, M.E.I. e SELEÇÃO NATURAL. 

Seleção Natural é uma música bem ótima. Primeiro, pela que pergunta: zebra ou leão? – ahushaush meu deus, eu ouvi essa pergunta mil vezes na van – segundo porque o refrão é foda. Eu subi no palco de novo pra gritar: Já ganhei, já perdi e ainda estou vivo aqui!!! 
Aí olhei pra baixo, vi o Peixe, ele fez sinal pra eu pular e eu pulei, meio que em cima dele só. Mas deu tudo certo, obrigado Peixe <3.

Então foi INOCENTES e o melhor que posso dizer sobre ela é que o que é forte permanece vivo, entende?

Aí o show começou a acabar e o Teco insistiu pra todo mundo fazer uma roda pro bate cabeça. E ficou gigantesco e eu entrei e o Muka também… E então, QUARTO ESCURO, e a casa veio a baixo. Um monte de pessoa pulando do palco ao mesmo tempo e o povo embaixo nem conseguia segurar, mas as pessoas pulavam mesmo assim.

E por fim, o Teco disse que tinha tempo pra mais uma. Fez uma votação ali, e a escolhida foi YOGA, STRESS E CAFEÍNA. Essa foi a primeira música deles que eu gostei pra caralho. No colegial eu lembro que ficava ouvindo ela no fundo da sala. Gritei pra cacete. Ah, teve uma hora que senti alguém arranhando meu pescoço, doeu muito. Tirei a mão da pessoa e vi que era uma menina, e ela agarrou minha mão. Ela tinha pulado do palco e tava tentando chegar no chão. O Alex ajudou ela e tudo ficou bem, menos meu pescoço.

E então o show acabou. E o Silas arrumou um set list e me deu. 

A casa já ia fechar, então a gente foi correr pra van. Minha roupa tava inteira molhada de suor e tava uma puta chuva lá fora. Eu não gosto de tomar chuva. Mas essa foi ótima. Eu andei só sentindo a água gelada. Até parei 1 minuto de olhos fechados. 

E a volta foi tranquila. A gente parou num posto pra comer e depois viemos, cantando músicas e alguém até colocou Cogere pra tocar. 

A vida é boa, né? Tenho pensado nisso. A gente fica bem triste às vezes. Mas acho que nunca senti tão forte a mudança de um ano e todas as coisas que mudaram com ele. Entre tanta coisa que a gente perde e ganha, a gente têm mesmo é que abraçar quem luta com a gente e quem fica do nosso lado. É verdade quando dizem que algumas pessoas vão embora, mas sabe, percebi que quem tem que ficar, sempre fica. E o melhor de tudo é que a gente sempre acaba ficando bem. De uma maneira ou de outra, a vida ajuda e a gente vai sorrir, vai morrer de rir. Seja com um show do Rancore que faz a gente lavar a alma e ficar sem voz e gritar pro mundo, seja no reveillon mais bonito do universo, seja só um sábado normal, com os melhores amigos que a gente pode pedir. A vida é boa.

 


NOVA YORK #5

17jan17

ela rabisca no vidro do ônibus
o desenho que o asfalto faz ao se misturar com as árvores,
que logo depois se mistura ao céu, como se tudo fosse um só.

janeiro te encontra tão certo como a chuva do fim da tarde,
querendo que viagens longas sejam tão próximas quanto atravessar a rua.

essa última semana 
parece ter durado um ano inteiro,
entre bebidas, chocolates e garotos que você nem se importa,
garotas só querem se encontrar.


gesticulava com a certeza absoluta
de quem não sabe nada do que tá dizendo,
e sendo assim, como todos aqueles tão inseguros
sempre se encontrava sem querer cheio de razão,
sempre olhando no relógio de hora em hora
e imaginando os contornos quase que gravitacionais
que o puxavam diretamente para o seu sorriso.
sendo assim, 
conhecendo a raridade dos dias bons,
sorri cuidadosamente por cada vez que planeja te encontrar,
é mais ou menos o que acontece 
quando se para pra analisar todas as questões filosóficas e científicas
tentando em vão qualificar em números o valor do agora. 
é como conhecer seu quarto, saber onde você mora
ver as crianças brincando na sua rua.
sendo assim, no fundo, bem no fundo
estar vivo é um descuido,
mas te encontrar entre tanta coisa torta que se atropela
é cobertor e blusa de lã em dia frio.


Baleia

04jan17

fiz sinal pro táxi que vinha subindo a rua,
perguntou pra onde eu ia,
eu disse pra ele tocar em frente que eu ia dizer a hora de virar.
acho que eu só precisava de uma cidade cheia,
de um pouco de chuva na janela,
de algumas luzes confundido minha cabeça.
esse ano não contei sete ondas, nem fiz promessa alguma
só deixei amanhecer na sua respiração
e vi de perto as cores do seu cabelo enrolado. 
fogos de artifício e faróis vermelhos,
o táxi cruza a cidade se desviando dos outros carros
e são pessoas e guarda-chuvas
e motos e lojas começando fechar
e as nuvens no céu fazem barulho e gritam
como uma baleia que se levanta do mar para respirar.