As buzinas ou o relógio da parede

29ago16

Dobrava as mãos e colocava diante dos olhos como uma luneta, apontava assim pra algum horizonte qualquer, encontrando sentido nas formas geométricas que o sol fazia pacientemente de prédio em prédio. Guardava um segredo ou dois sobre ela. O primeiro tinha a ver com os sons da cidade, que corriam ao seu redor de forma tão frenética que o deixava sem ar, e que ela deveria saber, já passou da hora, que quando ela vêm, tudo fica em silêncio. As buzinas ou o relógio da parede não importam. Fica só a voz dela, só o barulho da respiração ou o piscar dos olhos. Tropeçava enquanto, agora, fazia avião com as mãos, e tinha qualquer coisa, alguma história sobre cabelos coloridos e colares de pedra, e quando falava sobre sorrisos rabiscava o nome dela em suas roupas, enquanto cantarolava aquele disco bonito que ouviu na semana passada. Deveria mandar pra ela. Se já não mandou na verdade. Ou deixar um bilhete, dobrado junto com os quadrados do cobertor, só pra contar que tá pensando nela agora, que vai embora porque precisa, mas que voltaria sempre. Deixa o bolo de cenoura pronto.

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