dessas madrugadas

01out15

São 2 da manhã, ela não consegue dormir, a mão entre as pernas, o telefone ao lado da cabeça. Existem três perguntas que lhe tiram o sono e que talvez, se ela conseguisse responder, provavelmente a vida ficaria um bucado mais fácil essa madrugada. A primeira tinha a ver com a barata voando na sala e com a busca intensa por algum motivo convincente para nenhum dos seus irmãos ainda não ter a matado. Ela sabia que era praticamente impossível ouvir a barata voando de tão longe, mas por favor, ninguém aqui está querendo ser racional! A barata está lá e pronto! Cheia de pernas e coisas gosmentas só esperando para voar direto em seu pescoço e tomar todo o seu sangue como se fosse um vampiro.
A segunda pergunta era menos perturbadora, mas não por isso menos pior. Tinha a ver com o sorvete novo da nestlé. E numa noite quente dessas o arrependimento por não ter comprado o pote em promoção fazia um peso enorme em sua cabeça. Talvez se tivesse atropelado uma velha manca na rua estaria se sentindo menos pior do que ter deixado passar essa oportunidade. Odiava decisões mal tomadas e não comprar sorvete da nestlé em promoção num dia quente, definitivamente fazia com que ela fosse tão inconsequente quanto o cara que inventou que brócolis era um alimento. Crianças do mundo todo o odiavam por isso. E agora ela se sentia odiada também.
Por último e tão perturbador quanto baratas e tão triste quanto não ter sorvete em uma madrugada quente, era ele. Ele e os dedos longos, ele e a camiseta cinza. Ele e a demora entre um dia e outro. Tem sido ele nesses últimos tempos, não que ele saiba, pelo amor, não vai saber nem sob tortura, preferia ser amarrada em uma barata gigante do que contar tudo que sempre vinha pela cabeça. Mas mesmo assim não resistia em às vezes deixar escapar uma coisa ou outra, para perder umas horas de sono a mais. 
Ele poderia aparecer amanhã, caso não chova, podia ter umas estrelas e o céu da última semana, com aquela lua bonita. Não que ela fizesse esse tipo de plano. Não seria a menininha do relacionamento, essa era a função dele. Ela é o cérebro. A racional. Estava decidida nisso quando resolveu que já havia passado mesmo da hora de dormir.
Decidiu que nem estava tão calor e puxou um lençol até o pescoço, quase esqueceu que tinha uma barata por aí. E quase esquecer já é bem bom. Antes de adormecer pegou o celular e enviou três mensagens para ele: boa noite. viadinho. beijo. 
Achou que já era o bastante e que ele podia mesmo aparecer amanhã. Com sorvete. 

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