PROCURA-SE

24set15

estava na placa que ela erguia
bem acima da cabeça
na avenida principal.
PROCURA-SE.
as pessoas passavam olhando,
mas não encontravam resposta,
não tinha maiores informações, apenas 
PROCURA-SE.
o que você procura? – eu perguntei.
não sei se você pode me ajudar – ela respondeu.
mas você não fala com ninguém, como espera encontrar?
quando aparecer, eu vou saber.
ela parecia decidida,
e eu achei que devia ir embora.
mas algo me dizia para ficar, então fiquei.
quer alguma coisa? – ela perguntou.
te ajudar. – eu respondi.
não pode. assim que eu encontrar, tudo vai ficar bem.
quer dizer então que algo não está bem? – eu perguntei.
ela revirou os olhos
digamos que eu esteja passando por um dia de merda – ela disse por fim.
sei como é.
não. você não sabe. você não tem a minha vida.
isso não quer dizer que eu não saiba como é um dia de merda – eu respondi.
sério, você pode ir embora – ela disse.
não, vou te ajudar a encontrar.
não tem como você me ajudar, não tem nada especifico
eu preciso de músicas, de cores azuis, de cheiros bons – ela disse.
e você não sabe aonde encontrar? eu perguntei.
tem dias que a gente nunca encontra nada – ela disse – e parece que esses são os dias que a gente mais precisa de alguma dose de qualquer coisa boa. mas eu tô cansada, sabe? inclusive cansada de ficar aqui.
ela abaixou a placa.
você não pode desistir de procurar – eu disse.
por que não?
porque quer dizer que você nunca vai encontrar…
ela deu de ombros.
eu peguei a placa de suas mãos e levantei.
PROCURA-SE
o que você está fazendo? ela perguntou.
achando alguma coisa por você – eu respondi.
ela ficou me olhando por uma hora inteira sem dizer nada
as pessoas passavam na rua e eu fazia caretas para elas,
no começo era de canseira mesmo, mas dai ficou engraçado,
uma menina pequena passou por mim com um sorvete enorme,
um senhor olhando o relógio, uma moça num vestido de flor e
todo momento, ela só me olhava e ria quando alguém interagia.
quando o sol começou a abaixar ela correu em minha direção e me abraçou
murmurou um obrigado e puxou meu braço para baixo.
obrigada, mesmo.
e subiu no ônibus que havia acabado de parar, segundos antes da porta se fechar.
eu deixei a placa exatamente aonde estava
e fiquei triste por não ter tido tempo de falar sobre a droga do dia que eu estava tendo
e do quanto ela tinha me salvado,
era tudo o que eu procurava naquela tarde.
as coisas são estranhas e bonitas. 

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