As gotinhas do balde vermelho

20dez14

Mônica simplesmente adorava ficar sozinha em casa. Adorava ficar na janela do apartamento, lá no alto do décimo sétimo andar e imaginar que o mundo todo é um formigueiro e que ela, na verdade, era uma libélula de sorte. Já que pelo menos podia ver tudo assim do alto.

Não acontecia sempre, mas quando dava certo dos pais saírem juntos, ela abria o apartamento todo e fingia voar de uma janela pela outra. E, como era uma libélula estabanada, ia trombando com os móveis da casa. Depois ela deitava no chão, bem aonde batia sol e às vezes tirava uma sonequinha, sentindo o vento entrar.

Mas dias chuvosos estragavam tudo, já que não podia abrir nem uma frestinha! Ela se sentia super sozinha por não ter alguém com quem brincar. E hoje estava chovendo. Deitada no sofá da sala, Mônica olhava os cartazes de sua mãe colados na parede. Cada um era mais bonito do que o outro. A mãe da Mônica era bailarina profissional. Daquelas que colocam roupas bonitas e ficam um tempão na ponta do pé.

Era muito bonito de se ver! Ela se sentia orgulhosa. 

O papai escrevia livros e na verdade, Mônica era doidinha por isso. Porque ela sempre conhecia as histórias antes de todo mundo! Às vezes, até mesmo antes da mamãe…

PING. PING.

Poxa. Mônica olhou ao redor, chovia muito forte lá fora. Mas nunca tiveram goteiras antes, moravam no meio de um prédio, isso não fazia sentido. Talvez fosse a torneira.
Correu no quartinho de tranqueira e pegou um enorme balde vermelho que às vezes a empregada usava pra lavar a casa, andou até a cozinha e não tinha nada, nem na pia do banheiro e nem no chuveiro.

Ficou quietinha para ouvir. Ping.

Mas não era possível. Olhou cada frestinha da casa, percorreu o teto todo com os olhinhos apertados tentando enxergar da onde vinha, e nada. Deitou desanimada em sua cama e pensou: nem ligo mesmo, vou dormir. 

Então, PING. Bem na sua testa. Ela abriu os olhos e caiu outra. Ping. Pegou o balde que tinha deixado embaixo da cama e colocou em cima da cabeça. Alguns ping’s depois, parou. Acho que venci, ela pensou. E então outro ping. Mas bem lá perto do porta. Ela levantou e correu colocar o balde, mas, mal caíram 3 gotinhas e começou a gotejar em outro lugar. 

E assim foi a manhã toda da Mônica, correndo com o balde vermelho pela casa, tentando acertar aonde o próximo pingo iria cair. Até que achou que tinha vencido. Toda a casa estava quieta, e nenhuma gotinha estava caindo. Pegou aquele balde todo que quase transbordava e sem derrubar nenhum tiquinho levou até a banheira, e virou toda água… Mas, quando acabou  de despejar tudo, percebeu que o ralo não tinha puxado nada. E, o mais esquisito, a água tava começando a pegar forma. Quando Mônica deu outra piscadinha, no lugar de toda aquela água, tinha um menino.

Por alguns segundos eles se olharam. Então a Mônica lembrou que seu pai disse certa vez que ela sempre devia perguntar o nome de uma pessoa quando ela quisesse que fosse seu amigo.

– Qual seu nome, menino?

Ele não respondeu. Só olhou pra ela. Com dois olhos grandes e assustados.

– Você não me entende?

Nada.

– Você quer sair da banheira?

Nada de novo.

– Quer ser meu amigo? Às vezes eu fico muito sozinha aqui e não tenho com quem conversar. Você podia ser meu amigo se não estiver ocupado.

Ele não parecia nem conseguir responder e nem se mexer, então Mônica colocou o balde vermelho dentro da banheira e ele engatinhou até estar lá dentro. Então ela ergueu o balde de novo e descobriu que não pesava mais do que a água.

– Quer conhecer a casa?

Como ele não disse nada, ela achou que qualquer coisa era melhor do que ficar ali. Então o carregou pela casa toda e foi explicando cada cômodo que encontravam. Até chegar na sala.

– Essa é a sala. Aqueles cartazes na parede são do ballet da mamãe. Ela é bem bonita. O papai escreve livros. Acho que ele podia escrever sobre você, vou contar pra ele depois. E ali é a janela. Eu adoro ficar na janela. Mas agora tá chovendo…

E pela primeira vez o menino pareceu animado e começou a encarar lá fora. A Mônica percebeu e foi andando devagarzinho. Quanto mais perto chegava, mas ele se mexia. Então ela abriu a janela e sentiu a chuva no rosto e o menino começou a sorrir.

– Agora temos um avanço. Já falei meu nome? Eu chamo Mônica. Espero que mamãe deixe você ficar em casa, você podia dormir na minha cama, eu sou pequena, você também. Eu deixo você dormir abraçada com o Mickey. Ele é meu favorito…

O menino ficou de pé, sorriu pra ela e deu um tchauzinho. Então pequenas asas saíram de suas costas e ele pulou do balde, indo sumir na chuva.

Sem entender muito bem, a Mônica sentou aonde estava e começou a chorar. Lembrou que seus pais ficariam bravos se a casa estivesse molhada, então fechou a janela e foi correndo para o quarto, ande chorou até adormecer…

– Psiu, Mônica!

Era mamãe. A Mônica abriu os olhos. Percebeu que ainda estava abraçada com o balde. O papai estava encostado na porta e deu um sorriso.

– Acorda, dorminhoca. Tenho uma coisa pra te contar.

– O que?

– Você vai ter um irmãozinho…

– É menino ou menina?

– É muito cedo para sabermos ainda, Mô.

Então Mônica sorriu. Não era cedo coisa nenhuma. Seria um menino. E pensando o quanto ele tinha gostado de ficar ali dentro, ela deixou o balde vermelho bem guardado ao ladinho da sua cama, até a hora dele chegar…

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