estranhos

21ago14

– um rabisco que eu preciso lembrar de reescrever daqui um tempo.


(ônibus. A câmera está só nela. Ela chora. O ônibus está parado, algumas pessoas entram. Ele vem do fundo do ônibus)

ele: eu estava lá atrás te olhando e, desculpa chegar assim, mas você está chorando…

ela: (sem olhar pra ele) cacete, você tem uma ótima percepção.

ele: você, quer sair comigo para jantar?

ela: que merda, some daqui.

(ela fica com a cabeça no vidro e olha ao redor. Percebe que todas as pessoas estão na parte da frente do ônibus e algumas em pé, mesmo o fundo estando vazio. Então ela se vira para olhar. Ele está sentado no último banco, com uma fantasia de pênis e uma bolsa ao lado. Ela está alguns bancos na frente, com fones de ouvido. Todos os bancos ao redor dele estão vazios. Ela olha mais algumas vezes para ele e começa a rir. O ônibus para, entra mais pessoas, ela oferece o lugar dela e vai sentar ao lado dele)

ela: com licença..

ele: oi?

ela: desculpa, eu não pude mesmo deixar de reparar, eu tô tentando de verdade, mas… Não fica chateado.

ele: hum?

ela: cara, você tá fantasiado de pênis!

ele: ah, isso, é, eu sei.

ela: e tá tudo certo?

ele: tá, eu acho. por que?

ela: você é um pênis.

ele: eu trabalho no sex shop, fico na frente…

ela: sério?

ele: não. droga. achei que só seria uma boa resposta caso alguém perguntasse. isso não é engraçado?

ela: o que?

ele: às vezes a gente inventa uma outra resposta, para tentar explicar melhor o que a gente tá fazendo. mas fica uma droga depois que a gente fala.

ela: não ficou uma droga. eu não consigo mesmo imaginar outro motivo para você ser um pênis.

ele: eu te conto se você sair para jantar comigo.

ela: sem chance.

ele: ok, não gosta de comer? Então, que tal cinema?

ela: não.

ele: suco de laranja, 2 da tarde no parque.

ela: não mesmo.

ele: ok

(ele meche na bolsa e tira uma maçã dá uma mordida)

ela: você é um pênis mordendo uma maçã!

ele: se você tá surpresa imagina aquela senhora ali na frente…

ela: qual?

ele: aquela, olha (ele aponta) ela olha para mim de 10 em 10 segundos. olha, olhou! vamos contar… 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9… olhou de novo!

ela: você não tem medo de apanhar?

ele: de senhoras?

ela: de qualquer um!

ele: acho que não. a gente só apanha por ser estranho quando está na escola. dai todo mundo cresce e as pessoas preferem ignorar mesmo.

ela: eu não te ignorei.

ele: obrigado por isso.

ela: de nada. por que você tá vestido assim?

ele: você quer mesmo saber não é?

ela: claro.

ele: te conto, se você me contar porque estava chorando.

ela: eu não quero te contar.

ele: eu gosto de ser um pinto sem motivo (ela ri) isso ficou estranho, né?

ela: um pouco.

ele: ok, então me conte qualquer outra coisa sobre você.

ela: que tipo de coisa?

ele: qualquer uma. alguma coisa absolutamente inútil…

ela: hum… eu gosto de ficar de meias em casa. sua vez!

ele: alguma coisa inútil sobre mim?

ela: é.

ele: eu invento nome para as pessoas que não conheço.

ela: como assim?

ele: aquela senhora, que fica me olhando, certeza que chama Benedita.

ela: sério?

ele: ahan.

ela: e aquele do jornal?

ele: Antônio.

ela: para, Antônio é nome de mecânico.

ele: por que?

ela: porque é fácil imaginar um Antônio cheio de graxa e com o rego ao léu.

ele: ok, você acabou de mudar a visão de Antônios na minha vida.

ela: yeees!

ele: meu ponto. preciso ir embora. (se levanta)

ela: não.

ele: isso é um pedido para o menino estranho vestido de pênis ficar?

ela: sim.

ele: me conta porque tava chorando?

ela: só se você não me pedir mais para sair contigo.

ele: ok.

ela: minha vida é uma droga.

ele: fale para um cara vestido pinto num ônibus cheio, 9 horas da noite, como é ter uma droga de vida…

ela: um cara idiota…

ele: ah, isso é uma droga, né?

ela: nada comparado a ser um pinto num ônibus cheio, mas sério, é uma droga.

ele: nem quero saber o nome dele, ok? porque se eu souber, eu vou atrás dele e ele vai tomar um surra de um pinto… cacete, cada frase fica pior!

ela: (rindo) não é importante, sabe? E já faz tempo. Só dói às vezes…

ele: então você devia sair comigo…

ela: ai meu deus…

ele: tá bom. parei. mas você sorriu, olha, você fica mais bonita sorrindo. igual ontem quando tava com sua amiga.

ela: você me viu ontem?

ele: posso te pedir para não me achar psicopata?

ela: já to achando. você tem 1 chance para me convencer do contrário e eu não chamar a policia. 

ele: eu sempre pego esse ônibus também. e só. juro. e sempre te achei bonita.

ela: obrigada, eu acho… eu nunca te vi.

ele: eu sei. acho uma droga que a nossa primeira conversa seja comigo vestido assim. o que vamos contar aos nossos filhos?

ela: nossos filhos?

ele: é, você vai dizer: aah, eu conheci seu pai quando ele tava no ônibus vestido de pinto.

ela: por que você tá vestido assim?

ele: já passei 5 pontos. posso descer?

ela: me conta.

ele: amanhã.

ela: mesmo ônibus, mesma hora?

ele: sim.

ela: sem roupa de pênis?

ele: você não vai me reconhecer.

ela: eu me esforço.

ele: posso trazer pizza? eu gosto pra cacete de pizza.

ela: para comer no ônibus?

ele: sim.

ela: você é estranho.

ele: eu sei…

ela: eu gosto.

ele: e se eu estiver sem essa roupa e você me achar ainda mais estranho?

ela: eu gosto.

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One Response to “estranhos”

  1. Mas afinal pq ele estava vestindo de pinto ?


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