Corações surdos

28maio14

Harmada.

Já faz um tempo que esse cd tem tocado continuamente dentro da minha cabeça. Já faz um bom tempo. Desde quando a avenida Dropsie foi praticamente toda demolida. E isso é uma coisa que o Eisner pode contar bem melhor do que eu, ele sabe tudo sobre esses lugares que vão embora da gente – porque, deixa eu contar, esses são piores, sabe? É difícil quando é a gente quem fica e o nosso chão que vai. É como se dormir não fosse o bastante, porque toda aquela falta nunca vai embora. O que acontece é quase como vendar os olhos e fingir que assim tudo acabou, mas não, tudo ainda está no mesmo lugar, para gritar dentro da nossa cabeça bem nos dias mais difíceis.

Ontem era um dia assim. Desses ruins de viver. Mas não por ser ontem. O ontem dizia do que vinha hoje. E o hoje é bem pior. Harmada. Às 6 da manhã e o café, para tentar livrar desse sufoco. Do que eu nem sei como explicar. Sobre a cor, o som, a roupa que eu guardei, para você vestir quando acordar melhor.

Mas tem ficado tão frio. Os lábios racham. E eu não durmo. Acho que eu já sabia que seria assim, deixa eu me preocupar em contar antes que eu me perca outra vez. Os fones de ouvido tocavam baixinho, como eles fazem muito bem quando eu preciso. E é uma droga o quanto não dormir no ônibus faz a cabeça ficar uma droga.

Sobre vidros embaçados e partes que a gente junta de tudo que já passou por aqui.

Carlos e Cecília correndo entre os carros e eu morrendo de vontade de me juntar a eles. Só para não precisar estar aqui. Só para deixar a noite azul neon. Então eu faço o que qualquer pessoa coerente faria no meu lugar, viro para o outro lado e tento dormir. Ignorando o celular no bolso, apagando as luzes que tentam me impedir de fingir que estou dormindo.

Isso tudo é sobre os passos mais extensos do mundo e sobre aquele ano horrível que tivemos faz um tempo. Ela me disse que amar assim era um perigo, uma falta de cuidado da minha parte. Eu disse que perigo é esse cigarro que ela fuma, porque eu mesmo só quero ser feliz. Sem desculpas, sem deixar para depois.

Queria estar em outra cidade, queria te ligar quando eu acordar. É quase como se agente pudesse ser feliz quando bem entendesse. Só assim: quero ser feliz. E pronto. Já é. Mas não, ser feliz dói um tanto! Porque antes disso a gente precisa perceber que é triste e para isso a gente tem que concordar que tudo que tem agora é só uma distração. Que felicidade mesmo exige esforço. E prática.

Te escrevi uma carta, meu amor. Falando sobre o movimento que as estrelas fazem, que funciona como uma dança. Não é nada cientifico, você tem que acreditar mesmo para começar a ser de verdade. Acho que no fundo já estamos acostumados com coisas assim. Ninguém ouve a nossa voz, ninguém leva a gente para casa. Estamos sozinhos e já passou da hora de dormir.

Então começa tudo outra vez.
Estamos no último prédio em pé da avenida Dropsie. Minhas pernas estão tremendo. Eu nunca fui bom com essas coisas de altura. Mas agora eu só queria mesmo saber o que sentir, quando olhar você, quando olhar você.

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