A chuva aqui dentro

12mar14

(dois atores. ele e ela. palco vazio. ela entra, abre um guarda-chuva).

ATRIZ: gente, a peça foi cancelada, eu vou pedir para alguém acender todas as luzes e você podem ir embora. Desculpa, tá? Eu sinto muito mesmo… (as luzes se acendem) Pronto! Falem com o Danilo ali na saída, ele que escreveu e dirigiu e tudo mais e não vai ficar feliz, mas ele vai entender.

(o ator entra)

ATOR: espera aí! Você vai mesmo cancelar a peça?

ATRIZ: vou, eu te falei que ia fazer isso. E você duvidou… Então olha só, acabou a peça!

ATOR: não acabou, porque na verdade a gente nem chegou a começar.

ATRIZ: olha só, mais uma coisa que a gente consegue estragar antes mesmo de começar de verdade…

(eles ficam em silêncio, ela começa a sinalizar para o povo sair)

ATOR: não pede para eles irem embora!

ATRIZ: por que não?

ATOR: porque temos que fazer a peça!

ATRIZ: me convença.

ATOR: olha o tanto de gente que tem aqui, a gente não pode abandonar agora.

ATRIZ: esse é o seu motivo para me pedir para ficar? Não posso ir embora porque tem gente demais olhando? Você tem medo do que os outros vão pensar?

ATOR: não… Você me entendeu errado…

ATRIZ: então me explica!

(silêncio)

ATOR: por que esse guarda-chuva?

ATRIZ: tá chovendo.

ATOR: não tá chovendo.

ATRIZ: tá chovendo dentro de mim.

ATOR: para com isso…

ATRIZ: você quer fazer a peça?

ATOR: quero.

ATRIZ: tá bom.

(ela fecha o guarda-chuva)

ATRIZ: então, gente, podem sentar, vamos começar a peça em instantes, eu só vou lá atrás me arrumar e a gente já começa.. Alguém avisa o Danilo que ele não precisa dar chiliques por favor?

(ela sai. Ele fica, já está com a roupa da peça: terno e gravata)

ATOR: Por favor, me desculpem… A peça já vai começar e isso não vai se repetir, eu juro… Pode colocar a música por favor… (começa a tocar uma música clássica. Ele fecha os olhos e dança sozinho, por uns 2 minutos. A música para. Ele também. Olha ao redor, fica sem graça, pois era pra ela ter entrado). Droga, acho que ela ainda não ficou pronta. Eu vou chamar, por favor, a peça vai continuar, esperem só um pouco…

(ele sai. O palco fica vazio por uns minutos. Algumas pessoas da equipe técnica que estão como público na plateia se levantam e vão embora. A música recomeça. Ele entra e começa a dançar, logo depois ela entra também e dança com ele. Ele sorri muito. Ela segue séria)

ATOR: (a música abaixa) como é bom ver seus olhos de perto.

ATRIZ: dançar nos teus braços.

ATOR: amar cada centímetro do seu rosto.

ATRIZ: poder morrer nos teus lábios.

ATOR: e saber que sempre serei só seu.

(a atriz não responde)

ATOR: e ter a certeza absoluta de pertencer a você…

(ela não continua o texto)

ATOR: eu sou apenas seu…

ATRIZ: eu tenho outra pessoa.

(eles ainda estão dançando)

ATOR: isso não era o texto.

ATRIZ: não. É pior. É a vida real.

ATOR: então é de verdade?

ATRIZ: ahan.

ATOR: por que?

ATRIZ: não sei. Você ainda quer terminar a peça?

ATOR: o público ainda tá vendo…

ATRIZ: então vamos até o fim?

ATOR: já acabou.

ATRIZ: eu tô falando da peça.

ATOR: eu também. Olha para o público. Presta atenção.

ATRIZ: o que foi?

ATOR: eles percebem que está acabando. Esse é o clímax. Essa não é uma peça sobre um amor impossível, que faz emocionar mas que da certo no final. O amor aqui não vence.

ATRIZ: e o que vamos fazer?

ATOR: dançar até acabar. Se não o Danilo vai ficar extremamente puto.

ATRIZ: e depois?

 ATOR: a gente fecha as cortinas e acabou o espetáculo. Acabou nossa peça.

ATRIZ: eu pensei que seria pior. Que você ficaria puto.

ATOR: acho que vou ficar depois.

ATRIZ: tem algum arrependimento?

ATOR: acho que eu deveria ter feito o público rir mais. E você?

ATRIZ: acho que eu deveria ter feito você rir mais.

ATOR: a dança já vai acabar…

ATRIZ: e como a gente termina a peça?

ATOR: acenando para a plateia e abaixando a cortina.

ATRIZ: eu falo sério.

ATOR: eu também. Sorria. (ela sorri) Assim, isso, é assim que vai terminar.

ATRIZ: agora?

ATOR: merda, garota. (ele beija a testa dela e sai)

ATRIZ: o que acontece agora? O que fazemos depois? Eu perdi meu guarda-chuva. Acabou a peça, poder em ir embora, a nossa temporada já foi. A cortina já vai fechar e a gente errou o texto inteiro, o roteiro era outro e o diretor com certeza vai odiar a gente. Mas agora não muda mais nada. As luzes já começam a se acender e é só isso. Vai ser assim, a vida inteira, nos olhando e nos perguntando sobre tudo aquilo que poderíamos ter sido caso fossemos outras pessoas.
Eu entro em pânico, minha cabeça quer explodir e não passa um dia sequer sem que eu não pense em como a vida foi. E que droga, como eu queria que tudo fosse diferente, como eu queria ter achado outro caminho. Mas é bobagem eu me arrepender. É essa quem eu sou agora. E eu quero ser feliz.

(ela sorri. Acena para a plateia e a cortina abaixa).

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