Todos os dias, antes de eu levantar, Deus bota um dedo bem no meio do meu rabo e diz: já começou o dia fudido, faz algo a respeito

04dez13

É assim que eu me sinto quando acendo o terceiro cigarro. O sol nem nasceu e eu já tô pedindo pro dia acabar depressa! Tem sido assim, levantar pra trabalhar, pegar 1 ônibus, encher a cabeça com informações de tanta gente chata que só querem contar os seus problemas e olha pra gente esperando alguma solução instantânea e quando eu não sei o que dizer, entortam os lábios e buscam uma vítima mais culta, minha burrice é contagiante, por favor, como se eu não tivesse mais nada pra fazer. Eles dizem, eles falam, cospem suas ideias, pegam o meu dinheiro e esfregam por seus corpos, porque adoram o cheiro. E quando volto pra casa não tenho paz. Não existe alegria no final de mais um dia fudido. Existe o cheiro forte do cigarro barato e o reflexo do meu rosto na privada.

Tem uma garota bonita no meu prédio, gosto de sentar na calçada e observar ela chegando no último ônibus. A camisa do Habib’s se deixando mostrar por debaixo da jaqueta jeans. Nunca conversamos, não sei o seu nome. Mas ela quer ser atriz, o livro do Stanislavski está na mão direita, ela ainda marca a página com o dedo, provavelmente começou algum capitulo e agora quer terminar antes de dormir.
Ela quer ser atriz.
Veio pra cá como todo mundo vem, com todos os sonhos e planos embalados numa sacola bonita e colorida. Mas 1 ano nessa cidade te faz amargurar tanto que você se confunde com os ratos da rua. Ela quer ser atriz, é irônico pra cacete o quanto o papel mais importante da vida dela até agora é sobreviver sem deixar o sonho acabar. Ela entra no prédio  e eu apago o cigarro no meu sapato, faz uma queimadura superficial, nada que nos impeça de seguir andando mesmo assim.

– Outra vez atrasado, garoto.
– Fique feliz por eu ter vindo.
Ele trabalha comigo e pensa que é meu chefe. A única coisa que ele faz é coçar aquele saco nojento o dia todo. Aonde quer que vá, pode ter certeza de que uma das mãos vai estar dentro da calça, acho que nunca vi as duas mãos dele ao mesmo tempo.

Me sinto doente.
Dias ruins acontecem de maneira esmagadora. É como aquele negócio de colocar as cartas de baralho em pé e empurrar a primeira pra tudo cair depois. Eu acho que já estou velho, meu rosto no espelho tá cheio de barba e eu ainda não ganho nem mais de mil reais por mês. Boa parte das pessoas que eu conheço chamariam isso de fracasso. E quando as cartas do baralho começam a cair uma atrás da outra, é muito difícil aprender a dizer qualquer outra palavra além dessa. Não existem poemas, filmes ou músicas. Existe a sua cabeça tentando não enlouquecer, é só outro dia com tons cinzas aonde a vida não é nada daquilo que disseram que seria. E eu não quero voltar pra casa.

Ela chega no mesmo ônibus, o relógio já marca 23h37. Ela parece cansada. Não sorri, quase nem respira, mas às vezes, parece ter tanta força. É engraçado o quanto as garotas são frágeis e tão fortes ao mesmo tempo, eu quero cuidar dela. Mas minha voz já treme e percebo o quanto sempre fui um caso perdido. O quanto faço um estrago na vida das pessoas que tento me aproximar…

Mas ela olha pro lado e me vê, como que sabendo da minha confusão, ela sorri.

– Meu Deus, eu só quero me apaixonar…

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