Deixa queimar

19ago13

…Outra noite acordada. Fingindo dormir enquanto você se levanta pra ir embora. Ouço seus passos cuidadosos no meu carpete, sinto nos meus olhos fechados a luz fraca do seu celular tentando achar o trinco da minha porta. Daqui eu consigo ouvir seu celular vibrar e quase consigo ver o nome dela escrito e aquele seu sorriso convencido de que essa foi mais uma noite bem sucedida no seu circo de merda! Aonde eu sou só mais uma palhaça, e o pior, nem sou sua palhaça favorita. 
‘É a última vez’ eu repito pra mim mesma, a última vez. Sem mais lágrimas, sabe? Pelo menos dessa vez, pelo menos hoje, eu queria conseguir levantar e te destruir, te quebrar em pedacinhos, dizer que já sei de tudo, que já entendi tudo, que você pode pegar todo esse amor que diz que é só meu, e enfiar no teu rabo! Ou você pode embrulhar, todo ele, bem bonitinho e deixar na minha porta quando sair…

Você encosta a porta e eu respiro. Ligo o chuveiro e me deixo morrer, mas me sinto tão suja! Eu tiro pedaços do sabonete com a minha boca pra ver se pelo menos assim toda essa raiva dentro de mim vai embora. Mas não é a raiva, a raiva não dói, pelo contrário, a raiva me mantém. É o amor. O amor que me joga no chão, que me faz querer nunca mais levantar da cama pra viver outro dia de merda. 
Eu sempre me convenço que não vai mais ser assim. 
Hoje mesmo, acordei, coloquei uma rouba bonita, meu cabelo estava num ótimo dia! Coloquei aquela camisa rosa que minha mãe me deu na semana passada e fui tomar um café-da-manhã ali na rua de baixo. Terminei de ler o Bubble Gum e então você me ligou. Foi mais ou menos assim que eu percebi aquilo de nossas vidas ter a profundidade de um pires. 
Sua voz me chamando de bobona, eu percebendo que sou mesmo e que já estou rendida, não deixei o celular tocar nem 3 vezes e já estava em sua mãos outra vez. Disse que queria me ver, eu respondi que não. Você diz que me ama e meu castelo cai. Eu peço ajuda, eu grito por socorro, eu preciso de ar, eu preciso mesmo é que alguém me ajude, que alguém me tire daqui.
Eu me olho no espelho. 
Eu não sou bonita o suficiente? Minhas piadas não são tão boas? Eu choro demais? Por favor, me fala quem eu devo ser, me aponta o que fazer. Ou some, só isso, eu vou sentir sua falta pra caralho, mas some logo daqui. 

Me enrolo na toalha e ando pela casa. Não, já não posso mais dormir.
A vida na noite respira solidão. O vizinho de cima tá ouvindo jazz, o som do saxofone toma conta de toda minha sala e assim eu acho bom. Olho pela janela e a cidade grita.
Nesse mesmo instante um caminhão dos bombeiros passa correndo pela  avenida e no outro quarteirão eu vejo o fogo saindo por uma das janelas e eu não consigo deixar de sorrir. 
Queria ter coragem o bastante pra atear fogo em tudo que tiver qualquer vestígio seu, eu fecho os olhos e começo a rezar, pelo dono daquele apartamento, seja lá quem for, rezo pra que seu coração tenha paz, porque eu sei exatamente como é estar à beira da loucura. 
Eu começo a chorar. 
Como será morrer sozinho? Será que ele teve medo? Então eu grito, igual louca, grito. Até minha garganta não funcionar mais, grito e dou murros no vidro da janela, me deixo cair no chão. E então acaba.
O jazz continua tocando no vizinho, eu ouço barulhos pelo corredor, mas ninguém diz nada. Ninguém se importa, você pode enlouquecer e eles vão esperar o dia seguinte pra contar aos jornais que você foi só mais uma que desistiu. Só mais uma. No fim, a sua vida só faz parte das estatísticas. 
E lá no outro prédio o fogo apaga. 
E aqui, dentro de mim, você apaga.
A gente aprende nos livros de poesia que devemos deixar o amor de nossa vida ir embora, e que se for pra ser nosso, quando a hora chegar, ele vai voltar. Mas eu não quero mais, meu amor. 
Só quero te dizer que eu vou te deixar ir embora, e quando a hora chegar e você me procurar pra vivermos o nosso amor e toda a nossa vida de paixão que está prometida… eu não vou mais estar lá de braços abertos pra ter receber, eu não duvido de forma alguma que você seja o amor da minha vida, mas agora eu preciso ir. 
Reza muito, reza muito bem pra que eu não encontre ninguém que me faça sorrir enquanto você fica nessa de ‘preciso tentar outras coisas pra ser feliz’. Porque se eu não sou mesmo a sua felicidade, eu não sei mais o que você faz aqui. 
Como que por teste meu celular começa a tocar e eu vejo a sua carteira em cima da minha cama. Seguro ela com minhas mãos e jogo pela janela. 
No outro prédio as pessoas parecem maravilhadas com alguém que tenha se matado tão perto delas.
E eu não quero mais te ver. 

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