Queimando

19jul13

Lembro do meu pai acendendo um cigarro, e soltando a fumaça devagar. Me encarou logo depois e com aquela voz rouca ele disse: 
– Garoto, você tá fudido.

Um disco do Caetano enche de cores suaves cada canto da sala. Já passou das 2 da manhã e todo mundo sabe que se alguma coisa ainda dói, depois das 2 a vida só fica pior. Então eu acendi um cigarro pra lembrar do meu pai. E deitei nu, no meio da sala, com todas as roupas dela queimando numa pilha na cozinha. Era uma bela de uma fogueira. A fumaça já estava saindo pela janela e acho que não levaria tempo pra algum bombeiro chegar. Ou pra fumaça me matar e o fogo tomar conta do apartamento. Fiz apostas comigo mesmo de qual aconteceria primeiro. 
O disco do Caetano era dela. Foi um segundo de saudade que sobrou dentro da minha cabeça. Um pouquinho do que me faz chorar enquanto eu quebrava todos os quadros e rasgava as fotos, ela tinha uma coleção linda de porcelana que ficou ótima em pedaços no meio da rua 9 andares para baixo. 
Fome. 
Levantei e fui pegar um pedaço de pizza que ainda tinha na geladeira. As roupas queimavam devagar demais. Joguei mais umas fotos e só pra ter certeza, joguei todos os livros também. O fogo ardia.

Estávamos bem. 
Ela me deu um livro no começo da semana. ‘Romeu e Julieta’, nada original. Mas são dois jovens que se apaixonam e lutam em esforços extremos pra fazer o amor vencer. Era um sinal. Passei a madrugada lendo e no outro dia disse que também a amava. Que tinha entendido o final, que morreríamos juntos se preciso. 
Só tem um problema, ela me disse. Isso não é uma droga de sinal porra nenhuma. Eu só gosto do livro. E me sinto melhor com alguém menos imbecil do que você.
Assim começou a fogueira.
Não essa fogueira de roupas, a fogueira na minha cabeça. Meu coração queimando e deixando cinzas. E Romeu e Julieta, página a página deixando de existir. Essa é a melhor metáfora sobre o amor! É um livro lindo que no final não quer dizer nada. A única coisa boa, é que quanto mais páginas ele tiver, mais coisas você tem pra queimar.
Outro cigarro. Não, eu não fumo. Mas eu quase vejo meu pai andando pela casa e fazendo aquela mesma cara de reprovação que eu aprendi a amar. 
Mas foi bom, desde pequeno aprendi a me apegar à ações bruscas. Não vivo de amor. Me sinto mais familiarizado com um tapa na cara do que com um beijo no rosto. Quando dói eu sei como agir. Eu sei como fazer a casa pegar fogo. Mas quando era bom, eu entrava em pânico. 
Pânico. Entre uma dentada e outra na pizza eu me pego imaginando a cara dela quando vier amanhã cedo buscar suas coisas. O namorado bonitão esperando no carro, as roupas limpas, o cheiro de perfume e de bons modos. Aquele ar de quem tem uma vida imaculada e o único pecado é acordar de ressaca quando a mamãe permite. 
Eu tenho nojo, eu tenho cortes no meu corpo. 
Eu tenho o Caetano cantando no meu rabo. 
Ninguém torce por mim. Eu sou a parte suja da história. Sou o pesadelo da garota, aquele doido que se fode e termina sozinho e você olha pra televisão e pensa: muito merecido. Pensei diferente, mas não sou o personagem principal da história dela. Sou o erro que ela quer apagar. Eu não sou como ele, que é tão perfeito.
Eu sou o fogo.
Vou dar uma mijada, me vejo no espelho. Quando me tornei isso? Quando essa barba virou meu rosto e esses cabelos tomaram minha cabeça? Desde quando meus olhos são tão fundos e tristes e meu rosto é tão magro? Minha testa faz o espelho virar pedaços e eu sangro. Sinto o que sobra da minha vida. Arde, mas eu passo o sangue por todo o meu corpo, eu me reviro pelo chão e uivo como um animal abatido. O fogo começa a sair da cozinha e o Caetano esconde o rosto pra não me enxergar.
Das horas que me perdi, guardo só aquelas de mais plena solidão. Aonde pude me encontrar e perceber que de verdade, eu sou esse de agora. Não sou os personagens que me cabiam. Eu amo quem eu sou quando estava com ela, mas não é a minha verdade. Só somos nós mesmos quando estamos nadando na merda. Não existem mentiras na merda. Existem narizes tampados e a reza. É na merda que Deus aparece.
Eu perdi minha cabeça. O apartamento tá quente, o chão é frio, meu sangue é frio. Minhas lágrimas são quentes.

– Por que você não morre?
– Porque eu sei que isso te deixaria muito feliz!
Eu levei a sério seu último pedido. Já que eu sempre fiz tudo de errado, já que eu nunca fiz nada como ela queria. Essa era minha redenção. Tentar acertar uma última vez.
– Você tá muito errado ao meu respeito…
Ela chorava.
E eu também.

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One Response to “Queimando”

  1. Faz tempo que eu não lia algo tão bom!


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