MARS ONE

23abr13

http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Visao/noticia/2013/04/empresa-holandesa-quer-levar-quatro-pessoas-ate-marte-e-deixa-las-por-la.html – o post de hoje foi inspirado nessa reportagem. Eu não consegui deixar de pensar em um bilhão de coisas logo depois que eu li, e precisava mesmo escrever algo sobre isso.

O cara na minha frente acendeu outro cigarro, me estudava. Soltou a fumaça devagar, escreveu umas coisas, atendeu 3 ligações e fez outras 2. Tudo isso durante uns 4 cigarros e sem me dizer uma palavra. Então perguntou:

– Você tem certeza disso?

– Claro.

– Que merda. Porra. Você tem mesmo certeza que quer essa merda?

– Eu tenho.

– Você nunca mais vai ver seus amiguinhos, nem sua namorada, nem porra nenhuma aqui na Terra. A vida vai ser complicada.

– Eu quero ir.

– Me convença.

Então eu convenci. Não precisei dizer mentiras, não precisei inventar nada. O que eu contei foi minha vida. Falei que eu tinha 23 anos e já não tinha mais expectativa nenhuma de vida. Quando você tem 23 anos e se convence que viver é uma perda de tempo, as coisas estão realmente feias pro seu lado.
Falei do meu pai que bebia e se achava velho demais pra viver e da minha mãe que tinha certeza que a vida dela não terminaria assim e por isso foi embora. Falei que foi assim que eu larguei a escola. E que foi ao menos nessa época que ela apareceu e me trouxe um pouco de paz. Ele sorriu, disse que eu tinha uma garota, que eu ia ficar maluco no espaço. 
Aí eu falei que ela foi embora logo depois. Que eu estraguei tudo, como sempre estrago. Que ela achou alguém que não mente tanto pra ela, ou que pelo menos sabe mentir melhor. Então eu falei do meu trabalho, que passar o dia empilhando caixas me fazia querer morrer, e eu nem sabia o que tinha dentro. Eu só colocava uma em cima da outra, cada vez mais rápido, sem conversar, sem falar, sem pensar. 
Ele disse que eu precisava ser durão, eu falei de quando meu pai morreu. Das contas que ele deixou, das dividas, das noites sem dormir. Aliás, eu ainda não sei o que é dormir. Falei de todo tempo que fico sozinho, da rotina de apenas sobreviver. Ele perguntou o nome dela. Melissa. Mel. Ele acendeu o quinto cigarro e perguntou:

– Você sabe que nunca mais vai ver ela?

– Sei.

Na verdade, ela que me disse um dia que só queria me ver longe um pouco. E fui pra longe, pra cada vez mais longe. Acho que tava esperando ela me pedir pra voltar. Como ela não pediu, eu continuei indo… Como se nem fosse doer. 
E esse longe virou outra cidade, que virou outro estado, que virou Argentina, que virou Europa. E eu não conseguia entender como ela podia me seguir até do outro lado do mundo. Pra onde quer que eu olhasse, pra onde quer que a vida me levasse, ao fechar os olhos eu me deparava com aquele sorriso que ela fazia ao me ver. Acho que enlouqueci.
Ou era só amor mesmo.
O homem apagou o sétimo cigarro e me estendeu a mão. Falou que eu era o primeiro escolhido. Eu agradeci e fui embora. Me sentindo um pouco cansado e acho que um pouco infeliz também. Marte. Se eu não fiquei louco, agora com certeza eu vou ficar. Ia levar um tempo ainda, me imaginei daqui uns anos, me despedindo do povo do bar, mijando na mesa do merda do meu chefe. Aparecendo nos jornais. Como um mártir. Era o mesmo que uma missão suicida. Eu não iria voltar com vida. Eu não iria voltar. É Melissa, eu não iria mais te ver.
Imaginei o rosto dela quando me visse no jornal. Será que lembraria? Será que ainda lembra? Acho que não, ela sempre seguiu a vida dela muito bem sem mim. Eu sou estrago na verdade, um pedaço sujo, um desperdício de espaço. Sempre estragando a melhor parte da festa. 
Bom, é isso. Minha sentença. Me imaginei em marte, cavando na areia vermelha, tendo insônia, gritando pro vazio. Matando todos os meus amigos. Pelo menos vou ficar longe e agora espero que seja longe o bastante. Mas eu não duvido, claro que não, que no primeiro dia eu vá escrever ‘Melissa’ na areia. Para os cientistas poderem ver com o telescópio e pra ficar atestado, pra ela nunca mais duvidar, que todo tempo, desde o começo, não esqueci de nada, não deixei de amar em nenhum segundo. E dai eles vão saber aquilo tudo que eu já sei faz tempo, e toda forma de vida do universo vai saber e todos vão dizer, avisem por ai, gritem por ai… o quanto ela é infinita.

Anúncios


No Responses Yet to “MARS ONE”

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: