barreiras inexoráveis

12abr13

Ele tinha uma flor entre os dedos magrelos. Uma flor pequena, e roxa, mas que tinha um sabor a mais, pois era uma flor roubada. E só rouba flores que tem a intenção de roubar um coração. E era exatamente isso que ele queria fazer. Tudo muito bem planejadinho e escrito, porque as coisas são assim. Pelo menos pra ele, só existia o que tava escrito, só existia o que se tinha provas.
Seu plano só ficou concreto e real, à partir do momento que colocou todo ele em palavras. Se a gente não fala, não existe. As pessoas já deviam ter aprendido isso. Pois existe um planeta, em algum lugar, que é pra onde vão todas as frases que não foram ditas. E o que mais existe por lá são possibilidades de ‘eu te amo’ que morreram no fundo da garganta. É um planeta magnifico. 
E é nisso que ele pensava. Em todas essas coisas não ditas que existem entre as pessoas. E é por isso que tinha uma flor agora entre teus dedos magrelos.
Porque ela apareceu faz uns dois meses, garota nova na escola, de cabelos tão escuros quanto a própria noite e ele brincava de ficar olhando de longe, de se perder naqueles cabelos, como um astronauta que sonha em alcançar as estrelas. E na primeira vez que olhou ela nos olhos de verdade, ficou maravilhado, porque não era possível, ela tinha todas as estrelas do mundo num simples olhar. Ela era uma constelação completa.
Obviamente que agora se sentia um bobo, um idiota na verdade, porque a gente não entrega flores para constelações. A gente admira de longe. Olha pro céu no meio da noite e faz planos de como a vida seria incrível se aquelas estrelas estivessem ao alcance dos nossos dedos. 
Foi de surpresa tamanha quando ela cruzou teu caminho. Quando ela disse algo legal sobre sua camiseta. Ele sabia agora, na verdade sempre soube só não gostava de admitir, que ela sempre teve todo o controle. Que ela traçou um plano, talvez tenha escrito também pra tornar mais real e seguiu com determinação impecável, sem errar nenhum dia. Hoje falar com ele. Amanhã não. Depois de amanhã esquecer minha blusa na cadeira dele e na quinta perguntar sobre o livro que ele está lendo. Pra na sexta não dizer nada de novo. Foi assim. Um plano cuidadosamente bolado pra fazer ele se apaixonar.
Pra trazer ele pra esse momento de agora, em que ele tem uma flor entre os dedos magrelos. E na cabeça tem adrenalina o suficiente pra nunca precisar saltar de para-quedas na vida, porque ele não sabe como funciona, já decorou poesias e assistiu todos os filmes indicados, mas amor não se aprende assim. Você pode aprender a trocar um encanamento, a tocar piano, ou a fazer um nó de marinheiro. Mas amor, meu amigo, você só aprende amando. 
E é nisso que ele tentava não pensar, enquanto assistia ela saindo da escola, com a bolsa nos ombros e um sorriso meio cansado. Ele não podia admitir que era amor, nem pensar! O amor machuca a gente, o amor dói! E claro que é bem preferível manter uma distância confortável. 
Mas ela tinha derrubado todas as barreiras, uma por uma. Ela venceu todas as batalhas e no último segundo declarou empate. Mas não é amor, ele dizia, é só uma vontade absurda de estar perto dela, de cuidar, de proteger, de querer morrer toda vez que ela chora por culpa dele. Não é amor. É só um querer tão bem e de forma tão intensa, que se ela dissesse que ficaria mais feliz longe dele, ele sumiria sem exitar. 
Não é amor.
Não é amor.
Não é amor.
Não é…
Não…
É.
É, amor.
É, ele ta perdidamente apaixonado.
E só por isso que ele tem uma flor entre os dedos magrelos. Uma flor roubada. Ele é um ladrão. Um vagabundo, que merece prisão perpétua, pois cometeu o crime mais hediondo que se possa imaginar! Ele roubou uma flor, pra ganhar o coração de uma garota. É inaceitável! Como ele ousa imaginar que vá fazer ela tão feliz? Garotas são tão imprevisíveis. 
Tão imprevisível quanto imaginar que ela fosse sorrir. E balbuciou que não sabia o que dizer. E ele disse que não tinha problema. Ele disse:  eu gosto pra cacete de você. E ela entendeu que isso talvez fosse amor. E ele foi embora. Declarando assim que as coisas teriam vida própria e que hoje poderia ser ótimo e que amanhã poderia ser ruim, não tem problema. E que ele podia sempre querer ir embora, mas não queria deixar dúvidas do quanto gostava dela pra cacete. E que talvez fosse amor. E que todo dia iria querer voltar e puxar ela pra perto. Mais perto, só um pouquinho…

Ela tinha uma flor entre os dedos magrelos. Uma flor pequena, e roxa, mas que tinha um sabor a mais, pois era uma flor roubada. E só rouba flores que tem a intenção de roubar um coração. E ela sorriu ao pensar que isso era uma bobagem, ele não precisava tentar roubar nada, pois o coração dela, já era todo dele. Mas, às vezes, as coisas são um pouco mais complicadas que isso. E talvez fosse melhor ela esperar descomplicar um pouco…

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