a guerra

01abr13

[o palco é um campo de guerra. Com uma linha divisória no meio. De um lado estaria o reino dos Bules de Chá. Aonde todos os moradores são bules de chá. Do outro lado estaria o reino dos Dentistas. Falando desse jeito eu penso que o palco poderia ser um ringue de boxe. Ficaria legal alguns personagens com luvas. Entre os personagens temos o Rei Bulesco de Chá. E a sua doce e amada princesa. O mais jovem dentista. E o narrador que por algum motivo é um coelho]

ato 1 – siso 

(imaginei que em cada ato podia entrar aquelas moças que levantam plaquinhas no rounds  das lutas)

(entra o coelho)

COELHO: a história que vou contar essa noite não é uma história nada feliz! Aconselho desde agora, se procuram por algo alegre, podem levantar de suas cadeiras e nos deixar de uma vez. Nem precisam olhar pra trás (podia ter algum assistente de palco na platéia, pra ele levantar mesmo e ir embora, ia ser genial)… Mais alguém? É a última chance.
Bom, como já escreveu Shakespeare em Macbeth: ‘a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum’. E é exatamente sobre isso que vamos falar essa noite. É uma história de som, fúria e um pouco além do que Shakespeare imaginava… É uma história de amor. Sim, meu respeitável público, amor! Aquele sentimento nobre que arrebata nossos corações quando algum ser tão complicado vem pra nossa vida e descomplica a gente. Tira todos os nossos pedacinhos e deixa a gente completamente desprotegido…
Mas, antes de entrar nesses detalhes vou explicar o resto da história…
Num lugar não muito distante daqui, existe um reino magnifico, com rios enormes feitos de chá de hortelã, com cachoeiras de leite e mares de café. É o reino dos Bules de Chá (nessa hora o coelho fica bem no meio do palco, na divisa. E de um lado entra o Rei Bulesco com alguns súditos). Vizinho deste reino, existe um outro reino, todo bonito e branco, sem doces e sem cáries. É o reino dos Dentistas (entram, do outro lado, uns 3 dentistas. Entre eles o chefe dos dentistas que podia ter uma coroa). Não existiria história alguma para eu contar se 2 vizinhos tão distintos conseguissem se respeitar. Mas as coisas não são tão simples assim, pois ninguém lembra o motivo, mas os dois reinos estão em guerra! (o coelho pega um daqueles microfones de narrador de boxe e começa a narrar) Desse meu lado direito, pesando pouco mais de 100 gramas, usando luvas vermelhas! Espera, bule usa luva? Dane-se. Usando luva vermelha! O Rei, o sensacional, o incrível, o brilhante… Rei Bulesco de Chá! (não vou explicar que era pro rei estar de luvas e realmente se preparando pra uma luta, agora ele levanta e começa a dar murros no ar) Do meu outro lado… Pesando 80 quilos. E cobrando 200 reais por canal. Ele, o homem que faz prótese como ninguém… o Dentista! (mesma coisa do Bulesco, o Dentista se levanta e começa a se preparar pra luta. Quando os dois vão começar a se bater, congela a cena) Eu queria muito dizer que tudo se resolveu numa luta de boxe. Que o vencedor faria festas e escreveria os livros de história. Mas não foi assim. Como lhes disse no começo… Essa é uma história cheia de som, fúria e amor… E ao invés de resolver apenas os dois… O Rei Bulesco deu um grito…

REI BULESCO: AGORA É GUERRA! (e todos correm para o seu lado do palco) QUERO TODOS OS MEUS HOMENS AQUI PRESENTES. AGORA! (entram mais bules de chá). Vamos fazer estratégias… (e todos se amontoam para conversar).

DENTISTA: Pois perder a guerra para um bule de chá é que eu não vou! Venham todos os dentistas do reino… Todos! (entram mais dentistas e também começam a fazer planos).

(entra correndo o Jovem Dentista, todo atrasado. E tromba com os dentistas, fazendo todos eles irem ao chão)

ALGUM BULE DE CHÁ: Olha só! Não conseguem nem parar em pé! Vai ser muito fácil vencer esses panacas!

DENTISTA: Ora essa, garoto, saia já da minha frente!

JOVEM DENTISTA: mas eu quero estar na guerra!

DENTISTA: você não quer nada, suma daqui agora!

(o Jovem Dentista começa a andar pelo palco, só passeando triste e senta-se na beirada perto da linha inimiga)

COELHO: o desprezo que os mais velhos sentiam pelo jovem garoto, era compensado por toda sua beleza, que por ser tão ímpar, arrebatava os corações de todas as dentistas do reino. (algumas garotas saem do monte de dentistas e ficam observando ele, apaixonadas). Mas a vida brinca com a gente. Pois bem nesse momento, uma garota do reino dos Bules, cansada de tanta conversa e de tanta maldade, resolve sair pra andar, indo se sentar, bem ao lado da linha inimiga.

ato 2 – café


(o coelho sai, as conversas no fundo silenciam e viram sussurros)

PRINCESA: quem é você? O que faz ai sentado do outro lado da fronteira?

JOVEM: nada, apenas pensando… E você?

PRINCESA: cansei de guerra. Queria estar longe de tudo isso.

JOVEM: e eu queria estar participando…

PRINCESA: como?

JOVEM: não me deixam lutar. Dizem que sou muito jovem.

PRINCESA: pois você devia é ficar feliz. Eu nem consigo mais dormir.

JOVEM: é só uma guerra… o que é um pouco de sangue?

PRINCESA: um pouco de sangue pra você. Pra mim são milhões de pedacinhos, é juntar cada estilhaço de cada querido meu. Eu não sangro. Eu quebro. E depois não sei como faço pra me juntar…

JOVEM: e você pensa que eu também não sou assim?

REI: GUERRAAAAA! (a princesa e o jovem dão as mãos e correm pro meio do público, para ficar fora da guerra. Enquanto os bules de chá jogam pipoca. E os dentistas atiram bolhas de sabão. Um de cada lado é atingido e morto. Então um dos dentistas ergue a bandeira branca)

ALGUM DENTISTA: proponho paz! Para cada um velar e dar um enterro digno ao seu morto.

(todos saem em silêncio, cada um levando seu defunto).

PRINCESA: (da platéia) que horrível!

JOVEM: (abraçando ela) eu não sei o que dizer. Eu não queria que fosse assim.

PRINCESA: eu nem lembro como essa guerra horrível começou…

JOVEM: me contaram uma vez.. que foi porque vocês nunca usaram os nossos serviços, que com certeza usavam dentistas de outros reinos.

PRINCESA: deixa de bobagem, nós nem temos dentes!

JOVEM: não?

PRINCESA: aonde já se viu bule com dente?

JOVEM: tem algo errado ai…

PRINCESA: (eles vão voltando pro palco, pouco a pouco) já eu ouvi que foi porque vocês sempre se negaram a nos usar… e tomam café em copos de vidro…

JOVEM: como assim? Nós nem tomamos café! Deixa os dentes com uma cor horrível!

PRINCESA: sério?

JOVEM: ahan…

PRINCESA: você também tá percebendo que tudo isso é uma bobagem?

JOVEM: sim…

(já chegaram na base do palco)

PRINCESA: temos que fazer alguma coisa… Temos que fazer uma revolução! (sobe no palco, luz só nela e o dentista fica embaixo boquiaberto) Tudo que vivemos até agora foi uma enganação, essa guerra não existe! É pura bobagem! Podemos ser um só reino, maior e mais feliz! O que você acha?

JOVEM: eu acho que to apaixonado…

PRINCESA: o que?

JOVEM: NADA! nada… bobagem minha… Mas eu gosto de ficar te olhando…

PRINCESA: temos coisas mais importantes agora…

JOVEM: eu sei que temos. Eu sei que precisamos terminar com a guerra… Mas eu acho que preciso te falar uma coisa…

PRINCESA: o que?

JOVEM: você acredita que uma pessoa pode gostar da outra sem nem mesmo saber o nome dela?

PRINCESA: deixe disso! Pare de falar! Não é hora… Você não percebe?

JOVEM: percebo o que?

PRINCESA: somos inimigos… Sou filha do rei. E você é um jovem e promissor dentista… Não vai dar certo. SOMOS INIMIGOS!

JOVEM: é só assim que você me vê? Como um inimigo?

PRINCESA: eu nem te conhecia a pouco tempo atrás… Como acha que já posso estar morrendo de amores por você? Para de ser idiota. temos uma guerra pra parar!

JOVEM: tudo bem… Me desculpa… Eu preciso mesmo ir embora…

(ele sobe no palco e senta-se no fundo)

PRINCESA: toda essa guerra é um erro! E ele só pensa em bobagens. Um idiota que só pensa no próprio nariz. No próprio e bonito nariz… Que fica ainda mais bonito quando ele sorri. Ai que droga…

(princesa corre atrás dele. Mas percebe que todas as dentistas já estão por perto e falando com ele. a princesa se esconde, pra ouvir um pouquinho)

JOVEM: …então é isso garotas. Amo vocês. Não esqueçam nunca disso. 

(elas saem e a princesa corre se sentar mais longe)

PRINCESA: oii. você voltou…

JOVEM: voltei…

PRINCESA: Aonde foi?

JOVEM: sentei ali, pensar um pouco…

PRINCESA: com as suas namoradas?

JOVEM: oi?

PRINCESA: nada…

JOVEM: você tá estranha

PRINCESA: não muda nada pra você, como eu tô ou não. Você tem mais aquele monte de garota pra se preocupar…

JOVEM: como assim?

PRINCESA: é esse meu problema, sabia? Já to aqui de novo, inteira em pedacinhos. Por um idiota que quase nem sei o nome!

JOVEM: não…

PRINCESA: eu vi você com as garotas.

JOVEM: eram só amigas…

PRINCESA: mesmo?

JOVEM: talvez uma delas não… 

PRINCESA: corre pra ela. Eu quero guerra.

JOVEM: espera…

PRINCESA: o que foi?

JOVEM: eu não tenho nada com ela.. Não daria certo.

PRINCESA: entendi. Vou ter o prazer de te matar.


ato 3 – dente de leite

(os dois saem. entra o coelho)

COELHO: vem tempestade por ai, a guerra se intensificou! Parece que a donzela do bule de chá, resolveu que ter alguns mortos seria uma boa pedida. E agora mais do que nunca, as coisas vão esquentar! 

(entra o Rei Bulesco)

REI: convoco o rei dos dentistas, para uma tentativa de acordo!

(entra o dentista)

DENTISTA: aqui estou.

REI: quer tentar algum acordo, ou já posso começar a matar seus homens?

DENTISTA: vocês não passam de dentes podres!

REI: que assim seja. PELOTÃO… SENTIDO!

(entram todos os bules, a princesa no meio, e fazem uma fila).

REI: muito bem, estamos prontos. Os melhores homens pra guerra! 

DENTISTA: é o que você pensa… Não preciso de gritos. Eles sabem a hora certa de vir, como um estalar de dedos. (ele estala os dedos e todos os dentistas entram. o Jovem não está no meio). É HORA DA GUERRA! 

(o coelho pula pra fora do palco e abre um guarda-chuva, enquanto, lá no palco, os bules de chá atiram confetes de papel e os dentistas usam galinhas de borracha).

JOVEM: CHEGAAAAA! (ele entra vestido de bule de chá) PAREM JÁ COM ESSA GUERRA! SOMOS TODOS IGUAIS! (todos param, olham pra ele e começam a rir, menos a princesa) Vocês nem lembram mais o motivo de tanta luta… Já é hora de parar. 

REI: deixe de ser burro garoto! (e atira confetes no Jovem que não consegue desviar e cai no chão ferido, a Princesa corre ao encontro dele) 

PRINCESA: o que você foi fazer? 

JOVEM: eu só queria consertar. Eu só queria que você me ouvisse…

PRINCESA: to aqui, to ouvindo…

JOVEM: eu queria ter falado a verdade. Ter te contado que eu tava tão desorientado por perceber que já te amava. E tinha medo que você não me amasse de volta. Que me achasse imbecil…

PRINCESA: você devia ter falado. Devia mesmo!

JOVEM: mas não consegui. Tive medo que se eu falasse, a guerra estaria declarada, mas seria só o teu país contra o meu. Dizer que te amo, seria o fim de nosso tratado de paz. Dizer que só tenho você em minha cabeça, não seria mentira alguma… Não existiriam bandeiras brancas, só nós dois. Ficando em pedacinhos… E olha só como acabei…

PRINCESA: não acabou… Para! 

JOVEM: eu não quero mais guerra alguma contra você. Soltei todas as minhas armas…

PRINCESA: e eu só quero te abraçar.

(fecha cortina)

COELHO: e assim termina, nosso terceiro e último ato. Resolvi que terminaria de contar tudo por aqui. O que acontece agora, cabe a cada um de vocês decidir… Se a guerra continuou cega e inconsequente ou se todos os problemas foram resolvidos e todas as coisas foram ditas… 
Eu não sei. Sou só o narrador. 
A vida é mesmo tão cheia de som e fúria que a gente esquece de parar pra respirar… A gente esquece de aproveitar, ficamos tão preocupados em tentar ser alguém que esquecemos de ser nós mesmos. Ficamos tão preocupados com as coisas que já aconteceram, que esquecemos do que está por vir… E eu digo, te dou certeza, o que tá vindo é incrível. Eu sei disso.
O tempo corre como um coelho. E o que é agora, logo já não é mais. O que não te deixa dormir, amanhã já não tem importância alguma… O que fica são nossos amores, são as vezes que a gente se deixou sorrir, sem nem se preocupar. 
As coisas são muito rápidas pra a gente perder tempo olhando pela janela. A viagem é muito mais interessante quando a gente para de olhar pra fora e tenta perceber o que tem aqui dentro… Algumas das coisas mais tristes que acontecem em nossas vidas, aconteceram porque complicamos demais… 
Fizemos guerras dentro da gente. Fazemos guerras com nossos amores, com nossas coisas não ditas… 
Não deixem o tempo alcançar vocês. Se eu que sou um coelho já ando tão velhinho e tão cheio de marcas…
Bom, a noite de hoje acabou, façam algo com a vida de vocês. Caiam fora daqui e façam a vida valer a pena. E é só isso mesmo.

(ele acende um cigarro e sai)

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