o rock é inglês, mas o perfume da garota era francês

16out12

já fazia 15 minutos que eu estava ali. era meu terceiro copo, meu segundo cigarro. acho que eu estava numa boa média se for analisar mesmo. conheço caras que conseguem me superar numa boa. e eu não pretendia ir muito além disso.
era uma daquelas misturas entre boteco barato e danceteria. ou, pelo menos tinha a pior parte dos dois: bêbados caindo por todos os lados e garotas que se acham mulheres na pista de dança.
do meu lado tinha um barbudo, que eu tive o carinho e a atenção de apelidar de ‘papai noel taradão’. ele olhava sem parar o jeito como as garotas dançavam e isso me parecia doentio. não que eu fosse maricas ou algo do tipo, eu simplesmente achava doentio o modo como ele olhava pra elas.
existe uma grande diferença entre admirar garotas que sabem dançar e olhar como se quisesse raptar todas elas. 
mas não era só o papai noel que me deixava chateado. as garotas também conseguiam essa proeza. a madrugada já corria solta e algumas delas não deviam ter nem 16 anos. me sentia na obrigação de agir como pai delas e mandar todas embora vestir alguma coisa decente e esperar que o príncipe encantado a convide pro baile de primavera. 
acho que eu gostava mais quando as garotas eram assim, sabe? quando, ainda acreditavam em alguma coisa sincera. isso tudo agora me chateia pra burro.
e foi então que ela entrou. 
sentou do meu lado, não pediu nada. não olhou pra ninguém. vestia uma camiseta do teatro da cidade e eu pensei que era uma droga, já que eu sempre tive um fraco por atrizes.
ela tinha os dois olhos verdes mais bonitos do mundo.
olhou ao redor, e fez um gesto pro Dj da noite chegar mais perto. ela falou alguma coisa no seu ouvido  e ele sorriu.
2 minutos depois a pista estava vazia, mas os nossos corações estavam cheios de vontade de sair por aí. as garotinhas foram embora, os bêbados sorriam em seus sonhos foras de foco. o papai noel tinha achado uma pequena e levado pra casa. 
e eu continuava ali. olhando pra ela.
acho que observei ela por umas 2 vidas inteiras, até ela me notar.
então me olhou umas três vezes e eu já fiquei maluquinho. tem garota que consegue fazer isso com a gente, que é só olhar pro nosso lado e a gente tem vontade de embrulhar o mundo e entregar pra ela de presente.
– hei.
– hei, eu respondi.
– acho que eu nunca te vi por aqui.
– acho que eu nunca vim por aqui, eu sou péssimo com conversas.
– você é engraçado.
– devo ser.
na camiseta dela tava escrito: cortina. e aquelas 2 máscaras que simbolizam a tragédia.
– você gosta de teatro? ela perguntou.
– uhun.
ela rio. eu queria conseguir juntar mais de 2 palavras.
ela falou que tinha uma apresentação amanhã, que a estréia tinha sido hoje e que foi um lixo. disse que podia arranjar uns 25 ingressos se eu quisesse ir. 
eu falei que só um tava bom, eu não me lembro de ter tantos amigos assim. 
ficamos em silêncio um pouco, então eu resolvi contar que tinha escrito uma peça. que era sobre um cara que encontra um relógio acelerado pra trás. e no fim ele faz bullying com ele mesmo na escola, de tão feio que ele era quando pequeno. 
ela disse que devia ser genial. 
e eu descobri que a única coisa genial que tinha na minha vida naquele momento, tinha a ver com ela.
– você quer sair pra andar? eu perguntei.
– isso é uma cantada? se for, realmente me parece péssima.
– não. juro que não. eu só preciso mesmo andar.
e ela se levantou. falou que andar parecia uma ótima ideia.
o sol daqui a pouco ia começar a nascer, os bêbados estavam acordando, ela se prendeu no meu braço e sorria de leve, fazendo um som engraçado que eu não pude deixar de tirar sarro. o papai noel taradão já devia estar sozinho de novo, e garota que dormiu com ele, arrependida, mas se sentindo adulta ao ponto de saber o que é melhor pra ela. e que sair com caras assim faziam dela alguém melhor. ‘esse mundo tá perdido’ – eu pensava – ‘e, às vezes, até que eu me dou bem’. então a minha garota segurou a minha mão, se é que posso chamar ela de minha garota, mas foi isso mesmo que ela fez. e perguntou se podia passar o texto comigo.
eu falei que ia morrer de tédio, mas podia fazer esse sacrifício.
tocava ‘there is a light that never goes out’.

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