Conto

02out12

Era um sonho. Certeza que era. Eu abri os olhos e ouvi a respiração embaixo da minha cama. A chuva forte fazia tambor na minha janela e eu quase tive vontade de abrir só pra pedir pra ela parar. Me dobrei na cama pra poder olhar embaixo e não havia nada. Só meus sapatos sujos e uma camiseta que eu tinha perdido umas duas semanas atrás.
‘Outubro ou nada!’ – como o nome do cd do bidê ou balde – era assim que outubro seria. Certeza. Cheio de sonhos bagunçados, chuvas na janela e respirações cansadas. Meu outubro. 
Olhei a hora, liguei a TV. Tomei meu café. Quando sentei pra assistir SBT a respiração voltou, a mesma que eu tinha ouvido ao acordar. Era a voz de um lobo cansado. Não que eu já tivesse ouvido um lobo cansado respirar. Mas eu sabia que seria exatamente assim. Mas dessa vez era um pouco pior, ao invés de estar embaixo da cama, parecia que ele respirava no meu ouvido…

E parou. 
Alguém batia na porta. Eu abri. Era um homem todo vestido de papai noel. Mas sem a barba branca. Só a roupa toda vermelha, o gorro e um grande saco de presentes em uma das mãos. 
– Eu tenho uma coisa pra você garoto. 
Tirou 3 caixas de dentro do saco. A primeira era grande, bem grande e parecia bem pesada. Tava com um lindo embrulho vermelho e um laço amarelo. A segunda era bem pequena, eu poderia fechar minha mão ao redor dela e era toda roxa. A terceira era em forma de cilindro e toda preta.
O papai noel acendeu um cigarro e falou que eu devia escolher uma delas. Escolhi o cilindro. Ele pegou o embrulho e tacou fogo. Falou que foi sem querer e eu tinha direito a outra. Escolhi a maior. Ele falou que a maior era dele.
Então apontei pra menor, ele sorriu e disse que era um ótima escolha.

Do mesmo jeito que chegou, ele partiu. Mas deixou meu presente. Que fazia uma barulho chato, que eu não entendia o que era. Aproximei o embrulho dos ouvidos, pra ver se fazia algum sentido. E pouco a pouco comecei a perceber. Era um som fraco, sofrido, como se fosse uma respiração… Larguei o embrulho em cima da mesa e pensei em sair na mesma hora. Mas lembrei da chuva, o que não fazia sentido, já que o papai noel estava todo seco. Ignorando o som que faziam as gotas no telhado, fui olhar pela janela e me deparei com um lindo sol, colorindo a rua. 

Saí de casa na mesma hora e ao olhar pra cima, me deparei com a nuvem de chuva. Só em cima do meu telhado. Meu vizinhos tomavam banho de sol e minha casa era castigada por um próximo dilúvio. Como que pra se corresponder com meus pensamentos, a nuvem se fez em forma de navio e lá de cima surgiu uma voz dizendo: relaxa gente, serão só 40 dias de chuva! 
E caiu um trovão, que destruiu a minha antena de TV. E quando voltei lá pra dentro, a chuva não tinha mais barulho de chuva. Tente me entender. É como se estourasse pipoca, e ao invés do barulho da pipoca estourando, saísse da panela uma música do maroon 5. E a minha casa toda, ao invés do barulho da chuva, fazia o som de um lobo ferido, tentando respirar.

Foi mais ou menos nessa parte que eu fiquei louco. E tirei todas as prateleiras da geladeira e me guardei ali dentro. Certeza que o frio taparia os meus ouvidos. Mas não adiantou. Pelo contrário. Ali a respiração ecoava e eu gritei e gritei. E mais alto o barulho ficava. Voltei pra sala e me deparei com o embrulho menor que a palma de minha mão. Tudo agora fazia barulho. Menos ele.
Abri devagar. Com cuidado. E dentro da caixinha tinha um papel. 
E no papel tinha algumas letras. As letras quando colocadas numa ordem certa, fazem uma palavra. E as letras nesse exato momento, naquele pedaço de papel, faziam o nome de uma garota. Não era um nome de uma garota qualquer, como Jéssica, ou Roberta. Não. Era o nome dela. 

Então a respiração tomou forma. Era uma espécie de cachorro preto, encolhido no canto da parede. Me encarava. Alguém bateu na porta de novo, mas dessa vez não esperou eu abrir. Apenas entrou. Era o mesmo homem de antes, mas ao invés da roupa de papai noel, vinha vestido de domador de leões. 
Me olhou, olhou pra criatura no canto da parede. E falou:
– Vem Tempo.
A criatura se levantou na mesma hora e o seguiu. Passando pela porta e indo embora.

A chuva tomou conta da rua. E eu voltei a deitar na cama e é daqui que eu escrevo agora. A respiração cansada passou e eu não sei mais o que pensar. O nome dela tá debaixo do meu travesseiro

Outubro. 

Eu fecho os olhos pra tentar cochilar e acordo com o mesmo som de antes. Respiração. Está no meu quarto. No cantinho. Olhando pra mim. Eu seguro o papel com o nome e os olhos dele seguem a minha mão. Não sou eu que ele quer. É o nome dela. Então ele pula, antes que eu possa fazer qualquer coisa e seus dentes se fecham em meu dedos…

Acordo. Respiração. Mas não existe monstro nenhum.
É a respiração dela, do meu lado. Na minha cama. Eu beijo seus olhos fechados e ela sorri. É a pessoa mais bonita do mundo enquanto dorme. Pensando bem, é a pessoa mais bonita do mundo a qualquer hora do dia.
Penso no meu sonho e vejo o Tempo tentando nos alcançar e a tirar de mim. Penso no Tempo respirando no meu pescoço, louco pra me alcançar e fazer eu me sentir velho e um lixo. Que faça o que quiser, que me destrua, me corte em pedaços, me jogue no chão. 
Dane-se. 
Mas existe um lugar aqui dentro, que é só meu. E ninguém consegue tocar. Esse lugar é só dela. 

Eu beijo seus lábios, pra voltar a dormir.

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