Meninos de conchas

25ago12

Primeiro se retrai todo, até ficar cada vez menor. Até caber dentro de uma concha de tão pequeno. Tão pequeno que nem faz sombra, tão pequeno que a gente pisa em cima sem machucar os pés – deu pra entender? que de tão pequeno quase nem se percebe, mas exatamente por talvez só fazer parte de uma cabeça distraída, é que faz  toda diferença. E retraído assim, esconde o coração, aproveita que ninguém consegue enxergar e guarda tudo que couber na mochila. Então existe pequeno, nu, sem coração e só com uma bolsa. Na bolsa cabe dois livros – ornwell, baudelaire – uma bússola pra não perder a direção, um par de tênis, uma blusa porque a mãe disse que vai estar frio, o coração, todas as roupas, e todo sentimento bom que olhando daqui fazia parecer um menino tão bonito.
Não que agora fosse feio. Talvez só não fosse mais. De tanto medo de permitir, perdeu o brilho, se retraindo ao tamanho de uma concha. Abraçando uma perola como se abraça as coisas no escuro. Respirando devagar.
Retraído fecha os olhos. Reza. Chora. Perde. Pede. Ama. Tudo com um ponto no fim, pra não ter continuação. Sentimentos temporários, pra não doer e nem fazer sorrir depois. Então, ponto, bem assim.
Tecnicamente nunca mais vai se expandir, a segurança de uma concha é muito reconfortante, meninos de conchas não são muito aventureiros, mas costumam ter uma vida bem longa. Não se perdem pois não vão muito longe. Não se rendem pois não existe guerra. Não se machucam pois não conhecem. Meninos de conchas são poetas que sonham com uma vida que escapa por entre os dedos. É tão provocante! Até chegam a sentir o sabor do que estava porvir. Mas logo corre em outra direção, sonho é como fogo. Ilumina nossas vidas, queimas nossos dedos e sempre vai chover.
E assim os anos passam. As crianças em suas conchas são aquelas que nunca tiveram tudo. Só se enconde quem sabe o que é perder… Por isso engatilha as armas, acende o pavio. Não é a história, é a forma de contar. Um caderno comprado na livraria, um lápis roubado do estojo da mãe, todos os sentimentos bons embrulhados pra dar de presente à aquela menina bonita e um pouco de luz no quarto, pra ver os rostos mais queridos nas sombras que dançam como se estivessem numa festa, e a única lei é nunca deixar a noite acabar.

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