Sala

04jul12

Porta.
Toda marrom. Uns 4 dedos aberta. 
Me lembrando que você acabou de sair.
Que acabou de dizer que não quer mais ver.
Na verdade, não querer mais me ver é o de menos. Você mesma me disse, que ainda me amava, só não me queria mais por perto.

Televisão.
Passando Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. 
Tá no volume 2. Bem baixinho.
Pra a gente ouvir algum diálogo bonito quando o silêncio toma um pouquinho de conta.
Não que seja ruim.
De vez em quando o silêncio é tão bonito.

Fotos na parede.
Em preto e banco.
Colorida.
Seu sorriso, sua mãe.  
Nosso antigo cachorro que sumiu naquele natal.
E voltou na páscoa, mais gordo e com 2 filhotinhos que o perseguia pra todo lugar.
A gente comemorou tanto aquele dia, que os 3 cachorros fizeram bagunça pela casa durante um ano todo!

Janela.
Que agora tá fechada.
Dá pra rua. Pro mundo todo.
Meu lugar favorito de te abraçar.
O mundo pode ser ruim o quanto for, da janela você me abraça.
Você me salva.

Corredor.
Para os outros cômodos.
Para a nossa bagunça.
Que eu não mudaria nada.

Estante.
Com teus livros favoritos.
Aquele bonito de capa azul.
Meus livros favoritos, marcados nas páginas que eu gosto de ler pra você.
Aqueles trechos mais bobos.
Como o do Cem Anos de Solidão, em que o Aureliano pergunta pro irmão sobre os mecanismos do amor: ‘e o que é que a gente sente?’ – E o irmão responde: É que nem um terremoto.

Mesa do centro.
Um vaso.
Nossa vasilha roxa de pipoca.
Uma xícara de café que eu esqueci ali mais cedo e esqueci de guardar.
Seu caderno, rabiscando uma peça que a gente tentou escrever mais cedo.

Sofá.
Eu.
Sentado, olhando pro relógio.
Achando ele um idiota por ainda tentar funcionar sem você aqui.
Eu.
Olhando ao redor de nossa sala de estar.
Nossa sala.
Que funciona como uma grande foto do que a gente já foi.
Como um filme mudo. Que passa devagar, pra sentir melhor o sabor dos dias.

Porta.
Toda marrom.
Toda aberta.
Você em pé, com sua bolsa.
Sorrindo e chorando, tudo ao mesmo tempo e em qualquer ordem.
Dizendo: Merda…
E parando por aí.
Só me olhando.
Com aquela sua cara de quem vai embora todas as vezes.
Mas volta correndo quando saudade chama seu nome.
E lembra que nossa vida pode não fazer sentido algum.
Mas que, afinal, somos ótimos com essas coisas que sempre parecem dar errado.

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One Response to “Sala”

  1. O silêncio é realmente bonito às vezes.


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