Algumas estrelas são bonitas

20jun12

O palco está limpo. Apenas uma cadeira no canto, sem maiores cenários. São 4 personagens: a psicóloga, o poeta, o eletricista e a vela.
A vela já está em cena desde antes do público entrar. No meio palco, centralizada e apagada.
A psicóloga entra, acende um fosforo, acende a vela (a vela é um ator todo vestido de branco e quando aceso ele coloca uma touca laranja na cabeça). 
A psicóloga pega a cadeira e senta.

PSICÓLOGA: Boa noite. Eu espero que todos vocês estejam confortáveis. Eu sou a psicóloga da noite, hoje faremos uma sessão em conjunto. Qualquer coisa vocês levantem a mão que a gente tenta resolver o problema. 
Eu digo ‘tentar’ porque eu não estou sendo exatamente bem paga, então eu até posso falar uma coisa legal tipo: relaxa, tudo vai dar certo. Mas não vai passar muito disso. Quem quiser algum conselho bom, que me pague de verdade. Eu sou ótima com conselhos! Outro dia a Dona Maria me ligou, minha paciente, ela disse: estou desesperada! Acho que meu marido tá com outra, o que eu faço?
Ué, pensem comigo: Dona Maria, uma senhora, 73 anos, casada há uns 50 anos. A-B-S-O-L-U-T-A-M-E-N-T-E Paranoica!  Qual é o conselho que eu dei? Faz um amor à 3 ué! 
Se o marido tá indo tão bem. Aproveita!
Mas eu to pensando em largar essa vida.
Vai acabar me deixando maluca. As pessoas me ligam sem parar, querem ajuda, querem ajuda. Mas ninguém paga! Tão vendo? Aonde já se viu, um consultório à luz de velas? Tem cliente que entra e já vai tirando a calça colocando o pinto pra fora, pensando que hoje os problemas acabaram de verdade… Bom, pelo menos assim eu consegui trocar de carro.
Ok, alguém quer começar a nossa consulta?

(no meio da platéia está o poeta, que se levanta)

POETA: Oh! Dores que me afligem, que profanam a amplitude do meu ser que se extasia perante tal força. Meus braços são como flechas que dilaceram a carne pura e perfeita! Me ajude em meu tormento?

PSICÓLOGA: alguém menos chato, por favor? 

POETA: O que? Como ousa? Minha dor não é bastante para consumir teus preciosos segundos vitais?

PSICÓLOGA: sério gente. Ninguém mesmo? Aceito assassino que diz que matou só um e por isso merece ir pro céu. Sério, algum assassino por ai? Posso ajudar a aliviar os pecados. Não sou padre mas a gente quebra qualquer galho.

POETA: não me ouvistes? Preciso de tuas sábias palavras!

PSICÓLOGA: merda, sobe.

(o poeta sobe no palco, corre tão aparvalhado que tropeça e derruba a vela, que se apaga)

POETA: oh meu Deus! Está vendo? A desgraça se apoderou de meus dias tenros! Mas não te preocupas, eu hei de encontrar uma cura!

(e sai correndo)

PSICÓLOGA: não, pera. Gente, é só uma vela! Que cara maluco, devia procurar um psicologo.

(ela coloca a vela de pé e tenta acender com o fósforo, mas a vela não acende).

PSICÓLOGA: merda de vela. Porque tá assim agora?

(o poeta volta, com o eletricista).

POETA: Corri até a mais longínqua taberna, passei por extremos e por diversas vezes pensei em abandonar tal desventura. Mas aqui está o único homem capaz de solucionar todos os nossos males.

PSICÓLOGA: ele foi te buscar aonde?

ELETRICISTA: no buteco, ali no fim da rua.

PSICÓLOGA: ah, e que eles males ele passou?

ELETRICISTA: tropeçou na sarjeta, bateu a cabeça num poste.

POETA: mundo cruel e tirano, que nem as mais nobres intenções são recompensadas!

PSICÓLOGA: ok, e quem é você?

ELETRICISTA: eu sou o eletricista. O moço me falou que a senhorita estava com problemas na sua iluminação.

PSICÓLOGA: você entende de velas?

ELETRICISTA: se eu não entendo, quem vai entender?

(o eletricista se abaixa e começa a mexer na vela, enquanto isso o poeta deita na beirada do palco e joga os braços pro alto)

PSICÓLOGA: o que foi menino? O que tá fazendo deitado ai no chão?

POETA: as estrelas me fizeram um chamando. Disseram: olhai-nos. Estamos lindas!

PSICÓLOGA: (olha pra cima) aquele é o teto.

POETA: não importa! Teus olhos mundanos não conseguem ver através das barreiras!

PSICÓLOGA: é uma merda de um teto!

POETA: olhai para as estrelas!

PSICÓLOGA: É A PORRA DE UM TETO CARAMBA!

(a psicóloga se sente mal por ter gritado e começa a sorrir para o público como quem pede desculpas, e deita no chão com o poeta)

PSICÓLOGA: olha aquela estrela como é brilhante e bonita!

POETA: qual estrela?

PSICÓLOGA: aquela grandona! 

POETA: ai é o teto.

ELETRICISTA: PRONTO!!! A VELA ESTÁ ARRUMADA!

(os dois se levantam e ficam ao redor da vela. A vela que estava toda murcha por estar acesa, de repente se acende e abre os abraços num segundo de alegria. Quando se percebe acesa, entra em e desespero e pula do palco. Morrendo. Os outros personagens vão até a beira do palco e olham pra baixo. Todos com cara de desespero).

POETA: o que deve ter acontecido para tal criatura frágil desistir de maneira tão abrupta da vida?

ELETRICISTA: acho que deve ter colocado algum fio errado.

PSICÓLOGA: gente, minha vela saiu correndo e se matou.

POETA: isso é o óbvio pobre psicóloga. Acho que tua cabeça jamais há de entender! 

PSICÓLOGA: entender o que?

POETA: o real motivo daqueles que estão desamparados e se negam a viver neste mundo que não sabe nem mesmo observar a cor de teus olhos!

PSICÓLOGA: do que você tá falando?

POETA: não percebes? Meu Deus, que mulher tola!  

PSICÓLOGA: (falando para o Eletricista) acho que ele tá me ofendendo.

ELETRICISTA: e eu que deixei uma lâmpada morrer? Acho que isso  pode ser o fim da minha carreira!

PSICÓLOGA: era uma vela.

ELETRICISTA: não importa. Teu trabalho é não deixar enlouquecer, não importa se for homem ou mulher. O meu trabalho é não deixar a luz apagar. E eu falhei.

PSICÓLOGA: pra que tanto sofrimento, o poeta não é ele?

POETA: todos nós somos poetas. Alguns só respiram um pouco mais. 

PSICÓLOGA: mas você aqui é o verdadeiro poeta.

POETA: não. A vela é o verdeiro poeta. 

PSICÓLOGA: acho que eu tô ficando maluca.

ELETRICISTA: eu poderia ser seu psicólogo agora. 

POETA: não. Você é o eletricista. Tem que fazer o sol acordar amanhã cedo.

(o Eletricista se levanta , meio indeciso, meio feliz e sai de cena).

PSICÓLOGA: pra onde ele vai?

POETA: para a mesma taberna.

PSICÓLOGA: sério?

POETA: sim, relaxa. Amanhã cedo ele ainda será o arauto do nosso Senhor Sol.

PSICÓLOGA: ok… E o que a gente faz com a vela mesmo?

POETA: você ainda não entendeu, não é?

(o Poeta dá um abraço na psicóloga e sai de cena, a psicóloga senta na beirada do palco e fica olhando a vela. Depois olha para o alto e começa a contar as estrelas).

PSICÓLOGA: será que a vela se sentiu pequena no meio de tanta luz no céu? Acho que ninguém morre por ser pequeno demais. Mas, e se talvez quando ela se percebeu vela e viva, achou que fosse demais. É perigoso se perceber. Quando a gente se percebe, o mundo parece injusto. E eu me sinto tão idiota quanto o poetinha. Droga. 

(continua olhando para as estrelas).

PSICÓLOGA: algumas estrelas são tão bonitas. Que eu quase me sinto morrendo de amor por elas. E se o único motivo para as coisas acontecerem for o amor?

(ela para de contar as estrelas e fica séria. Olha pro público e dá um sorriso). 

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