Três histórias sobre as dificuldades que temos em sermos felizes

02jun12

Oi, eu sou o Dan. E preparei três histórias para vocês. São histórias curtas, que servem pra exemplificar como simplesmente não servimos para ser feliz. Essa primeira chama: QUANDO OS PLANOS DÃO CERTO.

Ela foi embora no outro dia cedo. Se sentia sozinha. Encontrava outros corpos, outras bocas, mas nunca era o bastante. Tantas noites não faziam mais sentido algum. Na verdade, ela era teimosa pra cacete. Ela o amava. Mas isso era inconcebível! Ela tinha feito planos, queria namorar com ele, apresentar seus amigos a ele, apresentar a família, casar com ele e fazer todas aquelas coisas bregas e caretas que os casaizinhos idosos fazem. Ela explodia em sorrisos ao pensar no futuro todo que tinha planejado. Era tudo aquilo que tinha sonhado, parecia tão feliz que de repente se assustou. Como se fosse um filme de terror. Na verdade, é assustador quando nossos planos dão certo, a gente tende a enlouquecer. Então ela escreveu na parede todos os defeitos que ele tinha (inventou alguns, porque era irritante o quanto ele parecia todo perfeitinho, opa, perfeito demais é um defeito, anotado) e depois de uma semana toda sem dormir, ela resolveu que não era mais feliz. E fim. Talvez, se ele não se importasse tanto, ou se ele não tivesse a feito tão feliz. Quem sabe? Somos tão confusos e problemáticos e tão acostumados a sermos tristes e sozinhos, que a felicidade assusta. E agora ela passa todos os dias pensando nele, dizendo que a saudade vai passar e que foi melhor assim. Porque a gente sempre tenta se convencer que sabemos o que é melhor…

Pois é, aposto que todos vocês já se pegaram tão felizes que não sabiam muito bem o que fazer… Ou não. Tanto faz. Enfim, essa próxima história fala sobre pókemons e sobre quando a gente é tapado de mais ao ponto de deixar a pessoa certa partir. Ela chama: LUGIA.

Paulo coleciona miniaturas de pókemon. Tem todos os mais raros, até aquela edição especial feita do Lugia logo quando saiu o filme e ninguém ainda sabia qual era aquele pássaro branco. Ele sabia e comprou a miniatura, só foram feitas umas 300 no mundo todo. Boa parte já deve ter se perdido por aí, porque as crianças sempre perdem esses brinquedos. Mas ele sempre foi uma criança esperta e sabia que tinha uma das coleções de pókemon mais valiosas do mundo! Hoje em dia Paulo tem 17 anos. E exatamente agora, ele está levando uma garota pra estudar no seu quarto. Não me entendam errado, eles só vão estudar mesmo. Ele é maluquinho por ela! Mas ela está preocupada demais pensando no cara da academia e ignora o fato de ele ser tão tapado ao ponto de achar que Bono Vox é o vocalista daquela banda, Beatles (não que ele já tenha ouvido alguma música) e que tem certeza que ele tinha alguma coisa a ver com a teoria da relatividade – na verdade, ele só usa desse assunto pra tentar mostrar para as garotas que ele é inteligente. Agora vocês me dizem: eu também não sei direito quem era o Bono Vox, nem quem é o vocalista dos Beatles e nem que porra é essa de teoria da relatividade. Então eu peço para vocês passarem o dia na academia, porque talvez faça algum sentido. Continuando: nessa tarde em questão, Paulo resolveu que iria conseguir conquistá-la e ela estava disposta a ficar o mais longe possível dele. Ao entrar no quarto ela se deparou com todos aqueles pókemons em miniatura e num momento de euforia, se lembrou de quando assistia aos desenhos com o irmão e se pegou falando os nomes de quase todos. Paulo se apaixonou mais ainda. E falou que mostraria o mais raro de todos! E lá estava o Lugia! Ela pegou o pókemon na mão e disse que era lindo mesmo, então ele falou sem nem pensar: “é seu, pode levar”. Ela sorriu tanto, agradeceu e começaram a estudar. Depois ela foi embora, levando o Lugia na mochila. No caminho passou na academia e combinou de sair com o cara. E no outro dia na escola nem cumprimentou o Paulo e nem na outra semana e nem durante o ano. Diz a lenda que ela acabou casando com o cara da academia, mas só porque ficou grávida e na sua gaveta mais escondida está o Lugia, que ela sempre aperta perto do coração quando sente que a vida não faz sentido. E o Paulo cresceu, nunca mais foi tão feliz quanto naquela tarde, mas de verdade mesmo, ele só assume que perdeu sua miniatura favorita.

Essa é a última. Eu só me toquei que as palavras estavam rimando no fim. Aí deu preguiça de voltar e fazer tudo milimetricamente certo. Enfim, espero que gostem. É sobre saber o que quer: A DIFERENTE GAROTA E O AÇOUGUEIRO QUE GOSTA DE FLORES

Ele era açougueiro. Porque seu pai fora açougueiro. E o pai de seu pai também fora açougueiro. E o pai, do pai de seu pai também fora açougueiro. E o pai, do pai, do pai… Enfim, era toda uma linhagem de homens fortes e barbudos que dominavam a fina arte de dilacerar a carne sem remorso no coração. Já estava decidido que ele seria açougueiro desde os primórdios de sua geração. Seus irmãos também eram açougueiros, cada um de uma cidade. E todos, no aniversário de primeiro ano de vida, ganharam o primeiro facão de cortar carne. Já tem que nascer sabendo ser homem, dizia o pai. E assim foi durante boa parte da vida, homem que é homem já sabe exatamente pra onde vai. Matava bois, porcos, frangos e quando era menino, um pivete, se aventurava a enfrentar um touro apenas com uma canivete. Esses dias eram lendários! Enfim, numa bela tarde de primavera, enquanto caminhava para seu açougue, ele se deparou com a jardineira da cidade. Ela tinha longos cabelos pretos e mesmo já sendo moça com mais idade, era tão pequena que ele tinha certeza que poderia caber inteira dentro do estômago de uma cabrita (entendam que romantismo nunca foi seu ponto forte, na verdade, falar sobre amor só irrita). No mesmo momento se apaixonou pela diferente garota e decidiu que faria dela sua esposa. Tratou de correr até o açougue, matou o boi mais bonito e trouxe o pedaço mais suculento. Ela respondeu que agradecia, que estava feliz pela oferta, mas que comer carne não lhe apetecia. Sentindo-se um monstro, o açougueiro pendurou seu fiel facão e falou que nunca mais tornaria a matar um boi. Tudo para conquistar a jovem dama. Os dias passaram, seus irmãos o repudiaram, seu pai o deserdou, mas ele pouco se importava, resolveu ir além e se entregou a jardinagem! O fascinante mundo das plantas! Logo se aproximou da garota e passou muitos dias com ela, com os joelhos na terra, falando sobre margaridas e hortências. Até que um belo dia, ela resolveu contar um segredo, disse que estava apaixonada pelo novo açougueiro. Quando nosso herói desistiu da profissão, a cidade entrou em desespero e resolveu arrumar um outro açougueiro, do outro lado do país chegou este homem que era tão hábil com as carnes quanto bonito e de coração nobre. E então o nosso açougueiro se entregou à loucura, não tanto pela garota, mas porque se apaixonara pela felicidade que era cuidar das plantas. Mas sabia que seria impossível continuar sem ela. Perdido e desorientado, vagou pelas ruas, pensando que talvez não tivesse escolha, deveria mudar de continente e continuar como jardineiro. Então fez as malas, se preparando para a partida, iria no outro dia cedo, queria começar logo sua nova vida. Antes de subir no trem ouviu os sinos do casamento, estavam anunciando o noivado da linda jardineira com o novo carniceiro. Ignorando o futuro que estava por vir, ele correu até sua casa e resolveu que era hora de despendurar o facão, bateu na porta do açougueiro e o degolou, como se faz com um faisão. Assim ele partiu pra Paris, pensando na verdade em ser açougueiro por lá, venderia carne de gente, esse era um detalhe, mas sabia que seria diferente. Enquanto o trem andava, ele se questionava se era verdade o que todo mundo diz, sabe, aquela história de que é impossível não ser feliz em Paris.

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