Um conto

05dez11

Um dia ele chegou tarde e a casa não estava mais no mesmo lugar.
Simples assim.
Todo o resto estava ali. Os mesmo vizinhos, os mesmos postes, a mesma árvore bem em frente, que vazia sombra na calçada aonde as crianças sentavam no dias quentes.
Mas a casa não estava ali.

Olhou pro céu.
A mesma posição das estrelas.
Os mesmos cachorros correndo e latindo e fazendo aquelas coisas que os cachorros fazem.
Mas a casa não estava ali.

Primeiro ele pensou em sentar e esperar.
Mas não fazia sentido, não podia imaginar a casa voltando com suas próprias pernas – casas não costumam ter pernas.
Depois pensou em ligar pra policia e dizer: roubaram minha casa.
Mas parecia idiota a ideia de explicar que tinham até levado os tijolos.
Por fim apenas sentou. Em baixo da árvore. Aquela árvore que agora parecia ser a única coisa concreta do seu mundo.

Encostou a cabeça.
E pensou pra onde teria ido sua família.
Talvez fosse só uma brincadeira de natal. Logos todos apareceriam das sombras a diriam: SURPRESA!
Então ele sorriria, faria cara de bravo e diria: nossa, vocês me pegaram mesmo.
Na verdade, já estava até ensaiando a cara de surpresa.
Sabe, pra não estragar a felicidade de ninguém.

Mas as horas passaram correndo.
E a casa ainda não estava ali.
Cada minuto passou como um ano. E cada ano valeria uma vida.
Até que desistiu.
Levantou.
Pensou que talvez fosse hora de tomar as rédias da situação.
Era um homem, e é isso que homens fazem.
Eles comandam as coisas.

Então passo a passo ele foi andando.
Até sair dali.
Quando dobrou a esquina, ao olhar pra trás notou que toda sua rua tinha desaparecido.
E um pouco mais adiante, todo o bairro desapareceu.
Pela primeira vez pensou que estava realmente sozinho.
Sem a família e sem seus bons amigos.

Continuou andando até sair da cidade.
E na última olhada pra trás, percebeu que tudo tinha sumido.

Pensou que iria chorar, mas talvez não fosse capaz disso.
Então só tentou cantarolar alguma música (como sempre fazia quando queria dizer alguma coisa) e partiu.
Entendeu pela primeira vez na vida, que não tinha um lar.

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