Um aniversário idiota (em Novembro)

23nov11

O filhadaputinha do Sal miava.
Era tão cedo.
E ele miava.
Levantei do sofá.
Coloquei leite.
Ele bebeu feliz da vida e logo depois voltou a miar.
Liguei a TV.
Ele sentou pra assistir e voltou a miar.
Eu abri a janela.
Ele sentou na beirada, olhou lá embaixo, se virou pra TV e ficou assistindo e miando.
Perguntei se ele tava de sacanagem comigo.
Ele miou.
Então eu desisti.

Sentei do lado da janela pra assistir o sol terminar de nascer.
Acho que era meio de novembro.
E eu ainda estava esperando pelas chuvas.
Eu sabia que elas viriam e deixaram tudo mais bonito.
Era só uma questão de tempo.
O Sal continuou miando e eu achei que devia cantar pra acompanhar.
Ficamos assim por uma meia hora.
Até o sol terminar de nascer.
E as pessoas lá embaixo ficarem tão apressadas.
Correndo pra todo lugar e pra lugar nenhum.
É sempre assim eu acho, a gente corre tanto, pra depois descobrir que era o lado errado.
E descobre que aquilo que a gente deixou era exatamente tudo o que queríamos.
Mas a gente sempre é idiota demais pra notar.

O Sal miou e isso me tirava a paciência agora.
Eu perguntei o que era.
E ele parecia impaciente comigo agora.
Do nada ele correu, pulou na parede, tirou uma folha do calendário.
Pegou com a boca e jogou no meu pé.
Eu só consegui pensar: porra.
Olhei a folha. NOVEMBRO.
Pensei de novo nas chuvas que estavam demorando.
E que já era o meio do mês.
Por algum motivo me lembrei de você.
O Sal miou.
Eu pensei.
Ele miou de novo.
NOVEMBRO.
Sal miando.
Você…

Se fosse um desenho animado, cairia uma grande ficha na minha cabeça agora.
E eu me sentiria um grande idiota por não ter entendido.

Hoje era seu aniversário.
Porra.
O Sal sorriu. Daquele jeito que gatos sorriem.
Ele tem memória melhor do que eu.
Na verdade, ele sempre gostou de você.
E eu perguntei: o que eu faço?
Ele miou.
E correu até o telefone.
Isso não deve ser tão difícil, eu pensei.
Ainda sabia seu número.
Então contei até 3 e liguei.
Tocou.
Tocou.
Nada.
Desliguei.
Eu tentei.
O Sal me encarava.
– Você não espera que eu vá à casa dela?
Ele miou.
Saco.
Coloquei um tênis.
E a gente desceu pra rua.
O Sal andava com 5 reais na boca.
Corria na minha frente até parar na frente da vitrine, aonde tinha um chocolate que parecia bonito.

Eu iria me sentir idiota pra cacete. Fato.
E não faz bem pro nosso ego se sentir tão idiota, logo tão cedo.
Então resolvi enrolar.
Andar por aí e pensar nas coisas.
É engraçado tudo isso.
Hoje em dia, parece que toda vez que te vejo já faz mil anos desde a última.
Mesmo fazendo poucos dias, ou mesmo se foi ontem.
Acho que isso tem a ver com saudades.
Deve ser esse o nome que dão pra essas coisas.
Quando a gente sente um vazio assim. Ou é fome, ou saudade.
Sentei num banco por ali.
Estava à dois quarteirões.
E não sabia se realmente queria te atrapalhar.
Tenho medo disso.
De bater na sua porta e descobrir que minha vida está atrapalhando.
Então eu teria que me obrigar a voltar e lembrar de nunca mais gritar por ai.

O Sal miou.
Merda.
Ok. Vamos.

Eu chamei seu nome.

Umas pessoas vieram atender.
Perguntei se você estava. Eles foram chamar.
Então você veio.
Estava bonita, juro.
Mais bonita do que eu posso descrever agora.
Eu falei: hoje é seu aniversário.
E você respondeu: eu sei.
E riu.
Aí eu fui te abraçar.
E lembrei que nunca sei o que dizer nessas horas.
Então a gente fica em silêncio pra não falar bobagem.
Mas era seu aniversário e isso é uma das coisas mais importantes que eu sei imaginar.
Mesmo que eu não diga isso com freqüência.
Mas você é uma das coisas mais importantes que eu tenho em minha vida.
E naquela hora eu rezei pra que com um abraço, você conseguisse perceber tudo isso.
Então eu te dei o chocolate.
Você me chamou pra entrar, eu falei que tava com pressa. Precisava ir.
Você sabia que eu não tinha mais nada pra fazer. Mas entendeu.
Te abracei e em silêncio eu falei: por favor, fique bem pra cacete.


No caminho de volta pra casa tem uma igreja.
Eu nunca entrei.
Sentei ali, bem de frente.
E falei: Oi Deus.
Não sei, acho que eu esperava alguma resposta.
Como ele não falou nada eu continuei:
– Sei que a gente não conversa muito. Mas, eu queria dizer que você tem feito um bom trabalho em alguns lugares. E nem estou puxando saco.
Olhei pro lado, me sentia idiota.
Continuei.
– Eu queria pedir uma coisa. Não é pra mim, sei que não mereço. Mais é aniversário dela, você sabe. Então cuida bem, sabe? Cuida bem dela. Deixa-a feliz. Porque ela merece. Cuide dela, de quem está perto dela. É só isso. Aposto que é fácil pra você. Você manda em tudo mesmo… Bom, é isso. Obrigado.
Eu não sabia o que fazer agora.
Então eu levantei e fui andando devagar.

Umas gotas começaram a cair do céu.
Era novembro.
Enfim fazendo o que devia fazer.
Chovendo, pra levar tudo de ruim e deixar só o que é bonito.
Porque depois vem dezembro.
E em dezembro a gente não pode ter tempo pra coisas ruins.

Deixei a chuva cair. Em mim.
E tava tudo certo.
Eu cantei parabéns pra você. Bem baixinho.
E tive certeza de que hoje era um dos dias mais bonitos do ano.
Acho que é porque o dia de hoje leva seu nome.
E em dias assim, a vida dá uns toques de como a gente faz pra ser feliz.
Mas é segredo.
E a gente precisa estar esperto pra perceber.

esse era um post pro dia 17.
Porque era aniversário dela.
Tudo de mais lindo e perfeito pra você Aline Anzolin  ♥

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2 Responses to “Um aniversário idiota (em Novembro)”

  1. eu também falo com deus assim,
    mas na minha cabeça ele me responde 🙂

  2. 2 anaspera

    E sorrir ao ver o Sal miando por aqui. Como eu gosto dessa história.


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