Esboço

10nov11

Ela usava um all star branco.

E fazia pra mim um olhar de quem queria ir embora o mais rápido que desse.

O bar estava cheio, passava das 3 horas da manhã.

Chovia pra cacete. E tava cheio de gente por ali.

Eu lembro de ter pensado: que merda, isso é quase um filme do Tarantino.

O ar tinha cheiro de cigarro.

E eu não pude deixar de pensar, que isso era um sinal de como nossos dias queimavam tão rápido.

Na verdade, por de trás da maquiagem, eu sabia que ela ainda tinha sonhos.

Talvez quisesse ser atriz, bailarina, advogada, princesa…

Ou, talvez só quisesse ser feliz.

Casar, amar, ter uma vida, um pouco de dignidade.

Sei lá, olhando pra ela eu só penso mesmo que tudo tem a ver com felicidade.

Ou você é feliz, ou não.

E isso, garota, é o que faz toda a diferença no final.

Ela levantou. Veio em minha direção.

Usava uma camiseta com a bandeira da Inglaterra.

E eu quase cantarolei God Save The Queen.

Na mesma hora eu lembrei de uns anos atrás.

Uma garota me disse: vem,  foge comigo.

 E eu disse não, tive medo, falei que tava ocupado e precisava acordar cedo amanhã.

A gente só se arrepende por dizer não.

Quando dizemos sim. Coisas incríveis acontecem. Ruins às vezes, mas incríveis.

Ela chegou perto.

E por algum motivo, a ideia de morrer afogado em teus lábios parecia um sonho.

Ela sentou do meu lado sem dizer nada.

As horas passaram tão devagar que acho que lá fora os anos correram mais depressa.

Uma música, o cheiro de cigarro misturado com aquele perfume.

Ela me olhou e disse: me leva pra dançar?

Era uma ordem. Uma ordem gentil.

A gente levantou, o toca-discos arranhava alguma balada.

Ela se prendeu em meus ombros e disse: não solta.

Não solto.

Ela fechou os olhos e eu assistia, me sentindo o cara mais sortudo da noite.

Antes da música acabar ela beijou meu rosto e disse: obrigada.

Correu.

Não fui atrás.

Ela corria, porque era tudo que sabia fazer.

Fugir antes de ser feliz, porque felicidade assusta.

Talvez ela nem fosse real.

Talvez fizesse parte de um sonho bom que já passou.

Só fiquei ali, em pé.

Querendo ter dito tanta coisa.

A música acabou, a noite também.

E fui embora. Sentindo meus sapatos mais leves.

Um carro, o acelerador…

E toda uma vida pela frente.

Sem parar pra pedir informação, só seguir.

Ver  a paisagem, sentir o vento, dançar sempre que der.

E ser feliz.

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