E não me deixa esquecer seu rosto.

20out11

Uma vez, lembro bem, esqueci de esquecer.

E depois esqueci de lembrar.

Na outra semana, já tinha esquecido de como era dormir. Mas fiquei tão cansado, que sonhei tanto e esqueci de acordar. Quando eu vi, muitos dias se passaram e eu esqueci de envelhecer. O que não era exatamente um problema.

Mas é um saco, quando a gente cresce e esquece de viver.

E eu esqueci.
O fogão aceso. A televisão ligada.
Esqueci de pagar as contas e a gente ficou sem luz.
Esqueci de acertar as contas e a gente ficou de qualquer jeito.

Sem luz.
Se luz.

Se fosse luz, ontem seria dia.
E pensando assim, hoje a gente não teria lembrado de escurecer.

Mas você lembrou. E lembra das datas.
Escreve em minha mão, e diz: pra você não esquecer.
Mas eu esqueço.
De ontem. Do ano passado. Do que não volta.
Esqueço o caminho. O mapa. Perco a rota.

Te ligo pra lembrar de dizer que esqueci.
Você responde que o que eu esqueci, não era importante.
E eu digo que nunca esqueci de você;
mesmo quando corri em outra direção.
Tentando ficar distante.

Mas eu esqueci.
Esqueci que era tarde. Que chovia. Esqueci que parecia errado.
Esqueci que eu tinha medo. Que não sei falar com garotas. Que semana que vem tem feriado.
E que agora, eu não vou conseguir deixar de lembrar e talvez – só talvez – eu vá até ai. Uma passada, conferir como estão as coisas.
Vou mentir, se perguntar se eu fui só pra te ver.
E você vai mentir se eu perguntar se faz alguma diferença…

Acontece, que ontem eu acordei e tinha esquecido que você faz parte daquilo que já foi embora.
Então, o que sobrou, era tudo aquilo que você tinha deixado pra trás.
E agente só deixa pra trás o que não quer mais.
Uns livros. Umas roupas. Eu.

E disso eu lembro. Lembro de te abraçar.
Bem forte.
E você dizer que achava que eu já tinha ido.
Mais forte ainda.
E você se prende entre meus dedos e diz que ‘um dia, é um lugar tão perto de nós’.

Mas eu esqueci de me cuidar, só pra ver você ficar bem.
Esqueci que podemos escolher quem somos.
Que nossos medos, são a base do que um dia fomos.
E agora tá tudo certo.
Só que todos os dias, são como agosto. E isso me deixa louco.
E como louco, entenda que eu já esqueci o sentido do que eu digo.
Esqueci que antes de toda ponte, tem uma placa de perigo.
Mas que se a gente não arrisca, nunca vai saber.
E, de vez em quando, pode dar certo.
Vai saber…

E acho que esqueci da minha fé.
E que se eu não sei onde deixei o carro, agora vou voltar a pé.
E acho que esqueci, que todo amor tem um gosto.
E que de vez em quando, acho que esqueço meu nome.
Mas tá tudo certo – por deus – a gente nunca sabe pra onde ir mesmo,
e eu odiaria – então não deixa – não me deixa esquecer seu rosto.

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