Sobre o sim

28set11

Ela já tinha me dito ‘sim’ duas vezes.

O PRIMEIRO SIM:  já passava da meia-noite. E todas as cinderelas já tinham ido embora. Então só restava quem não tinha sapatinho de cristal. Nossa abóbora mágica era um carro mesmo e nossa fada madrinha estava no rótulo do absinto. O ADIOS AMIGOS do Ramones tocava no último, e todos nós só queríamos voltar pra casa.
O nosso tempo queimava como gasolina e tínhamos medo de envelhecer no mesmo lugar.
Quando eu acendi meu terceiro Marlboro ela chegou. Tinha aquele ar de quem pertence ao mundo todo, mesmo não sendo de lugar algum. Devia ter umas 5 ou 6 cores no cabelo e andava com a calma de quem sabe aonde vai chegar.

Sentou num canto, aonde o farol do carro quase não iluminava. E seu all star sujo denunciava que ela nunca fez questão de usar um sapato de cristal.  Porque depois da meia-noite é que somos verdadeiros. Antes disso somos só quem nossos pais querem que sejamos.

Eu levantei e fui até ela. Perguntei se podia sentar. ‘Apaga essa porra de cigarro’. Apaguei.
– Você está sozinha?
– Quem não está?
Ela tava certa. Somos todos solitários demais, longe demais.
– Você vai continuar em pé olhando pra mim? – ela perguntou.
Eu estava em pé mesmo. Olhando pra ela mesmo. Mas ela era tão bonita que minha vontade era de pedir seus olhos em namoro. E dizer o quanto eu queria ser pra ela, mais do que qualquer um já foi.
Mas a gente nunca cresce, só ficamos mais velhos e continuamos batendo contra o vidro.
E agora eu sei, ela era o vidro.
– Posso sentar?
– Você devia parar de fumar.
– Vou parar se você pedir.
– Vai mesmo?
– Desculpa, não. Só achei que seria legal dizer.
– Obrigada, por um segundo fiquei assustada com tanto poder.
– Acontece. Também tive medo quando te vi.
– Teve medo de mim?
– Tive medo do que vai acontecer comigo sem você.
Ela sorriu.
– Posso sentar?
– Sim.
Certa vez deus estava apaixonado. Ele ouviu um ‘sim’ e criou o sorriso dela.

 

PEQUENAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O SORRISO DELA:  te faz querer enfrentar o mundo todo se ela pedir. Te faz acordar e seguir em frente, não importa quantos tombos a vida tenha lhe dado. É uma flor que nasce na calçada. Você sente que o mundo ainda tem cura.

O SEGUNDO SIM: eu não fumava mais. E quase podia sentir os dias cantando as músicas mais felizes. Sim, as canções de amor faziam sentido. Era o começo da primavera, primeiro dia eu acho. Exatamente no mesmo dia, um garoto nasceu com asas e fugiu até o Peru. Foi a manchete de todos os jornais.
Eu acho que ele só queria ser feliz.

Era um daqueles dias em que a gente acorda sem saber o que dizer. Mas sabendo que alguma coisa precisa ser dita.

A gente tinha brigado. Por coisas que ninguém mais lembra. Eu liguei e pedi desculpa por coisas que eu nem sabia mais o que era. Ela falou que depois passaria por aqui. E eu entendi qual era o problema.
Ela chegou. Estava com uma camiseta de uma banda que eu não conhecia. Falou que me desculpava, que estava tudo bem.
Eu sabia que não estava.
– Você me ama? – eu perguntei.
– Amor é uma porra.
– Você me ama?
– Não quer sentar?
Sentei.
Ela olhou pra mim. Com os olhos mais lindos do mundo.
– Você faz tanta coisa que eu não entendo – ela disse.
– Como o que?
– Como me ligar, me pedir desculpa. Me dizer coisas que eu não mereço ouvir.
– Você não achar que merece, é diferente de não merecer.
– Mas eu sei que não mereço.
Então eu levantei. E sentei na janela.
Era no alto, algo como 13º andar.
– Você pode não falar sobre um monte de coisa. Mas é bem complicado guardar tudo ai dentro. Acontece que uma hora a gente cansa. Não digo por mim, digo por você. Uma hora você cansa de esconder e vai embora, fugindo de mim. Por que é mais fácil do que de dizer. Então é mais fácil ir embora agora se quiser. Vai poupar tempo.
Eu pensei que ela fosse embora. Pensei mesmo. Mas não. Ela veio até perto de mim e disse:
– Pergunta de novo.
– Você me ama?
– Sim.

Lá no céu, eu podia jurar que o garoto com asas estava passando. E o mundo todo girou em volta de si mesmo. E parou perto de nós dois. Naquele momento, onde eu prendia a respiração e seu sim ecoava pelas paredes da casa.

Ela já tinha me dito ‘sim’ duas vezes.
E eu digo sim, toda vez que ela olha pra mim.

Anúncios


No Responses Yet to “Sobre o sim”

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: