Fogo é como sonho

18set11

A luz pintava as sombras da parede da sala de estar. Era noite e ela só queria ficar sozinha. Já estava cansada de tentar gritar e ninguém nunca ouvir, então ela só queria ficar em silêncio. Mas é uma droga. Ninguém respeita teu silêncio. Quando você grita todos estão surdos, quando você cala eles derrubam a tua porta, tiram a tua roupa e mostram tuas verdades, como se você fosse um cão. Um cachorro vagabundo e maltrapilho que é chutado de porta em porta buscando por um pouco de atenção.

‘O mundo podia acabar’, era o único esboço de ideia que ela conseguia formar. Era noite, mas o céu estava laranja, as sirenes denunciavam que em algum lugar o fogo fazia presença. Ela não pode deixar de pensar que era engraçado, já que afinal tudo ali estava tão frio.

Pela janela ela enxergava as chamas, que se misturavam com as estrelas e formavam uma dança. Ligou o rádio e assistia tudo aquilo, como se estivesse na TV.  Abriu a janela e ergueu os braços, pegou a caneta da escrivaninha e regeu, como um grande maestro, cada passo de dança que o ballet tão brilhante e faiscante, cuidadosamente encenava. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que fazia parte de algo grande demais!

Um cachorro uivava, as sirenes gritavam. Mas ela sabia que estava tudo bem. Fazia parte do seu show. Era a sensação de liberdade, quando se tem o mundo todo entre teus dedos! E ela tinha toda certeza que nada fugiria do seu controle.

E então, como num sonho, quando estamos à 2 segundos de acordar. Tudo se foi. Apagou. A última centelha de vida estava dentro dela. Os bombeiros voltavam com a sensação de trabalho feito e ela fechava a janela, como se soubesse de um segredo. Ela não sabia as perguntas, mas ali estavam todas as respostas.
De vez em quando, quando a vida é muito injusta, alguma coisa muito boa sempre chega em troca. Acho que é uma forma de Deus compensar o vazio e a insignificância das coisas. E ela tinha certeza, que aquele era o grande o momento! – sem desculpas, sem ideais pela metade – Ela tinha o fogo do mundo todo dentro de seu coração e aquilo ninguém podia apagar!

Fechou todas as janelas, trancou as portas e apagou todas as luzes. Podia sentir-se queimando. Só aumentou o som! Pois o ballet estava dentro dela. Girava devagar, como quem tem a primavera toda pela frente.
Dançou tão rápido, que lentamente o fogo tomou conta das cortinas e dos móveis, mas nunca perdia o ritmo que a regente tão sabiamente ditava…

De longe, os bombeiros assistiram um novo prédio se desfazer em chamas. Tão rápido! Os vizinhos não sabiam o que tinha acontecido, mas nenhum deles nunca mais viu a garota que morava ali.  E algumas pessoas ainda podiam jurar que o fogo havia atravessado os céus e entrado todo pela janela. Como se seguissem um passo de dança, como se a vida toda tivesse prendido a respiração, pois as chamas faziam parte de um Gran Finale, da maior peça já escrita! E toda a existência terminava e começava ali, numa eterna repetição… Em que as pessoas podiam dizer ‘sim’, se quisessem voltar a sonhar novamente…

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