Comerciais

31jul11

Todo dia ele assistia TV.

Tantos filmes, tantas novelas. Prendia a respiração nas histórias que tanto lhe diziam a respeito. Como se na televisão estivesse toda a sua vida.
Acreditava nas noticias do jornal.

Decorava as vinhetas dos programas de auditório.

Ele só não gostava dos comerciais.
No comercial é quando a gente tem que olhar pro lado e encarar nossas vidas.

Nos restam poucas escolhas:

– podemos acompanhar os comerciais como quem vê um final emocionante de filme. E acreditar também em todas as balelas que eles quiserem vender. Seremos consumidores de coisas que não precisamos, em troca de nossa liberdade cerebral.

– podemos mudar de canal. Procurando alguma outra coisa que alimente nosso ego por alguns minutos.

– ou podemos nos encarar um pouco e tentar perceber porque a sala está tão vazia.

 

No comercial ele desistia.

Pedia para que peloamordedeus a terra o engolisse de uma vez. Até que começasse algum próximo programa, que calasse seu coração inquieto.

Nos comerciais nosso coração grita.
Por ajuda. Por acalento.
Coração é um filho prematuro.
Na verdade, é nosso primeiro parto. Que chora por atenção. Que grita por um pouco de paz.

E a gente aumenta a TV. Pra não precisar ouvir.

Menos no comercial.
Comercial é silêncio, é a pausa.
É como aqueles segundos antes de dormir, que você sem querer já pensou em toda sua vida e já criou mil imagens de como as coisas deveriam ser.

Ele fechava os olhos no comercial.
Podia sentir o coração correndo pra perto do seu.
Até que começou a perder o começo de todos os programas favoritos.
E logo todas as horas passavam como se fossem comerciais.
Sem filmes.
Sem novela.
Sem pornografia.
Qual seria o sentido de uma vida toda só de comerciais?
Então, ele desligou a TV.

E se ele for eu?
E se eu tiver desligado minha TV, pois já cansei de me encontrar numa tela vazia.

Os comerciais se repetem.
Eu me repito. Temos tanto em comum.

Me repito tanto, sem nada dizer.
Sem conseguir te olhar nos olhos (além da tela).
Como se eu tivesse medo de ainda estar em você.
Mas eu sempre estive.
Meu lugar sempre foi dentro do teu programa favorito.

Então, ás vezes, ainda passo todos os canais.
Pra tentar te ver um pouco.
Pra tentar lembrar como é a vida real com você.
Fora de todo e qualquer comercial.

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3 Responses to “Comerciais”

  1. “Coração é um filho prematuro.
    Na verdade, é nosso primeiro parto. Que chora por atenção. Que grita por um pouco de paz.”
    Depois disso você quer que eu fale mais o que? Coração de poeta…

  2. 2 soalgumasletras

    Me fez pensar mais que de costume… comerciais coisinhas chatas mesmo. Parecem até mais interessantes agora. Gostei, como sempre

  3. 3 Bih

    Eu tinha pensado em algo pra comentar aqui, mas a Inconstancy182 roubou minhas palavras.


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