O contador de estrelas

20jul11

Era uma tarde quente, daquelas que a gente não tem absolutamente nada pra fazer. Então eu me divertia andando pela praça. Crianças com suas mães. Cachorros. Vagabundos – como eu.

A primeira vez que eu o vi foi uns 3 dias atrás. No mesmo lugar. No mesmo banco. Ele só faz ficar sentado.

É um senhorzinho. Vestido com um terno que já deve ter sido muito bonito. Olha pro relógio de ouro em seu pulso e em seguida volta a parecer muito a vontade. Como se esperar fizesse parte das coisas.

Eu vou andar, volto. Saio de novo, vou nas lojas. E quando as primeiras estrelas começam a aparecer ele ainda estva ali. Então resolvi me sentar e puxar um assunto.

– Boa noite. – eu disse.

Ele apenas fez um gesto com a cabeça e deu mais uma olhadela no relógio de ouro.

– Desculpe – eu tentei de novo – mas o que o senhor está esperando?

– Um cretino…

– Por que cretino?

– Ele me prometeu uma coisa e eu estou esperando.

Ok, estavam enganando esse senhor. Que droga!

– O que ele prometeu para o senhor?

– Ele disse que me daria uma estrela!

– Ah… Ok senhor, ele disse que te daria uma estrela?

– Aquela lá em cima! – e apontou para uma estrela que brilhava fraquinha. – Ele me disse que era contador de estrelas e que tinha tantas que poderia me dar qualquer uma.

– E por que o senhor pediu aquela? Ela é tão fraca…

– Perfeita pra um homem velho como eu!

Ele parecia bravo comigo. Mas eu realmente tive pena. Alguém o tinha enganado. Eu não ia deixar que ele esperasse mais tempo aqui.

– Senhor, eu acho que esse homem o enganou.

– Não.

– Mas senhor, ele não pode te dar uma estrela.

– Ele não me enganou.

– Mas senhor…

– Não.

Ah, que coisa irritante! Então eu levantei pra ir embora. Mas percebi que ele olhava para aquela estrela.

– Por que aquela estrela?

– Porque não ela?

– Tinha tantas.

– Tinha ela.

– Existem mais bonitas, maiores, que brilhem mais.

– Não existe nenhuma como ela. Se você é insolente e não percebe a diferença sozinho, eu não tenho mais idade pra tentar te explicar.

Ok. Ele estava me irritando.

– Tudo bem senhor… Ela é linda…

– Eu não espero que você a veja como eu vejo. Pra você é só outra estrela. Sei disso. Não tente bancar o espertinho. Você é tão jovem. Os jovens sempre são espertos demais pra entender quando algo é realmente mais especial do que aparenta. Por isso sempre reclamam tanto…

– Tudo bem, mas senhor. Não existe um contador de estrelas.

– Como sabe?

– Por que impossível que alguém faça isso.

– Você o faz?

– Não.

– Já tentou?

– Não.

– Então se você não faz e nunca tentou. Para de ser arrogante.

Tudo bem, eu estava de saco cheio. Falei que ia embora, mas na ele deu um soco no ar e disse: ele chegou!

Sentado num banco na nossa frente estava ele. Um mendigo. Tinha ficado ali a tarde toda. Ele estava de braços cruzados e sorria. Parecia que tinha acabado de acordar. Se levantou e chegou mais perto…

– Finalmente! –  disse o senhor todo feliz. – Como foi de viagem?

– Ótimo…

– Que viagem? – eu disse – Ele estava dormindo o dia todo…

– Não. Ele estava contando as estrelas… Trouxe a minha?

– Eu sinto muito… Ela não pode sair de lá…

O mendigo também levava isso a sério.

– Ah, que pena…

– Sim, ela disse que tem que tem que olhar por você. De lá de cima…

– Ela cuida de mim?

– Sim. A estrela sempre foi sua. O senhor sabe disso. Ela só está um pouco longe. Mas sempre foi sua…

Então o senhor em abraçou. Disse que a vida era maravilhosa e foi embora. Ficamos eu e o mendigo. Eu olhei pra ele e perguntei:

– Por que aquela estrela?

– É a estrela da mulher dele.

– Ela morreu?

– Não se morre. Apenas vive nas estrelas.

– Ela vive nas estrelas?

– Ela cuida dele.

– Isso é verdade?

– Depende do que você acredita.

– Você conta as estrelas?

– Já tentou contar? Tem estrela pra caramba…

– Não, nunca tentei…

– Devia tentar… Devia encontrar sua favorita.

– Aquela que brilha mais?

– Se você diz…

– Tem uma estrela pra mim?

– Não sou eu que devo responder isso.

Então ele foi embora.
E eu sentei ali. Comecei a contar as estrelas. Cheguei no 100 e descobri que estava perdido. Não tem a ver com a contagem. Tem a ver com aquela que é mais perfeita pra você. Então percebi, tinha uma bem bonita…

E ela é minha estrela.
Você pode não concordar. Mas é aquela.

Sempre foi.

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One Response to “O contador de estrelas”

  1. 1 Taís Leonor Tedeschi

    Dann Parabéns pelo post, sabe no fundo todo mundo tem sua estrela… as vezes tbém ficamos procurando nossa estrela perdida, as vezes n tão perdida, só longe do nosso alcance…mas tão longe


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