Desconstruindo Danilo Teixeira

27maio11

(O cenário é simples. Uma cadeira, um quadro na parede. Uns objetos, como se fosse uma sala).

ATO ÚNICO

(Entra o Danilo Teixeira, que é feito por um ator mais forte e mais bonito que ele, ou até mesmo por uma atriz. Podia prender o cabelo e uma vez ou outra engrossar a voz e coisas assim. Mas, sempre imitando ele. Enquanto isso, Danilo, o diretor, tá sentado na platéia, com cara de homem inteligente, bem vestido)

Danilo Teixeira: E ai gente, boa noite. Como estão? Então, eu queria pedir pra vocês desligarem o celular e coisas assim… Entende? Pra não atrapalhar… (espera até o povo desligar o celular e tudo ficar quieto) Bom, essa peça é sobre mim. É como se fosse um tiro em minha cabeça, só que eu mesmo puxei o gatilho.
Pra quem não sabe, meu nome é Danilo Teixeira. Eu sou uma merda de escritor, sou uma porra de ator, pensando bem, sou um fracasso de um modo geral. No dicionário, se vocês procurarem a palavra Fracassado, vai ter minha foto ali. Sorrindo e acenando.
Mas sabe, todo mundo é uma merda. As coisas ruins sempre acontecem de forma seguida e a gente só vai caindo e caindo e caindo… Mas eu nunca achei que isso fosse motivo pra desanimar. É tudo questão de perspectiva, sei lá, tem gente que não entende que a vida é um pouco mais do que o agora. Olha tem uma piada ótima que é assim.. Nos anos 90 a Onu fez uma pesquisa no mundo com a seguinte pergunta: “DESCULPE, GOSTARÍAMOS DE SABER QUAL É A SUA OPINIÃO A RESPEITO DA ESCASSEZ DE ALIMENTOS QUE PREJUDICA O MUNDO”. Foi um fracasso a pesquisa. Depois de muito pensar, descobriram que o motivo disso foi dá dificuldade do povo de compreender a pergunta toda. Por exemplo, na Europa ninguém entendeu o significado de ‘escassez’, na Rússia ninguém entendeu o significado de ‘opinião’, na África não entendiam o que era ‘alimentos’, os EUA não entenderam o que queria dizer ‘prejudica o mundo’ e no Brasil ninguém sabia o que significava ‘desculpe’. (sem dar tempo do povo rir, a piada não é engraçada) Entendem? A gente já tem perguntas e em algum lugar estão as respostas. Mas a gente é burro pra caramba!
(Paralisa. Fica pensando). Saco, de novo. Cara, esqueci o texto!

(entra Danilo, O Diretor. E todos os gestos que ele fizer, Danilo Teixeira imita)

Danilo, diretor: Puta que o pariu! De novo! Hoje é a peça, você não pode simplesmente esquecer.

Danilo Teixeira: Claro, que posso. Texto ruim que você fez.

Danilo, diretor: o meu texto não é ruim. Fala sobre a complexidade de um ser humano.

Danilo Teixeira: Não, ele fala sobre você. Sobre sua vida idiota! Ninguém quer saber disso.

Danilo, diretor: Claro que querem! E você, para de me imitar!

Danilo Teixeira: Tô no personagem (muda a voz e começa a imitar um viado, até nos gestos) ou você é mais assim? Ai amor, você tá todo estressadinho ai, mas na verdade esqueceu o texto que eu escrevi. É o melhor texto da minha vida! Fala sobre a complexidade do seu humano. E você fica assim, falando que não presta. Minha vida é interessantissima, ok?

Danilo, diretor: eu não sou assim. Você não está mais me imitando.

Danilo Teixeira: ai amor, não irrita. Apaga seu foguinho e vamo continuar com a peça, eu vou sentar ali e vou dirigir você.

(Danilo Teixeira vai sentar-se onde o Danilo diretor estava).

Danilo Teixeira: (ainda imitando viado) Vai amiga. Começa. Não vai me dizer que esqueceu o texto?

Danilo, diretor: Eu só vou fazer isso, pra essa peça não ser um fiasco… (vira de costa pro público e começa a fazer trrrr pra aquecer a voz).

Danilo Teixeira: (volta a imitar o Danilo) Porra! (levanta da cadeira bravo) Começa! O povo tá esperando, devia ter aquecido antes! (começa a andar de um lado pro outro, falando muito rápido) Saco. Eu sabia que não podia contar com ele, agora tamo aqui e o povo tá parado, achando tudo aqui uma merda. Eu sabia que ia dar errado essa porra, desde quando comecei a escrever o texto, eu pensei ‘é muito confuso’, ninguém vai entender. Ninguém tá entendo mesmo.  (fala e fala sem parar) Tá pronto já?

Danilo, diretor: (tentando imitar a si mesmo, acaba exagerando demais em cada gesto) Era um domingo. Já passava das 7 horas da noite.

Danilo Teixeira: (com um texto na mão) era 8 horas da noite. Já passava das 8.

Danilo, diretor: Que seja. Passava das 8. Chovia pra caramba e ela andava na rua com um guarda-chuva (ela entra, com um guarda-chuva, uma enorme capa, botas e toda encolhida como se estivesse mesmo na chuva).

Danilo Teixeira: Espera! Essa não é a parte que eu finjo que dirijo?

Danilo, diretor: É.

Danilo Teixeira: Já volto.

(Danilo Teixeira sai correndo, Ela fica parada como se fosse estátua. Danilo Teixeira vai nos camarins e volta, com um cigarro nas mãos)

Danilo, diretor: Por que o cigarro?

Danilo Teixeira: Meu personagem fuma.

Danilo, diretor: Eu sou seu personagem.

Danilo Teixeira: Sim.

Danilo, diretor: Eu não fumo.

Danilo Teixeira: Ah… É mesmo. Você devia fumar. Combina com você.

Ela: Não, não fala pro Dan fumar. Odeio beijar cara que fuma.

Danilo Teixeira: Você tá beijando ele? Ai jesus.

Danilo, diretor: Qual o problema? Não sou um cara beijável? (bravo)

Danilo Teixeira: Claro que é! Quer dizer, se eu não fosse você no momento, eu estaria te beijando agora. Hei (falando pra ela) já que você beija ele, o que acha de me beijar?

Ela: Por que eu te beijaria?

Danilo Teixeira: Porque além de eu ser eu, tenho comigo também a melhor parte do Danilo. Você ganharia 2, numa só.

Ela: Hum… Faz sentido…

Danilo, diretor: NÃO! NÃO FAZ! E você nem tem minha melhor parte…

Danilo Teixeira: É verdade, você não tem nenhuma parte boa. Não tem como eu ter isso.

Ela: É verdade, você é problemático pra caralho.

Danilo, diretor: Hum?

Danilo Teixeira: Sente-se, vamos conversar.

(Danilo-diretor senta-se na cadeira, Ela guarda o guarda-chuva, tira a capa e de dentro da capa puxa um caderno e uma caneta. Ela e Danilo Teixeira ficam girando em volta, erguem seu braço, suas pernas. Mexem com ele, como se estivessem medindo).

Ela: (escrevendo) Cânceriano e acredita nessas coisas. Como se ter um signo de caranguejo fosse mudar alguma coisa em sua vida.

Danilo Teixeira: é, e por isso mesmo ele se acha na obrigação de ser sempre sensível. Só porque o horóscopo diz.

Ela: Que ridiculo. Ok, próximo… Se veste de forma estranha e tem atitudes estranhas. É meio irritante na verdade, ainda mais quando se acha engraçado, o que na verdade, ele próprio não passa de uma enorme piada sem graça. Nem minha vó sorri com as coisas que ele fala, isso que ela tem a dentura solta e sorri pra tudo mesmo sem querer.

Danilo Teixeira: Entendo. Anote aí: tendência à acreditar que todos precisam de sua ajuda, como se ele fosse capaz de ajudar alguém. É um fracasso, faz tudo errado e quer ajudar alguém!

Ela: escreve coisas sem imaginação alguma, como se fosse o grande cara cult do momento.

Danilo Teixeira: Cara, que vergonha, como você consegue beijar ele?

Ela: pra conseguir o papel.

Danilo Teixeira: Aaah… Ok, sem namorada e sem amigos.

Ela: Até tem uns 3 amigos, mas ele tão chato que logo vão desistir dele…

Danilo, diretor: CHEGA!

Danilo Teixeira: grita e nem percebe. Vira e mexe ele faz, isso é um saco.

Ela: é verdade. Ele é bem assim.

Danilo, diretor: Gente, vamos continuar com a peça! Eu escrevi, sou o diretor… Vai!

Danilo Teixeira: Como assim, você escreveu? Eu sou o Danilo Teixeira.

Danilo, diretor: Você só interpréta o Danilo Teixeira, eu sou ele.

Danilo Teixeira: Não, eu sou ele. Você tá tentando me imitar e está muito ruim, na verdade, eu não falo assim.

Ela: é verdade, você não está nada parecido com ele.

Danilo, diretor: Mas eu sou ele, quer dizer eu sou eu!

Ela: sabe, eu tinha me apaixonado por você. Mas não por você você. Descobri que gosto mais do você que ele faz.

Danilo Teixeira: viu, eu sou você, melhor do que você. Pensando bem, qualquer um pode ser. Você é tão ruim.

Danilo, diretor: (falando consigo mesmo) Tudo bem Dan, tudo pode dar certo.

Danilo Teixeira: Não me convence quando você diz isso. Parece tão desesperador.

Ela: é verdade. Você devia ser mais homem, sabe? Beber umas cervejas, arrumar umas brigas, jogar futebol… Quem sabe assim alguma garota goste de você algum dia…

Danilo, diretor: Garotas gostam de estereótipos?

Ela: não vejo nenhum problema se ele for bonitão tipo ele (apontando pro Danilo Teixeira).

Danilo, diretor: mas ele sou eu.

Danilo Teixeira: não, ninguém pode ser duas pessoas ao mesmo tempo. Você tem que se decidir, eu sou o Dan Teixeira e você?

Ela: é. E eu amo o Dan Teixeira, engraçado, que entende de livros e filmes e é escritor. Que é ele. Não você. Só um de vocês é o Dan e por mais que pra você seja dificil de aceitar, ele é um Dan muito melhor que você… Vamos.

Danilo Teixeira: (empurra o Danilo) e fique com seu cigarro.

(ela pega o Danilo Teixeira pelas mãos e eles saem).

Danilo, diretor: (olha pro cigarro em mãos) se eu não fosse eu, quem eu seria? Se eu não sou o mais forte. Se eu não sou o mais inteligente. Se eu não sou o mais engraçado. Se eu não sou o mais bonito. Sobra o que pra eu ser? Qual é minha lista de coisas que me fazem ser eu? Cânceriano? Nossa, acho que vou por isso no meu currículo.
Depois vou me inscrever naqueles sites de relacionamento. Pra, quem sabe, encontrar alguém tão sem alguém quanto eu. Sem alguém no sentido de não ter alguém pra ser. Já tentei resolver, fui no psicólogo e tals. Mas a gente só descobre que todo mundo é tão problemático quanto a gente. Tem aquela piada, sabe, o cara vai no psicológo e  fala:
– Doutor, eu sofro de dupla personalidade.
– Tudo bem, deite-se no divã, vamos conversar. Nós quatro.
É assim que as coisas são. Hoje a gente acorda de um jeito, amanhã de outro. E mudamos todos os dias. A coisa que mais me irrita é aquele cara que diz que não vai mudar, porque é o jeito dele, porque ele nasceu assim… Nasceu assim, vou dar na cara dele. Se ele nunca mudou desde quando nasceu ele é uma pilha, daquelas de controle remoto, na terra, esperando uns milhões de anos pra entrar em decomposição.
Tudo muda a gente. As pessoas, as palavras, a fome, a música, o amor… E se você cruzar os braços e disser que não vai mudar, você vai ficar maluco. Eu mesmo tô diferente de quando essa peça começou.
Sabe, sai da sua casa, derruba uma parede do seu mundinho e vai se arriscar. Vai morrer de amor um pouco. Só reclamar e reclamar não dá, simplesmente não dá.
Mesmo que estejamos sempre condicionados à ver tudo dar errado, eu acho magnifico aquelas pessoas que nunca deixam de sorrir. Sabe, não precisa sorrir que nem um besta, só sorrir. A vida é muito mais. Eu sei disso, você também. E… (as luzes se apagam)

Danilo Teixeira: (gritando lá do fundo) Vamo acabar logo!

Danilo, diretor: É, já passou da hora. Então, sejam felizes, isso é importante… (o Danilo Teixeira entra e começa a tirar as coisas do palco já) E, aproivetem, sei lá, só aproveitem… (falando com o Danilo Teixeira) Tira logo essa cadeira daí, quero uma conversa com toda a equipe agora.. Essa peça ficou uma merda…

(os dois saem)

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3 Responses to “Desconstruindo Danilo Teixeira”

  1. 1 soalgumasletras

    eu ri muito, fiquei imaginando você sendo você, e foi engraçado, pelo menos na minha cabeça. Foi divertido ver você discutindo com você haha’
    eu gostei (:

  2. Cara… pior que meu nome é Danilo Teixeira e eu sou ator e escritor! Tomei um susto quando comecei a ler! rs Mas engraçado, parabéns!

    • 3 Dan.

      Danilo Teixeira também? (:
      Prazer em te conhecer. haushas
      Obrigado, obrigado ter vindo ler. ^^

      Hum, tem blog ou algo assim? Mande pra mim.


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