Extremamente longe

13abr11

Joe foi demitido do cinema. O que é uma pena, pois já fazia 3 anos que estava ali. Na verdade, Joe passou por uma sequência feliz e revigorante de coisas boas, para depois iniciar sua queda livre ao fundo do poço. Ele, que antes era uma faz-tudo no cinema, apelidado getilmente de ‘Zé’ pelo patrão, logo conseguiu um emprego melhor. A partir do dia 15 de julho sua única função era colocar o filme no retroprojetor e apertar play. O cinema era um daqueles antigos, de rolo de filme e tudo mais. Mas mesmo assim. Joe achava absolutamente fácil. Foi demitido hoje, dia 18 de julho. E perdeu sua namorada e nunca mais falou com seus amigos, nem com seus pais. É Joe, quando as coisas pioram, elas pioram pra valer.
O Chefe. Cinema era o negócio da familia. Era do seu pai, que herdou do pai, que herdou do pai. E logicamente, em breve seria do seu filho, coisa que ele anunciava todos os dias. Ele era barbudo e gordinho, com um sorriso bondoso. Uma espécie de papai noel de terno e gravata. Acordava tarde todas as quartas e domingos, porque gostava de se entregar à alguns privilégios. Adorava aqueles filmes de bang-bang, com xerife, velho oeste e indios. Hoje é um grande dia pra ele, pois o Clint Eastwood escolheu seu cinema pra fazer a pré-estréia do novo filme! A propaganda do cinema vai subir às alturas. O chefe é assim, uma daquelas pessoas boas, que infelizmente acabam fazendo coisas ruins.
Marco. Um estereótipo de pessoas que não dão certo. Mora em algum lugar na quinta avenida, um prédio grande e barato que tem cheiro de gato morto e sopa cozida. Tem um filho pequeno de olho azul, igual à mãe. Ela era uma Hippie e sempre vai ser. Esse tipo de coisa nunca abandona a gente. Ela foi morta por um policial, enquanto se amarrava a àrvore do parque central, que algumas horas depois foi derrubada.
Karen tem 18 anos. Popular do colégio. Absolutamente linda. Sabe falar francês e coreano. Quando acabar a escola quer fazer uma viagem pela Europa e se apaixonar por lá, porque não está mesmo afim de voltar. Ela toma alguns remédios, anti-depressivos. Não é fácil, nem tranquilo, ser jovem nos dias de hoje. O mundo está acabando, você sabe. Mas cara, como ela é linda.
Natalia. Sua vida continua, na bilheteria e ás vezes fazendo pipoca. Ela e o Joe se acertaram, e namoram. Mas já sabem, hoje, dia 18 tudo deu errado. Ela diz que nunca mais vai se apaixonar, nem se entregar pra alguém! Eu acredito. Ela é uma daquelas garotas que sempre fazem o que falam, o que, ás vezes é um desperdício. Ela fala bem inglês, mas no fundo só quer ser bailarina.

CHEFE: Hoje era um grande dia! O Clint veio no meu cinema! A galera delirava, tinha gente até no teto. O filme não era tá bom assim, não tinha cavalos, só tiros. A noite teria sido perfeita se aquele muleque arrogante não tivesse apontado uma arma na minha cara e o Joe ainda o ajuda. Além de chegar atrasado, o Joe o ajuda! Vocês me entenderam? Demissão é pouco pra um muleque medíocre daquele, eu devia ter chamado a polícia. Mas ele me deu a casa dele e implorou que eu não falasse nada, vai morar na rua agora. Mal-agradecido!

KAREN: Hoje o Clint tava na cidade. Óbvio que eu precisava ir no cinema. Mas escondido. Se alguém na escola me visse lá, adeus reputação. Imagem é uma coisa dificil de se manter. Mas é necessário se quiser sobreviver.
No cinema tinha tanta gente que eu nem lembro direito o que aconteceu. Tinha um cara com uma arma. E eu não tomo meus remédios faz 4 dias. Então eu fiquei nervosa, eu precisava de ar. Tudo ficou escuro. Quando eu percebi, um cara que eu nem conhecia me levou pra algum lugar e eu acordei melhor. Acho que é só o que eu lembro.

MARCO: é a 4ª noite que meu filho não dorme por causa da febre. E eu, sem trabalho. Eu tenho uma arma, acho que esse deve ser meu emprego. Vi a estréia daquele filme no jornal , deixei meu filho numa lanchonete ali perto. E fui. Entrei pelos fundos e encontrei uma garota bonita conversando com um tiozinho gordo, eu pedi pra que meu filho pudesse ver o filme de graça, ele é fã do Clint. O gordinho riu da minha cara e falou que só por cima do cadáver dele, ok. Saquei a arma e na mesma hora um garoto veio falar comigo. Eu tava nervoso. Não entendi muito bem. Ele enfrentou o tiozinho, que dizia em chamar a policia, eu só pensava no meu filho. Então ele me tirou de lá. Tudo veio à minha cabeça, eu era um ladrão, quase um assassino, mas eu não queria. E eu tinha até uma arma! Que merda! Ele me deu uma chave e mandou eu ir logo e cuidar da minha vida. E eu fui. Desesperado. Mas ele, era um bom garoto.

NATALIA: Maldito! Maldito! Maldito! Hoje o dia tava perfeito. Tomara que morra, Joe, tomara que você morra! Eu vi ele saindo de uma sala com uma garota linda. Mandei ele se fuder na mesma hora. Eu pedi explicação e ele não sabia o que dizer. Maldito! Pra mim chega, amanhã mesmo eu vou embora, eu não quero mais isso pra mim. Nunca mais.

JOE: Eu moro numa casa alugada. Por um senhor esquisito. Faz 8 meses que eu não pago aluguel, tem cupim até no chuveiro. E sei lá, também não sobra dinheiro. Meus pais vieram me ver, meu irmão vai casar e ele pediu gentilmente que eu não aparecesse, a gente nunca se deu bem. Mas meus pais o defendem. Então mandei todo mundo se ferrar, eu já tava atrasado mesmo. Perto do cinema tinha um cara, com um menino, eu vi quando ele tirou a arma do bolso e corri atrás. Ele tinha um filho poxa! Não podia ser de todo ruim. Então pedi pro chefe não dizer nada. Ele queria me prender também, então mandei ele pegar minha casa. Não sabe que eu moro de aluguel. E, antes, dei minha chave pro cara e mandei ele levar tudo o que quisesse. Não sei porque fiz isso. A Karen tava desmaida, todo mundo sabe quem ela é. Eu sei que é uma daquelas garotas que nem sabem da minha existência. Mas eu ajudei e a Natalia viu eu saindo da sala com ela. Pensei em explicar, mas, agora ela vai embora, ser feliz. É isso que ela sempre quis… Ser feliz. Então, deixa ela correr atrás dos sonhos. Gosto muito dela, então, deixa ela partir.
Eu vou andar por ai, até achar um lugar pra ficar. Eu sempre achei que a vida ás vezes joga a gente contra a parede, só pra ver como fazemos pra escapar. Eu podia nem ter me metido nisso tudo. Faria mais sentido. Eu teria onde dormir agora. Eu acho que eu queria ter feito um monte de coisa. Mas é assim.
Pensando bem, já me arrependi de muito na vida. Mas não disso. Não, não disso.

E nessa noite ninguém vai dormir e, provavelmente nem na noite seguinte. Pois não vão conseguir parar de procurar sentido nas coisas que acontecem de forma tão desordenada, mas que sempre acabam nos dizendo quem somos e o quanto isso realmente importa. No fundo, é só sobre nós mesmos.

Para o Teago.

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3 Responses to “Extremamente longe”

  1. Joe um cara bom Karen lembraças não lembraveis desde o tempo que tudo não ou mudo
    Mas mesmo Joe é o um cara bom
    As Estórias se deslação e tudo nada mais é que talvez rotinas

    Foda Dan valeu

  2. 2 soalgumasletras

    Gosto desses seus personagens. Gosto mesmo.

  3. eu disse que você deve insistir no Joe


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