Minha vida devia ser um roteiro do Kaufman

21fev11

Eu sempre me apeguei demais às pequenas coisas.
Uma frase, um sorriso.
Sempre fui colocando na estante, pra ter um dia melhor.
Pra não esquecer.
Mas eu devia ter esquecido, devia não ter guardado.
Devia ter feito tanta coisa.
Agora o dia passa correndo, e volta a ser o mesmo amanhã cedo.
A única coisa diferente são os filmes que eu vejo.
Tão desesperadamente.
Mas o Tarantino não sabe.
Confesso que um ‘Kill Dan’ seria engraçado.
Mas teria um final óbvio.
Sempre tem.
Eu assisto e torço pra que tenham mudado dessa vez.
Mas, vai se repetir.
Então eu levanto e ando pela casa.
Ainda tá ali, na estante.
Gus Van Sant tem coisas demais pra se preocupar.
E Jackson já passou dessa fase de ser simples.
Então é outro dia e outro filme.
Semana passada eu ouvi o Lars von Trier chamar meu nome.
Disse assim: Danilo.
E terminou ai.
Já passei noites sem dormir, pensando no que ele quis dizer.
Por que agora eu me apego a qualquer esperança.
Qualquer ocupação pequena me parece uma chance.
Minha cabeça virou um local perigoso.
Acesso restrito.
Me concentro em amarrar o tênis, em escovar os dentes.
Se eu fosse o Tim, me perderia em minha cabeça fantastica.
Mas meu mundo não é assim.
Enquanto Coppola ri de mim, Scorsese me convida pra jogar na roleta russa.
Só que tem nova regra: a arma sempre está em minha direção.
Então eu tento fazer meu filme.
Mas todos os personagens são, drasticamente, parecidos comigo.
E o roteiro é o mesmo.
É como se eu escrevesse o que vai acontecer em minha vida, dá pra entender?
Como se esse texto que você lê agora, fosse um pequeno clímax de um filme que eu também estou escrevendo.
E isso faz parte da história.
Mas é uma repetição eterna.
Quando eu for deitar, amanhã volta a ser hoje.
E depois de manhã, vai ser igual amanhã.
Só muda os dias do calendário.
Se eu soubesse, cantaria outra canção.
Hughes já foi bom.
Nolan me manda calar a boca.
Eu já falei demais, já pensei demais, já senti demais.
E se ainda tiver amor depois disso tudo…
Cara, é a última coisa que eu quero saber.
Quantas vezes alguma coisa pode dar errado até a gente pensar em desistir?
Eu não sei a resposta.
Mas os filmes ensinam a sempre tentar.
Até que posso prever, daqui a uns anos.
Olhar no espelho e ver Woody Allen.
Falando que no fundo eu sou igual ele.
Olhar pra trás, pra minha vida toda e ver tudo que eu errei.
Com todas as besteiras que eu fiz.
Com todos os amores que eu machuquei.
E deixei no chão.
Por puro egoísmo, prendi.
Pra fingir que assim, eu não vou estar sozinho,
por ter alguém pra se importar comigo.
Próximo filme.

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3 Responses to “Minha vida devia ser um roteiro do Kaufman”

  1. 2 anaspera

    Amo textos assim.

  2. Você tem razão quando diz que parece que é você que escreve seu filme. E é, o acaso faz os efeitos especiais, mas o cineasta e protagonista somos nós mesmos. É a gente se escreve. Se a gente preenche o roteiro com as mesmíces, o nosso filme é inerte. Às vezes a gente tem que fazer o que a gente quer… às vezes a gente tem que fazer algo que a gente nunca fez, algo novo, que renove, que traga um novo clímax à vida


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