Dois sozinhos na multidão

18fev11

Eu estava só de passagem, era uma festa, com gente demais, até no teto! Eu só estava ali porque minha carona também estava, então eu fiz a coisa que me pareceu mais sensata, sentei. E assisti meu amigo levar uma garota pra algum lugar qualquer.
Olhei em volta, ninguém parecia interessante, todos bêbados e idiotas demais, dançando coisas que nem eles sabiam. Talvez eu que seja idiota por ter nojo disso tudo. Talvez eu deva me misturar, fazer coro a multidão. Então eu tinha um problema importante nas mãos, beber até ficar insuportável igual ou, simplesmente ficar sentado me sentindo o excluido da festa.
Então eu vi uma garota. Bonita, num vestido preto. Ela dançava, mas era diferente. Ela não parecia igual os outros. Resolvi ignorar a vontade de conversar com alguém e sai pra andar.
De fora eu podia ver as estrelas. Todas.
– Eu já tentei contar uma vez.
Olhei pro lado, era a garota que estava dançando.
– Hum, até que número chegou?
– Não lembro, acho que nunca passei do 50, eu me perdia nos desenhos que as estrelas faziam.
‘Legal’, eu pensei, era louca. Realmente louca. Resolvi a ignorar e olhar pro céu novamente.
– Você não parece querer estar aqui.
– Talvez eu não queira.
– Então por que tá aqui?
– Preciso esperar minha carona.
– Ah sim, olha eu não queria te dar essa notica, mas as pessoas acham que você é louco.
– Por que?
– Sei lá, deve ser porque você é o único cara que está numa festa de 16 anos com uma camisa de banda.
Der! Agora fazia sentido porque as pessoas me olhavam estranho. Lá estava eu, numa festa de 16 anos com uma camisa do The Strokes e meu all star sujo. Olhei pra ela, linda no vestido e me senti o cara mais estranho do planeta. Mas mesmo assim, dúvido que alguém ali soubesse quem é The Strokes.
– Ok, eu vou dar uma volta no quarteirão.
– É, eu acho bom, minha amiga tava pensando em chamar a policia pra você.
– Ah, obrigado… Eu acho, tchau.
Eu sai, pela porta da frente. Ela veio atrás.
– Eu vou junto.
– Não precisa.
– Olha, se você for gay eu entendo, mas você realmente podia parar de tentar se livrar de mim.
– Não, não é isso…
– Relaxa garoto, eu só quero andar, quero alguém pra conversar.
A gente deu dois passos e ela perguntou:
– Ok, qual o nome dela?
– Nome dela quem?
– Da garota, que deixou você assim.
Eu pensei em dizer muitas coisas. Pensei em dizer que ela não tinha nada a ver com a minha vida, ou que ela era louca, ou pensei também, em simplesmente dizer o nome da garota. Mas preferi mentir:
– Ninguém.
– Não mente pra mim.
– Ok, ela era uma garota e foi só isso.
– Odeio isso.
– Isso o que?
– Essas garotas, que são só garotas. Já conheci muitos caras assim, que eram só outros caras.
– E qual deles te deixou assim?
– Assim como?
– Assim. Você não parece ser o tipo de garota que vai entregar seu coração pra alguém, mesmo que ele seja um cara certo. Você vai pular antes.
– Você é o cara mais deprimente que eu conheço.
– Tô certo?
– Não gosto de admitir essas coisas.
– Gosto quando tô certo.
– …ela não era só uma garota, né?
– Acho que não.
– Imagino, ela deixou você maluquinho. E depois deixou você.
– Obrigado por isso. Sei lá, gosto de pensar que ela só lembrou que tinha coisa melhor pra fazer. Eu tenho uma teoria, existe um tipo de garota que pode ter o cara que quiser, quando quiser. É raro esse tipo de garota, não pode ser apenas bonita. Tem o sorriso certo, as palavras certas, o brilho no olhar. Algumas, passam a vida inteira sem perceber que são assim. E se apaixonam e são felizes com os caras mais estranhos, outras percebem.
– Ela percebeu?
– Acho que sim. Daí eu entrei no velho clichê do ‘por que ela se apaixonaria por mim, mesmo?’
– É um inferno.
– É. Acho que ela tinha vergonha de mim também.
– Como alguém pode ter vergonha de você?
– Pergunte para os seus amigos naquela super festa.
– Você não gostou da festa?
– Por que eu gostaria? Pessoas idiotas e bebadas, dançando músicas idiotas, fazendo coisas idiotas. Vestindo roupas que ninguém gosta, garotas chorando por causa de um cara. Festas servem pra gastar nosso amor-próprio.
– Obrigada pela sinceridade, eu falei pros meus pais que eu não queria festa.
– A festa é sua?
– Uhun.
– Ah… Foi mal… Feliz aniversário.
– Obrigado.
– Então, se a festa é sua, por que você veio falar comigo?
– Sei lá, parecia o cara mais legal de lá. E outra, eu conheço esse olhar.
– Que olhar?
– Esse olhar que você tem. Eu também faço teorias. E você tem um olhar, que é tipo ‘por favor’ alguém me salve daqui. Como se esperasse que alguma coisa de bom surgisse dos céus e fizesse sua vida valer a pena. Primeiro eu pensei que você só queria sair da festa. Mas agora eu entendo, que você realmente precisa que alguém te salve.
– Eu preciso de alguém que lute por mim. Eu sei que não sou fácil.
– Tudo bem, eu também não sou. Você tava certo sobre mim. Se eu começo a gostar mesmo de um cara, eu corro o mais longe dele que eu puder.
– Comigo é quase assim. Mas, se eu começo a gostar das pessoas, elas sempre dizem que é hora de ir embora. Por uma vez, só por uma vez, eu queria que alguém dissesse que pode ficar mais um pouco.
– Ok, me sinto uma péssima garota agora.
– Não se sinta. Você tá certa. Correr e fugir, tentar evitar, é a melhor chance de conseguir escapar. Antes que doa demais.
– Mas você já se sentiu incompleto? Eu me sinto. Mas não é uma parte super importante, é como um teclado sem a letra Y. Quando você menos esperar, vai notar que não está ali.
– A não ser que você chame Yan, ou Yoko, ou Yolanda… Esses sentiriam falta do Y.
– Sim, tem sempre uns desesperados que têm essa sorte. Acho que eu sou assim, me chame de Yoko. E você é um Yan.
– É, somos dois desesperados andando pela rua. Somos duas vitimas do mesmo erro. Mas, acredite, não somos especiais por isso…
– É eu sei.
– Pelo contrário, somos dois sozinhos na multidão.
– Isso tem um lado bom.
– Qual?
– Pelo menos somos Yan e Yoko. Eles são deprimentes, o Y é importante no teclado deles, mas, quando voltarmos pra festa, seremos de novo nós mesmos.
– E isso muda alguma coisa?
– Muda tudo. Talvez fossemos Yan e Yoko antes mesmo de sabermos. Há anos talvez. E daqui a pouco podemos mudar isso. O Y pode ser só um detalhe se quisermos.
– E isso quer dizer o que?
– Que eu vou entrar na minha festa agora e vou continuar dançando no mesmo lugar. Você pode entrar se quiser, ir embora se quiser, sentar se quiser, ou deixar o Yan pra fora e ir falar comigo se quiser.
Ela entrou.
Eu fiquei ali fora um pouco e resolvi entrar também, o povo ainda dançava e estava ela lá no meio, sorrindo, linda. Sentei um pouco e pensei ‘porra’. Então me levantei, andei por entre aquele povo estranho, parei ao lado dela, peguei em sua mão e a segurei bem forte por entre meus dedos. Ela sorriu.

Anúncios


2 Responses to “Dois sozinhos na multidão”

  1. 1 Bihh

    Ahh, que fofo *-*

    E sim, eu conheço The Strokes o/

  2. *-* adoro ler seu blog


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: