As sirenes pintavam as paredes idiotas

15fev11

Jude veio me procurar.
Falou que precisava conversar e não tinha mais ninguém.
Sei bem como é.
Ninguém nunca quer te ouvir de verdade.
Mas não é por culpa das pessoas.
Não, elas simplesmente não se importam.
Não é a vida delas.
Então, uma coisa que Amélie me ensinou é ouvir verdadeiramente as pessoas.
Jude sentou do meu lado, abaixou a cabeça.
Tinha aquele ar de quem está se segurando pra não entrar em desespero.
Como se tivesse carregando o mundo nas costas.
Acendeu um cigarro, falou que não tinha pra onde ir.
– Como assim?
– Sem casa. Me expulsaram porque não paguei o aluguel.
– O que você fez com a grana?
– Tô guardando, pro meu Camaro.
Tudo bem.
Eu entendia ele.
Acho que é um pouco como eu me sentia em relação ao Sal, ou à Tv.
É toda nossa esperança pra não ficar louco e sozinho nesse mundo.
Então, lá estava eu, levando o Jude pra passar uns dias comigo.
E nem mandei ele balangar pra mim em troca.

Eu dormi no sofá com o Sal.
E o Jude roubou um colchão do seu antigo apartamento.
Essa noite chovia bastante.
Mas tava tudo bem.
Os raios faziam desenhos legais com as sombras na parede.
E eu sei que é besteira, mas eu via seu rosto ás vezes.
Sei lá, talvez fosse quando eu fechava os olhos.

No meio da madrugada eu comecei a ouvir um barulho de sirene de policia.
Parecia no minimo umas três.
A luz vermelha deu cor para a  parede e os carros pararam ali mesmo, em frente ao prédio.
– Jude. Jude. – eu chamei.
– O que é?
– Você já matou alguém?
– Não.
– Já estuprou?
– Não.
– Você é procurado pela policia por algum motivo?
– Não cara, por que?
– Nada, relaxa, dorme.

Mas logo ficou impossivel dormir.
Os passos pesados dos policiais tomaram conta do quarto.
E enquanto eles subiam as escadas eu e Jude estavamos sentado, olhando fixamente pra porta.
Abracei o Sal.
Mas eles passaram reto e foram bater na porta do fim do corredor.
Eu nunca vi a pessoa que mora ali.
Eu sei que ele tem um filho e que todo dia uma babá vem cuidar da criança.
É um menino bem legal.
Eu e a Amélie ás vezes sentavamos  no corredor e ele trazia uns carrinhos pra a gente brincar.

Os policias batiam e nada.
Então só ouvimos o barulho da porta sendo chutada e despedaçada.
Na mesma hora o menino começou a chorar.
Eu e o Jude nos levantamos e abrimos a porta uns dois dedinhos.
Tinha 3 guardas no corredor e 2 lá dentro.
Passou uns 2 minutos e um dos guardas saiu trazendo um cara loiro e grande.
Era o pai do garoto, tinha os mesmos olhos.
Ele estava de cabeça baixa e o policial apontava uma arma pra sua cabeça.
Logo atrás vinha o garoto chorando, e o outro guarda o arrastava pelo braço.
Gritava pro menino parar de chorar.
E como o menino não parava, levantou a mão e bateu com força na cabeça dele.
O pai virou pra brigar mas tinha uma arma na cabeça.
Quando eu olhei pro lado o Jude já estava no corredor, batendo na cara do guarda.
Eu respirei, coloquei o Sal no chão, encostei a porta, pensei ‘porra’ e mirei um murro no primeiro guarda que eu vi.

É a primeira noite que eu passo na cadeia.
O delegado falou que seriamos soltos de manhã cedo, se prometessemos não divulgar que o guarda agrediu a criança.
O Jude falou que iamos contar pra todo mundo mesmo assim.
O delegado mandou ele se danar e nos trouxe pra cela.

Eu estava sentado na parte de baixo de um beliche agora.
O Jude dormia em cima e o Guile andava de um lado para o outro.
Guile é o pai do menino.
Depois que a gente entrou na briga, ele conseguiu esmurrar bem uns dois guardas.
Depois um deles sacou uma arma.
O menino foi levado pro juízado de menores e o Guile mandou ligarem pra babá.
Ele falou que vai ficar um bom tempo preso.
Resolvi não perguntar.
Mas fico pensando, ele parece ser um cara bacana.
O que um homem faz pra merecer estar preso?

Às 7 da manhã um guarda foi nos tirar de lá.
O Guile ainda andava de um lado pro outro.
Olhou pra gente, sorriu e murmurou um ‘obrigado’.

As ruas já estavam cheias de gente.
E o Jude dizia que estava faminto.

Eu entendi que talvez eu tenha perdido algumas coisas.
Sabe, coisas que ficam pra trás.
Mas ali estava o Jude.
Pra me lembrar que eu não sou sozinho.
É mais do que minha tv, é alguém de volta.
Um amigo.

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2 Responses to “As sirenes pintavam as paredes idiotas”

  1. Eu adoro essas histórias *-* E tem um toque de inconformismo com as injustiças, isso faz meu coração pulsar e pensar: cara, eu amo esse cara sobre quem o Dan escreve.

  2. 2 Suh

    Adorei*-*


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