1, 2, 3… não me deixa cair.

29nov10

Tinhamos um jogo. Eu e ele. Eu tirava os sapatos e subia no muro, abria os braços e dizia que eu era a equilibrista, fechava os olhos, me abaixava, ficava em um pé só e ele embaixo, morrendo de medo. Era um muro pequeno, talvez pouco mais de um metro mas mesmo assim ele morria de medo. Então eu fazia pose, tipo bailarina e na ponta dos pés eu contava ‘ 1, 2, 3…não me deixa cair’ dava passos e pulava, ele sempre me pegava no colo e enquanto me beijava, dizia algumas coisas sobre eu ser maluca.
Um dia deu errado, choveu muito. O muro estava liso, ele pediu pra eu não subir, mas eu fui mesmo assim. No segundo passo eu escorreguei, sorte que ele estava esperto, sorte que ele estava ali por mim. Eu caí de qualquer jeito por cima dele e nós dois fomos pro chão, eu sei que ele me salvou ali, eu sei que eu teria ido de cabeça até o chão. Talvez pareça exagero, mas só eu sei (e ele também) o quanto eu teria me machucado pra valer naquele dia.
Ele brigou comigo, brigou muito. Falou que eu estava realmente louca e de tanto que brigou, eu acabei esquecendo de agradecer. Eu pensei que um dia eu teria a oportunidade de agradecer, é engraçado como superestimamos o ‘pra sempre’, pois quando eu pisquei os olhos ele já estava indo pra onde eu não poderia alcançar. Primeiro só foi estudar, depois trabalhar e quando dei por mim, já não me dizia mais o quanto me amava. Entende?
Daqui de cima é fácil ter uma idéia geral das coisas. Eu lembro, quando ele começou a ficar distante, ele disse que era só eu contar até 3. E ele sempre estaria aqui pra me pegar. E foi assim mesmo, ele atendia minhas ligações na madrugada, ele respondia minhas cartas. Um dia eu perguntei se ele não estava cansado de mim, ele disse que talvez só não conseguiria me pegar, se eu errasse os passos de novo.
Até que no verão de 98, eu lembro bem, ele foi viajar pra mais longe. Disse pra eu esperar. Eu esperei. Esperei durante muito tempo. Mas ele não voltava. Minha mãe ficou doente e pela primeira vez eu me senti realmente fraca, os dias se misturavam e eu não sabia dizer a diferente entre meia-noite e meio-dia. Pelas paredes brancas todos os dias pareciam inverno. Enfim quando ele voltou, eu estava tão brava que a primeira coisa que fiz, foi bater na cara dele. Disse o quanto eu o odiava.  Vocês podem entender?
Minha mãe diz que eu fiquei louca depois, não sei o que dizer. Ele não respondia minhas cartas, não me ligava. Não passava mais por aqui.
A última vez que falou comigo, foi pra dizer ‘viva a sua vida’. Viva a sua vida. Como mesmo? Eu devia ter pedido pra ele a devolver pra mim. Mas não, fui viver de qualquer maneira. Em qualquer lugar.
Me casei e mandei pra ele o convite, escrevi em baixo ‘estou sendo muito feliz’. Ele não veio. Ele nunca mais veio.
Então, hoje eu entendi o problema de tudo, daqui de cima é mais fácil ver. Já tirei o sapato. Eu tinha parado de contar, por isso você não vinha mais, agora eu sei, você vai estar aqui pra me segurar. Sei que vai… ‘1, 2, 3… não me deixa cair.’

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4 Responses to “1, 2, 3… não me deixa cair.”

  1. você escreve bem no feminino. brinks
    é lindo *-*

  2. 2 anaspera

    1, 2, 3… não me deixa cair…
    >< *elevaiaparecerelevaiaparecerelevaiaparecer*

  3. 3 soalgumasletras

    lindo, eu gostei (:

  4. 4 Suuh

    adoreeii *–*


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