A triste história do menino que tinhas asas

15nov10

“Mãe, por que eu tenho asas?”, essa foi a primeira pergunta que eu lembro de ter feito. Eu tinha 3 anos na época e precisava usar roupas grandes demais, para esconder aquelas asas que começavam a nascer em mim. Ela só me olhou, com os olhos cheio de amor e ternura e falou que um dia, daqui alguns anos talvez, eu iria entender.
Minha mãe é linda. A mulher mais linda do planeta. As vezes acho que ela parou no tempo e sua beleza é eterna. Moramos só eu e ela, numa casa pequena, nossos vizinhos vivem brigando, não é algo legal. Geralmente eu acordo no meio da noite, ouvindo eles  gritarem coisas horriveis um para o outro.
Acho que passei boa parte da minha infância sozinho, minha mãe dizia que eu não devia me envergonhar de minhas asas. Poderia esconde-las, se quisesse, mas um dia, tudo seria diferente. Eu só queria ser igual. Só queria poder brincar, correr.
Um dia, eu conheci uma garota. Mel. A melhor coisa que eu posso dizer sobre ela, é que ela é realmente doce como o mel. Eu era novo, mas gostei dela. E viramos amigos, nunca entendi porquê, mas ela parecia gostar de estar perto de mim. Até que eu resolvi que não deveria mentir pra ela, me parecia errado. Então eu mostrei e ela foi a primeira pessoa ver minhas asas. Lembro dela dizendo que eu era um monstro e quando cheguei chorando em casa os vizinhos estavam gritando e minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Eu falei. Ela sorriu, falou que eu cresci.
Então perguntou: Se você pudesse fazer as pessoas amarem de verdade, você faria?
Entre lágrimas eu falei que sim. Então, de algum lugar, ela tirou um arco. Um lindo arco de madeira. Ela disse que eu deveria usar, porque assim o amor verdadeiro nasceria e as flechas, ela falou que eu sempre teria.
Assim eu descobri o que eu era, qual era a minha função para este mundo. Porque todos nós temos um motivo. Alguns nascem para dançar, alguns para serem revolucionários, outros para escrever. Eu nasci para fazer o amor nascer.

Acabei de contar minha história. Olhei pra frente. O senhor estava dormindo. Ele tinha me parado na rua, dizendo que queria ouvir minha história. E agora dormia, com os lindos olhos azuis fechados. Bom, tenho mais o que fazer.
Me levantei, abri  minhas asas e voei. Depois que ganhei o arco de minha mãe, sai da escola e aprendi a aceitar minhas asas.
As pessoas nem notavam que tinham um anjo entre elas. Só as crianças e os idosos. As crianças ficam maravilhadas, até crescerem e se tornarem cegas, os idosos me confundem com a morte. Amor e morte, talvez tenha um pouco a ver, se parar pra pensar.
É muito fácil saber a quem flechar. É sempre óbvio, só as próprias pessoas não percebem. Não sabem sentir quando o amor esta por vir e as vezes, até depois das flechas, são idiotas demais para aceitar e deixam o amor verdadeiro passar. Fico feliz em não ser todo humano.

Parei no telhado de uma escola. Não sei como acontece, mas eu sempre sinto onde devo estar. E ali tinha uma garota chorando de cabeça baixa, desci devagar ao lado dela, ela não iria me ver nunca, estava preocupada demais com outras coisas. Olhei para seu rosto e meu coração parou, ali estava a Mel, anos depois, com os mesmos olhos e mesmo sorriso de criança. Tive vontade de abraçá-la, mas eu sabia o que fazer. Primeiro atiraria nela e depois em mim. Era tão simples. Eu poderia ama-la como ela merece.
Puxei a flecha e mirei bem em seu coração, mas neste exato momento ela ergueu a cabeça, um cara passava, sem nem olhar para ela e ela chorou mais ainda. Enfim entendi, minha mãe já havia flechado a Mel faz tempo. Virei o arco na direção do garoto e atirei, logo depois sai correndo, pra longe dali.

Voei por muito tempo. Por muito tempo sem entender como as coisas são. Só queria seguir, entregando para as pessoas, tudo aquilo que eu não podia ter.
Um dia voltei pra casa, minha mãe estava ali. Linda como sempre. Eu perguntei por que ela tinha feito aquilo, não era justo. Por que ela tinha dado amor para a Mel?
Minha mãe olhou pra mim calmamente e disse: Eu dei amor ao coração dela, no mesmo dia em que ela te conheceu. Desde menina ela sente, o que muitos adultos jamais sentiram. Mas você fugiu e deixou escapar, ela era só uma menina para entender sobre as asas, mas mesmo assim, gostou ainda mais de você.
Então eu voei, voltei pra cima do telhado, de onde, ali de cima, eu podia a ver sorrindo. E quase posso ver, a marca da flecha do amor. Que faz cicatriz que o tempo nunca vai apagar.

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3 Responses to “A triste história do menino que tinhas asas”

  1. 1 Marcela

    to com raiva de vocês, mas continuo amando seus textos, DBSAHGFUHSUHSDB
    lindo demaaaaaaaaais

  2. 2 Suuh

    mtoo liindo *-*

  3. é lindo *-*
    mesmo.


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