Dragões, flores e toda uma vida (ou mais).

12out10

Ela começou pelo guarda-roupa, tirou todas as roupas e colocou em cima  da cama. Começou a dobrar e guardar novamente uma por uma. Todas as camisetas, blusas, cada uma parecia mais pesada que a outra, de tantas lembranças. Mas ela concordou que isso foi fácil, foi só por tudo no guarda-roupa e fechar bem fechado.
Depois arrumou a cama, sentiu o cheiro dele no seu travesseiro. ‘Que idiota’, ela pensou, pois ele nunca havia entrado em seu quarto. Então porque o cheiro dele estava ali? Depois de arrumar a cama, sentou-se no chão. Cruzou as pernas e começou a abrir as gavetas, sentia que era hora de jogar algumas coisas fora. Mas, deixou aquela gaveta de baixo por último. Lá estava as suas cartas, embrulhadas em papel de presente e, algumas outras coisas, em uma bonita caixa. Mas não podia mais evitar, pegou a caixa, colocou na cama e logo depois pegou o embrulho de presente, grosso de tantas cartas.
Ela é uma garota bonita, linda na verdade. Sempre teve muitos fãs, mas dificilmente gostou de algum deles, não sentia-se bem com esse tipo de coisa. Até que ele apareceu. Não prometeu nada, não precisou. Ela não sabia exatamente o porque de gostar dele, mas podia apostar que tinha alguma coisa a ver com seu olhar.
Sentou-se na cama e olhou em volta. Janela aberta, computador, violão. Tudo parecia diferente, sem graça. Respirou. Pegou o envelope com as cartas e virou na cama. Todos aqueles papeis cairam e por cima de todos, um dele. Ela reconheceria aquela letra feia de longe. Riu, riu muito. Riu tanto que chegou a sentir raiva, que pegou a carta dele e atirou pela janela.
– Ai!
Ela pensou e um pouco e correu para a janela. Ali no seu gramado estava um senhor, passava uma mão pela cabeça e com a outra, ele lia a carta.
– Hei, senhor. Minha carta, desculpe, pode devolver?
– Agora não menina! – disse ele concentrado. – Você a jogou em minha cabeça, eu tenho o direito de ler.
Ela ficou ali, sem reação, esperando o senhor ler.
– Esse rapaz gosta muito de você.
– Sim eu sei…
– Você gosta dele?
– Não sei.
– Entendo.
Ela não entendeu porque foi tão fácil responder pra ele. Era estranho, claro. Mas sentia que talvez precisasse conversar e sentiu-se bem ali, conversando com aquele senhor. Tanto que começou a dizer:
– Eu o amei. Muito eu acho, mas do que eu poderia aguentar. Quando eu o via, eu ficava sem ar, tropeçava em meus pés e todo o mundo parecia mais feliz. Mas ao mesmo tempo eu odiava me sentir assim, me sentia vulnerável. Era como se preparar para lutar com um dragão e descobrir que sua espada virou uma flor vermelha. E flores não matam dragões, flores não fazem nada.
– Ah… e o que aconteceu depois?
– Eu decidi que não iria lutar usando flores como arma. Fugi dos dragões e resolvi que talvez eu devesse deixa-lo de fora da minha vida.
– O que não adiantou, não é?
Ela pensou. Era estranho, pois até cinco minutos atrás, tinha certeza que o tinha esquecido e sentia-se mal por isso. Ela olhou para o senhor, ele sorria. Então ela disse:
– O senhor acredita no pra sempre? Quer dizer, ele nunca vai me deixar aqui sozinha, só com flor e dragões?
Eles se encararam por uns segundos, o senhor sorriu.
– E se tivesse um modo de decidir isso? – ele rapidamente puxou algo do bolso e ergueu para ela ver, era uma grande quadrado preto, com uma espécie de botão vermelho, bem no meio – Você está vendo isso? Eu o chamo de “controle do pra sempre”. Faça-o apertar o botão e o amor de vocês durará o resto de suas vidas.
Ela olhou aquilo e por algum motivo, que ela também não sabia explicar, acreditou. E ficou maravilhada com a idéia. Era só fazer ele apertar o botão e todos os medos dela poderiam ir embora, pois ele estaria para sempre ali.
O senhor deixou a carta ali no chão e colocou o controle em cima. Foi embora. Ela desceu correndo as escadas até o gramado e pegou o controle com as duas mãos, sentia-se maravilhada.
– Oi.
Ali estava ele. Parecia sem graça. Ele ia dizer alguma coisa, mas ela levou o controle até sua direção. Ele olhou para o chão.
– O que minha carta está fazendo ali? Você a jogou fora?
Ela olhou para trás, ali estava a carta, ela tinha esquecido. Como pôde? Tudo bem, era só fazer ele apertar o botão e tudo ia ficar bem, mas…
– Se um dia eu fosse atacada por um dragão e eu tivesse só uma flor pra me defender, o que você faria?
– Eu.. – ele olhou meio confuso, mas viu que ela falava sério – eu seria sua espada e seu escudo. Eu não deixaria nada te acontecer… Olha, me desculpa por tudo. Sério.
Ela olhou pra ele, sentiu-se idiota. E confusa. Olhou pra aquele negócio em suas mãos e o atirou longe. Não sabia se entendia ainda, mas tinha certeza que gostava dele, que não era só olhar dele, nem só o sorriso, era mais do que ela poderia entender. Correu o abraçar. Agora ela sabia, sabia que ele não estaria para sempre ali. Que algumas coisas ela precisaria enfrentar sozinha, mas que pelo menos contra os dragões, ela não precisaria se preocupar. Ele sempre estaria ali por ela, não precisaria duvidar. E essa é toda a verdade.
O controle do pra sempre faria eles se amarem pela vida toda. Mas e se uma vida for muito pouco? E se, dessa vez, para ela, as flores forem o bastante? As vezes, os dragões servem para nos lembrar que a vida nem sempre é linda. Mas também, tudo seria muito fácil e chato sem eles. Ela o abraçou mais forte. Talvez tudo mudasse depois, mas, por um futuro próximo, ela podia prever que tudo seria feliz. Nem que seja só hoje, amanhã e depois. Mês que vem, talvez. Um ano, uma vida, ou mais. Mas ele estava ali e tudo fazia sentido.
– Me desculpa. – ele disse.
– Cala a boca.

Do outro lado da rua, um senhor abaixou, pegou o controle e colocou de volta no bolso. Seus olhos espantosamente azuis brilhavam e ele sorriu.

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4 Responses to “Dragões, flores e toda uma vida (ou mais).”

  1. 1 soalgumasletras

    “Era estranho, pois até cinco minutos atrás, tinha certeza que o tinha esquecido e sentia-se mal por isso. “

  2. 2 Súuh

    Mas e se uma vida for muito pouco? Mtoo lindo

  3. incrível *-*

  4. “Talvez tudo mudasse depois, mas, por um futuro próximo, ela podia prever que tudo seria feliz. Nem que seja só hoje, amanhã e depois. Mês que vem, talvez. Um ano, uma vida, ou mais. Mas ele estava ali e tudo fazia sentido.”
    Sem palavras… indizível


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