Ramirez e sua máquina de calcular valor

22jul10

Conheci Ramirez exatamente um ano antes de me casar. Na verdade, eu só me casei, porque o conheci.
A cidade era pequena na época, a modernidade ainda não havia ultrapassado as estradas até a nossa casa então ainda passavamos todas as noites com os ouvidos colados no rádio ouvindo sobre as maravilhas do mundo novo e tentando entender o que era aquilo que o locutor chamava de televisão.

No primeiro dia daquele ano Ramirez apareceu, era um homenzinho mirrado, com olhos espantosamente azuis. Vinha apenas com uma mochilinha. A cidade o recebeu com festa. Todo primeiro dia do ano ele estava ali, e dizia que pegava carona com os anjos que chegavam em dezembro para comemorar o natal. Então não tinha falha, no amanhecer de 1º de janeiro, Ramirez aparecia com seus passos lentos e se postava em algum cantinho da cidade, para mostrar alguma novidade que segundo ele mesmo, vinha de Deus.

Meu pai morreu quando eu era menino pequeno, então eu nunca tinha ido conhecer Ramirez. Eu era o único da cidade e sabia disso. Mas eu sempre trabalhei muito e não podia parar.
Mas no ano interior, uma doença se espalhou pela cidade e um médico veio de fora para anunciar para todos que aquilo também era conhecido como solidão. E acho que fui um dos primeiros a pegar. Logo toda a cidade sentia as mesmas dores e o peso no corpo, alguns mais idosos até chegaram a morrer. E o padre não se aguentava mais de tantas maneiras de pedir algum milagre que ele já havia inventado.

Então veio primeiro de janeiro e Ramirez armou uma super tenda de circo e colocou uma placa grande em cima: ‘Máquina que calcula o seu valor’. Ninguém entendeu no começo, mas logo todos começaram a entrar na tenda pra descobrir. Então logo vieram me dizer que Ramirez trouxerá uma máquina que era capaz de descobrir quanto vale cada pessoa e isso se espalhou, até os prisioneiros foram levados à tenda, para saber o quanto valiam. E se valessem algo bom, a policia o soltava na hora, sem hesitar.

Um dia choveu muito, a cidade ficou toda escura e o trabalho se fez impossivel. Passei o dia deitado no chão, ouvindo os trovões racharem o céu. Desconfigurado por não ter um sentido para as coisas eu torcia para o rio transbordar e eu ter alguma desculpa para morrer afogado. Até que uma voz chamou meu nome, me parecia que era trazido pelo vento. No segundo chamado eu me levantei e olhei pela janela, a placa do Ramirez brilhava e iluminava a cidade toda. E então eu fui.

Entrei na tenda e era exatamente como todos diziam. Uma grande máquina no fundo e ele sentado de pernas cruzadas e os olhos azuis bem abertos. Ele sorriu pra mim, e alguns dentes de ouro brilharam. Ele se levantou, veio me abraçar e me disse:
– Finalmente. Eu estava chateado por você ser o único que nunca veio me ver. Mas venha não podemos perder tempo, deixa eu te mostrar o que você perdeu todos esses anos!
E rapidamente ele saiu correndo pela tenda e voltou com sua bolsa. Puxou um grande livro preto e abriu em qualquer página.
– Este é um livro de histórias fantasticas!!! O que eu ler daqui em voz alta, acontecerá de verdade!! “…naquela noite quatro elefantes percorreram as estradas, deixando as pegadas marcadas por toda a parte…”
No mesmo instante o chão começou a tremer e os barulho dos elefantes correndo emudeceram o som da chuva e Ramirez guardou o caderno e tirou um relógio da bolsa.
– Este é um relógio que anda para trás! Mas, já está agendado para eu dar para uma mocinha daqui a alguns anos e… Bom, é uma pena, seria muito útil para você…. Mas, tenho outras coisas aqui que você precisa ver…
– Eu só quero saber da máquina, não quero incomodar.
Ele me olhou, como se estivesse me radiografando. Como se pudesse me ler por dentro. E então sorriu de novo.
– Tudo bem então. Vamos ver o quanto você vale!
Ele correu para a máquina e começou a apertar um monte de botões complicados. Fazia uns barulhos com a boca e dava tapinhas na cabeça. Depois de uns 15 minutos assim ele se virou pra mim sério. Puxou um longo papel que saia da máquina e me mostrou o que estava escrito em letras vermelhas: ‘NADA’.
– Isso é que eu valho?
– Uhun…
– Por que?
– Não faço a menor idéia. Eu nem te conheço tão bem, eu venho aqui desde quando você nasceu e você nunca teve tempo de vir ver as coisas mais extraordinárias do mundo. Devia estar muito ocupado sendo feliz imagino… Não é?
Eu fiquei em silêncio, ele voltou a correr para a bolsa dele e tirou um espelho. Colocou na minha frente e perguntou:
– O que você vê?
– Eu.
– E?
– Só.
– Ai está o problema, o importante é tudo que você enxerga em você. Se ao olhar no espelho só ve seu rosto, é hora de mudar um pouco as coisas. O seu valor, é você quem escolhe. Não é porque nunca te deram valor algum, que você também não vai se dar ao devido respeito. O olhar vale ouro!
– Mas eu nunca tive tempo de saber, nunca encontrei a quem perguntar. O médico me declarou doente e eu nunca encontrei a cura. Só sei que dói onde eu nem sei apontar. E se a máquina diz que não valho nada, quem sou eu pra duvidar?
-Só você pode duvidar! A máquina é exatamente isso, só uma máquina…
Ele pegou o espelho e começou a dançar por toda a tenda. Voltou para a máquina e digitou de novo um monte de coisas.
– Enquanto vocês acreditarem que uma máquina vai medir o valor de vocês, todos não valerão nada! Esse é o grande erro! Não existe prazo de validade, não existe medidas de valor… Você vale o quanto quiser valer!!!
Ele tirou um papel de máquina, amassou todo e colocou na minha mão. Em seguida, eu não vi mais nada…

Dois olhos verdes me acordaram e perguntaram se estava tudo bem. Eu estava deitado no chão de novo e na minha mão um papel escrito ‘Válido até quando?’. Então eu olhei de novo aqueles olhos verdes e me apaixonei tanto por eles, que alguns meses depois eu os pedi em casamento. Talvez seja besteria dizer, mas ali comecei a viver.

No outro dia 1 de janeiro eu me casei, é engraçado, mas Ramirez não apareceu naquela manhã. E muitos dizem que ele nunca mais voltou, mas eu não concordo eu acho. Porque ali do altar de onde casei, pude ouvir um farfalhar de asas e dois olhos espantosamente azuis olhando pela janela mais alta.
E então pude compreender que a gente é que escolhe o quanto vale e talvez Ramirez tenha vindo aqui todo esse tempo, só pra fazer alguém entender isso. Fico feliz que tenha sido eu. E que talvez ele estivesse esperando eu aparecer.
E quanto ao mundo todo eu não sei, mas pelo menos por ali, naquele mundo longe de todo o resto mundo, as coisas nunca foram tão felizes.

Anúncios


8 Responses to “Ramirez e sua máquina de calcular valor”

  1. eu sorri quando falou do relógio que anda pra trás. (:

    você anda escrevendo histórias um pouco mais felizes.
    sei la.. eu vejo coisas boas nelas.

    ficou foda esse, mesmo. 😀

  2. 2 Súh

    Ah o qe eu tenho pra fala neéh… ta lindoo

  3. “Talvez seja besteria dizer, mas ali comecei a viver.”
    ei, eu gosto quando você lembra as histórias que escreveu a um tempo atrás, parece que elas tem uma ligação, e eu te vejo em cada uma delas.

  4. 4 iza

    perfeita *-*

  5. 5 iza

    “E então pude compreender que a gente é que escolhe o quanto vale e talvez Ramirez tenha vindo aqui todo esse tempo, só pra fazer alguém entender isso. Fico feliz que tenha sido eu. E que talvez ele estivesse esperando eu aparecer.”

    *-* so pra constar…foi o melhor trecho! =D

  6. 6 Marcela

    que lindooooo, lindo, lindo e lindo
    sem mais.
    ” E quanto ao mundo todo eu não sei, mas pelo menos por ali, naquele mundo longe de todo o resto mundo, as coisas nunca foram tão felizes. ”
    :’)

  7. você é um Ramirez na minha vida, exatamente como o da história .-.

  8. 8 soalgumasletras

    eu sorri quando falou do relógio que anda pra trás. (:

    você anda escrevendo histórias um pouco mais felizes. 2
    Fico feliz por colocar mais finais felizez, seus finais felizes são melhores que os outros :D’


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: