Cheiro de cigarro, maquiagem borrada e os resumos do que eu não sei como pensar.

28jun10

Eu estava ali, sentado, no meu canto. Com as mesmas roupas de sempre, o mesmo all star, o cabelo todo bagunçado. E então você chegou, cumprimentou. E eu já me senti meio estranho só de observar você. Mas fiquei ali. Vendo você ser o centro das atenções, como sempre, da mesma forma que eu nunca vou conseguir entender como você consegue ser tanto, sendo você mesma.
Então você vem, senta do meu lado e fala oi. ‘Oi’. Me pergunta se tá tudo bem e eu digo que sim, claro. Eu sempre respondo que está tudo bem, evita muita coisa, sabe? Pergunta se eu ando feliz e de novo eu respondo que sim, você diz ‘que bom’ e eu sorrio. Sorrir sempre, mesmo sem vontade, evita também.
Você levanta e vai. E dessa vez eu sei que não vai voltar, nem pra saber se tá tudo bem. O máximo que vai fazer é mandar alguém perguntar e vai passar todas as vezes perto de mim só pra eu ver que não quis me chamar.

Poderia ser diferente, claro que podia. Mas não faz parte de mim. Eu podia chegar ali e conversar com todo mundo e ser o cara, para quando você chegar, só olhar pra mim. E continuar sendo o cara mesmo com você ali. Ou, eu poderia ter sido sincero e dito que não, que não está tudo bem, que eu não sei se ela conseguiu notar, mas não está tudo bem desde que tudo mudou, que não, eu não consigo mais ser feliz e todos os meus sorrisos ainda são só pra você e que eu mentiria se falasse que nunca gostei de você e mentiria também se falasse que nem sinto sua falta. Mas não faz parte de mim.

Fico até o fim. Já que estou ali, que seja pra estar ali. Então eu ando, vejo uns amigos, alguns que não são mais meus amigos. Alguns que não me querem por perto. Coloco a mão na bolso e lembro que quando mandaram eu escolher pra onde eu ir, eu resolvi ir comigo e só. Depois de um tempo eu comecei a fingir que eu não olhava tanto pra você, mas certeza que você já tinha reparado. Certeza. Era só mais uma noite, daquelas em que a gente volta pra casa, se sentindo um lixo. Aquela mesma idéia de fim de formatura, em que a festa foi um fiasco, choveu e a garota volta pra casa com o pé doendo, o vestido molhado, o cabelo bagunçado e a maquiagem borrada. Todo aquele cheiro de maquiagem borrada enche minhas roupas e se mistura ao cheiro de cigarro que contamina o ar. Lembro da música do Zander, ‘pra você um cigarro e pra mim um café, quem é que dura mais?’, meu lado assassino vê todos eles caindo no chão, com o pulmão cheio de fumaça. É, é hora de ir embora.

Já na rua, eu vejo você. Sentada na calçada. ‘Oi’. Você me diz que está esperando seu pai. Eu penso em tudo, as coisas passam a mil na minha cabeça e penso em ir embora. Mas não, não agora. Eu olho pra você. ‘Tudo bem?’, eu pergunto. ‘Não’, você sempre foi mais sincera que eu, em tudo. ‘Por que?’, ‘Falta alguma coisa, algo que eu não sei entender’.
Então eu sento ali, na rua, não na calçada. Eu olho pra você e você olha pra mim e ali, seus olhos não mentem mais. E eu tenho tanto pra falar, mas não sei dizer. E só fico olhando pra você. É o meu mundo de novo, igualzinho ao seu. O teu nome escrito de novo ao lado do meu. E então você pergunta: Tudo bem mesmo? E eu: Não.
‘Não?’, ‘é.. não’. E então a gente começa a rir. E ficamos rindo e rindo. Durante dias eu acho. Pelo menos assim pareceu pra mim. Nossas vidas que se encontraram como se fossem uma força inevitável que se choca a um obstáculo intrasponivel, de repente se compreenderam de novo, com um não.
Você pergunta pra onde eu vou e eu digo algo sobre o Alta Loma Hotel, e eu lembro que você nunca entendeu tudo aquilo que eu digo. E dou risada da sua cara confusa. Do seu olhar perdido, pensando em mil coisas que eu nunca vou saber listar.

Seu pai chega, você levanta e eu fico ali. Você me dá um beijo no rosto e me pede pra não sumir. Eu sempre sumo, você sabe. Mas eu sempre volto, não aprendi a ficar longe. Não de você. E você corre pro carro, e eu tento entender o que você quis dizer quando me falou pra não sumir. Você entra no carro, mas antes, me dá um sorriso sincero, o mais sincero que eu já vi. Como se realmente quisesse sorrir pra mim agora e meu mundo para mais um pouco. Eu faço o sinal do Spock pra você e você ri. Eu ouço risada de onde eu estou, é linda.

E você vai, pra longe. Mas, bem mais perto do que antes. Muito mais perto. Eu levanto da calçada, o cheiro de cigarro me acompanha, torço pra que todos eles morram. E vou embora. Talvez não tenha mudado nada pra você, talvez amanhã cedo seu mundo seja igual a hoje. Mas o meu, o meu mundo, é bem mais leve agora. E eu penso, vou amar, se você me entregar um pedacinho do seu, nem que seja só pra te ouvir de novo contar todas aquelas coisas sobre o seu dia. Nem que seja só pra odiarmos as mesmas coisas em paz. E eu começo a assoviar alguma música qualquer e abro os braços me equilibrando na sarjeta da calçada, pensando que seria bem digno da minha parte deixar a vida correr um pouco, porque as coisas sempre se ajeitam.

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2 Responses to “Cheiro de cigarro, maquiagem borrada e os resumos do que eu não sei como pensar.”

  1. 2 soalgumasletras

    Se não for o melhor, é um dos melhores.
    Nem tudo se ajeita, as vezes não adianta espera , uma hora nós temos que aprender a ajeitar, porque uma hora ela não vai voltar, assim como você também não, e ai acaba cada um pra um lado ? fim?
    Nem tudo se ajeita, nem tudo se resolve deixando … Nem tudo.
    Gostei muito.


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