Assim

01jun10

Ele desceu todos os andares. Decidiu ir andando mesmo, sem elevador. Queria ter muito tempo pra pensar. E realmente teve. Eram mais de 100 andares e a sala dele era lá em cima, no topo. ‘No topo do mundo’, como os amigos dele costumavam dizer. Chegou no terreo, parou na frente do espelho pra ver como estava, reparou na gravata torta e no cabelo desalinhado. Respirou fundo e continuou a andar, as pessoas o cumprimentavam, diziam ‘bom dia, senhor’, ‘o senhor está ótimo essa manhã’. Ele respondia com um sorriso amável, ou o mais perto disso que conseguia.

Enfim chegou. Parou na frente do balcão da entrada, esperou na fila junto com todas aquelas outras pessoas que queriam ser atendidas, aproveitou para ensaiar o que queria dizer. E então, chegou sua vez. Ele olhou pra ela, pro olhos claros atrás do óculos de grau, pro cabelo preso…
– Pois não Senhor?
– Eu não consigo dormir…
– Desculpe Sr, mas eu não sei como ajuda-lo.
– Não me chame de Senhor, por favor…
– Posso chama-lo de Chefe, se o Sr preferir.
– Não, por favor. Me escuta… Eu não consigo mais dormir, meu rádio liga sozinho…
– Eu não sei como ajuda-lo Sr.
– Me escuta… Eu sempre trabalhei mais de 12 horas por dia, eu ergui esse prédio com o meu trabalho, mais de mil pessoas trabalham pra mim, eu tenho negócio com todas pessoas mais influentes do mundo, eu tenho mais dinheiro do que eu jamais sonhei ter algum dia, eu posso ter o que eu quiser quando eu quiser… Mas eu não consigo mais dormir. Eu não consigo arrumar meu rádio, a tv tá fora do ar, nem a gravata eu não consigo mais colocar… Eu posso ter o mundo na minha mão, mas não consigo dormir, se não estiver você lá, pra me dizer que tudo está bem.

A fila de clientes para serem atendidos aumentava atrás dele. Mas ninguém dizia nada, o silêncio pesava enquanto esperavam o veredicto dela. Ela começou:
– Olha, Senhor…
– Não me chama de Senhor, por favor…
Ele bateu a cabeça no balcão, enquanto esperava ela começar a falar. Mas ela não falou. Ela poderia ter falado que também gostava dele e só estava confusa, podia ter pedido pra ele esperar, ela poderia! Mas não. Ficou assim, por talvez muitos dias de chuva, até que ele lembrou que era quase um dono do mundo e se levantou daquele balcão, arrumou sua roupa, vestiu bem suas amarras e saiu cumprimentando os clientes, desejando um bom dia.

A vida seguiu. Ela trabalhou, viveu, pensou ter se apaixonado, as coisas aconteceram, os filhos vieram, novos amores, novos rumos, novos sonhos, é verdade o que dizem sobre a vida sempre mudar e as coisas sempre se renovarem… Mas, de verdade mesmo, nunca mais foi feliz.
E ele, ele nunca mais dormiu.

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5 Responses to “Assim”

  1. Oun’ …. lindooo

  2. A vida sempre segue , as coisas sempre se ajeitam , mais nem sempre somos felizes com isso.

    Ta bom , como sempre

    ♥’

  3. viu.. não adianta simplismente TENTAR seguir…
    tem que querer, não adianta seguir se não vai ser feliz
    ela poderia ter falado que sentia falta dele, mais parece que ela tava mega cansada de tudo.

    ele.. se pá um idiota, ou apenas um cara que vivia confuso.
    isso prova que viver confuso não é legal.

    me fez pensar, muito.

  4. 4 Bih

    Você disse que era um dos piores que já tinha feito e eu ainda to me perguntando o que há de ruim aqui..

    É engraçado como as pessoas passam a vida toda dedicando-se as coisas materiais, ao dinheiro, posses e quase nunca percebem que a presença de uma simples pessoa em suas vidas traz uma felicidade que dinheiro nenhum compra.

    Cara, tá foda, como sempre! 🙂

  5. ele nunca mais dormiu. é


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